Destino Aventura é a rubrica em que A BOLA dá a conhecer jogadores e treinadores espalhados pelos cantos mais remotos do mundo.

Samuel Teles: «Quando era criança sonhava jogar com estádios assim...»

Médio luso assinou pelo Universitatea Craiova, o clube mais português da Roménia, no último verão e tem cumprido vários sonhos, incluindo o de jogar nas competições europeias

Destino Aventura é a rubrica em que A BOLA dá a conhecer os jogadores espalhados pelos cantos mais remotos do mundo.

Aos 26 anos, em final de contrato com o Feirense, Samuel Teles decidiu deixar Portugal pela primeira vez e rumar ao estrangeiro, mais concretamente à Roménia, onde representou o Otelul nas últimas duas temporadas. No último verão, mudou-se para o Universitatea Craiova, no qual encontrou uma grande estrutura portuguesa, apesar de ser o único luso no plantel. Adaptado ao futebol romeno, rapidamente se tornou num titular indiscutível e cumpriu vários sonhos na sua carreira, incluindo jogar nas competições europeias. Falta agora o de ser campeão e a sua equipa está em primeiro.

- Como surgiu esta possibilidade de rumares à Roménia?

- Eu estava no Feirense, estava a acabar contrato, era o meu segundo ano de Segunda Liga. Na altura, eu sentia que precisava de um passo diferente na minha carreira. Lembro-me, na altura, falei com o meu empresário e disse-lhe: ‘Olha, ou vou para uma Primeira Liga aqui em Portugal, que é o meu grande objetivo, ou então acho que é melhor ir para fora, para tentar outros mercados, para ver se me valorizam de outra forma. Porque, neste momento, se não surgir essa oportunidade em Portugal, acho que se calhar é o melhor a fazer.' Ao mesmo tempo que eu já tinha deixado esta ideia ao meu empresário, surgiu uma proposta aqui da Roménia — aqui a Roménia começa um bocadinho mais cedo porque o campeonato para no inverno por causa do frio, então o recrutamento começa um bocadinho mais cedo. Surgiu uma proposta da Roménia e até de outro país. Eu falei com um amigo meu que estava a jogar na Roménia na altura e ele falou-me muito bem sobre a liga, sobre as condições dos clubes, sobre o próprio futebol, sobre a forma como eles vivem o futebol aqui, o que também para mim me surpreendeu pela positiva. E eu tomei essa decisão de arriscar e de vir.

- Depois rumaste agora ao Universitatea Craiova. Tiveste um impacto imediato, és titular indiscutível. Que balanço é que fazes destes primeiros meses?

- Foi muito positivo. Eu estava no Oțelul, é um clube diferente. O Universidade Craiova é um clube grande aqui na Roménia e assim que tive o interesse, naturalmente fiquei muito satisfeito, porque conhecia a realidade do clube. E quando vim para aqui, gostei muito. Gostei muito da realidade do clube, as condições do clube são muito boas, as condições de treino, as condições que nos dão mesmo em deslocações. Era um clube em que íamos lutar pelas competições europeias — como acabámos por jogar na Conference [League] — o que era algo que ia de encontro àquilo que eram também os meus objetivos. E vi que também me valorizavam dessa forma. Já me conheciam daqui do campeonato romeno, então, dias depois de eu chegar, fui muito bem recebido. O treinador que me trouxe, o Mirel [Radoi], um treinador romeno que já cá estava e me conhecia aqui da liga, valorizou-me muito. Eu cheguei aqui e comecei logo a jogar. Aqui temos uma equipa muito forte, muito competitiva. Para cada posição temos dois, três jogadores com muita qualidade, por isso eu sabia que ia ser difícil, que íamos todos lutar aqui por um lugar, mas felizmente, com o meu trabalho, acabei por chegar e jogar e termos sucesso. Porque para além de jogar, a equipa está bem. Isso é o mais importante, é termos as vitórias. Neste momento estamos em primeiro, mas estamos na luta. E demos uma muito boa imagem nas competições europeias, qualificámo-nos para a Europa, onde eles já não iam há muitos anos. Estamos a viver aqui uma época muito boa e fico muito feliz por fazer parte dessa época boa e que ainda vai a meio, ainda pode ser muito mais bem-sucedida.

- Já falaste aqui da forma muito apaixonada como na Roménia vivem o futebol. O Craiova é um clube com uma grande pressão e adeptos muito exigentes. Como é que lidas com essa responsabilidade?

- Ah sim, o Craiova também é conhecido por isso. Tem adeptos muito exigentes. É um clube que acaba sempre ali no top-3 há muitos anos, que dá todas as condições, mas por um motivo ou por outro já não é campeão há muitos anos. E sente-se que os adeptos sentem essa impaciência, essa exigência de voltar a ganhar títulos e de voltar a conquistar como no passado. Eu lido de forma natural. Nós somos jogadores, somos profissionais e sabemos que quanto mais alto é o nível, maior é a exigência e, de certa forma, a responsabilidade. Agora, eu lido de forma natural, de dar sempre o meu melhor e não tento ir muito nas emoções dos adeptos. Tento analisar com calma como as coisas correm quando corre bem, quando não corre muito bem, porque nós temos de ter este equilíbrio, acho que é o mais importante. Por isso eu gosto dessa pressão. Gosto de jogar para estádios cheios e aqui nós muitas das vezes jogamos com 20, 30 mil [pessoas]. E isso, eu tento levar isso como a parte positiva, de ser um apoio, de jogar com uma atmosfera... Quando era criança eu sonhava jogar com estádios assim. Levo nessa perspetiva, sinto-me muito feliz porque consigo fazer o que gosto. Tento não levar isso como uma pressão em termos negativos, mas tentar desfrutar ao máximo disso com a responsabilidade de saber que temos de ganhar e que temos de ter uma boa performance, mas isso é com base no trabalho. Depois lá temos também de ter personalidade para jogar nestes ambientes, mas eu gosto disso, sinceramente, eu gosto.

- O clube está agora na liderança isolada do campeonato. Sentes que esta é a oportunidade de ouro para conquistar o título? Até vendo, por exemplo, o FCSB e o Cluj, que seriam dois dos principais rivais, ali a meio da tabela?

- Nós cá dentro sentimos e principalmente na Roménia se sente que é um bom momento, que a equipa está a viver um bom momento. Até pela imagem que deixámos na Conference. Nós tivemos três play-offs com equipas fortes em que nós eliminámos as três. Depois, a imagem e os resultados e a performance que tivemos nos jogos da Conference deram... Nós estamos com uma imagem muito boa na Roménia. As pessoas reconhecem a nossa qualidade, reconhecem o nosso trabalho e sentem que, mesmo em relação a outros anos, somos capazes de estarmos mais completos, conseguirmos ser mais capazes de lutar pelo título. Agora, estamos no bom caminho, mas ainda vai a meio. e aqui na Roménia tem uma particularidade: o campeonato é diferente. Agora nós fazemos esta segunda volta, os pontos vão-se dividir para metade e isso faz bastante diferença, porque depois vai haver um apuramento de campeão com os seis primeiros e tudo pode acontecer. Eu já começo a ter alguma experiência nisto e sei que isso depois acaba por ser os momentos da equipa. Nós estamos a atravessar um bom momento, felizmente. Temos de continuar no bom caminho e eu acredito que este ano pode ser o ano em que podemos ser muito felizes aqui e conquistar o título. Agora, não vejo que seja algo fácil, acho que vai ser difícil porque isto ainda vai partir e ainda faltam muitos jogos. E nós estamos no bom caminho, mas é só isso, é no bom caminho e temos de continuar neste caminho porque a qualquer momento o futebol, em Portugal, na Roménia, em Inglaterra, muda muito rápido. E num dia estás lá em cima, no outro dia tens dois, três maus resultados e estás ali a meio. Então nós temos de ter calma e continuar jogo a jogo, porque temos qualidade claramente para lutar por isso, mas isso vamos ver dentro de campo.

- Como foi jogar pela primeira vez nas competições europeias? Acredito que tenha sido um marco especial.

- Foi, foi. Foi um marco muito especial na minha carreira. Fiquei muito feliz. Acima de tudo, também sentir que fiz parte dessa conquista. O ano passado, os meus colegas fizeram um trabalho fantástico em qualificar-se para os play-offs — o que era natural neste clube, este clube quase todos os anos se qualifica para os play-offs, acaba sempre no top 3 como te disse. Mas são sempre jogos, das qualificações tivemos três play-offs, ou seja, são seis jogos em que logo aí apanhamos equipas como o Basaksehir, o Trnava e fomos a Sarajevo também... Que são jogos difíceis e eu fiz os jogos todos e senti que contribuí também para isso. Isso ainda foi mais especial. E depois, a partir do momento em que me estreei e que joguei com equipas do nível do Mainz, da Bundesliga, e que até ganhámos... Fizemos uma exibição fantástica em Atenas contra o AEK e depois infelizmente aquilo, nos últimos dois minutos... Eu acho que isto dava uma história dramática do futebol, a forma como nós não nos qualificámos, com base nas nossas performances e nos resultados, na combinação de resultados que houve.
Mas eu olho para trás com um bocado de mágoa, porque acho que nós merecíamos ter passado e acredito que íamos longe, porque eu acho que nós temos uma equipa forte. Depois de defrontar estas equipas, acho que nós temos uma equipa que poderia ir longe, mas também olho para trás com um sentimento de orgulho e de satisfação, que deixámos uma muito boa imagem, principalmente na Roménia, que agora só tínhamos duas equipas este ano nas competições europeias (eramos nós e o FCSB na Liga Europa), em que deixámos uma boa imagem também da Roménia nas competições europeias. Acho que isso foi importante e foi um sentimento de orgulho, de sentir essa valorização, essa contribuição. E foi um marco bonito na minha carreira que eu espero que continue neste sentido a progredir e a estar em palcos cada vez melhores.

- Tiveste alguma conversa com a estrutura do clube antes de aceitar aqui o desafio, com o diretor desportivo Mário Felgueiras? Disseste que o teu antigo treinador teve algum peso na decisão, mas pergunto também se os portugueses, muitos portugueses na estrutura, também.

- Eu quando soube da proposta, na altura, eu só sabia que estava cá o Mário [Felgueiras], penso eu. Penso que na altura só estava o Mário como diretor desportivo. E as conversas que eu tive foram com o Mário e com o treinador na altura, o Mirel Rădoi e tiveram um grande peso essa conversa, para mim. As conversas tiveram um grande peso, porque eu estava a acabar contrato com o Oțelul, sentia que era momento de mudança, sentia que precisava de um novo desafio na minha carreira. De certa forma, olhava até como uma experiência fora da Roménia, sendo muito sincero, era isso que eu procurava, mas depois fui contactado pelo Mário e quis ter uma reunião comigo e com o treinador na altura, o Mirel Rădoi, que, depois da conversa que tivemos, fez-me aceitar. Porque ia de encontro àquilo que eu procurava na minha carreira, que era lutar por títulos, que era a parte desportiva, lutar por competições europeias, ir às competições europeias e esse clube dava-me essas condições. Eu conhecia a realidade, conhecia as condições do estádio, da exigência, dessa tal pressão e isso é algo que nós como jogadores é uma responsabilidade e viver isso diariamente... não é para qualquer um, mas eu gosto disso. Isso dá-me motivação para treinar ainda mais e mais, porque sabemos que isto interessa não só para nós, mas para muita gente e isso para mim é uma grande motivação. E eu quando vim para aqui, uma das grandes coisas foi lutar por títulos e ir às competições europeias. Foi o que me fez logo aceitar.

- E a chegada agora de um treinador português, do mister Filipe Coelho, de alguma forma fica mais fácil comparativamente com um treinador estrangeiro ou não muda assim tanto?

- É diferente. É a minha primeira experiência cá fora com um treinador português. Eu primeiro, antes do mister chegar, eu não queria que o mister Mirel fosse embora, porque foi o treinador que me foi buscar, é muito bom treinador também — já teve passagens tanto como jogador, como treinador na Arábia Saudita, em grandes clubes, seleção aqui da Roménia, ou seja, era um treinador que também aprendi muito com ele. Eu não queria que ele saísse, mas a vida é assim e as coisas acontecem. E aqui com a chegada do Filipe, confesso que era um treinador que eu não conhecia, porque ele teve muitos anos fora, como adjunto do Paulo Bento, e acabei por o conhecer aqui. Mas ajuda sempre falarmos a mesma língua, porque ajuda na comunicação. Foi um treinador que veio com ideias novas que acho que também nos ajudou, dar-nos coisas diferentes ao nosso jogo. E de certa forma, fiquei muito contente também por conhecê-lo a ele e toda a estrutura que veio com ele, que ele também trouxe staff que veio com ele. E é uma experiência nova para mim, porque acaba por ter um treinador português, falamos a mesma língua, vimos da mesma cultura. Pronto e aqui estamos a viver uma experiência diferente.

- Com tantos portugueses na estrutura, já fez algum pedido à direção para ter um compatriota na equipa ou é um pouco indiferente?

- Não, não, eu não me meto nessas decisões. Claro que se me perguntarem a minha opinião, eu dou, mas nessas decisões eu não me meto. Eu brinco muito com eles, porque somos portugueses e sabes, quando estamos cá fora, sentimos aquela saudade de falar português, de ter algumas brincadeiras que eram típicas em Portugal e que aqui é mais difícil ou temos de nos adaptar a outras línguas e outras culturas. Então eu brinco muito com eles, mas no que toca a essa relação de treinador-jogador, diretor, há uma linha bem clara em que cada um faz o seu trabalho e assim é que está bem.

- E como é o dia a dia num ambiente assim tão português?

- O dia a dia acaba por ser semelhante, de certa forma, ao que eu tinha em Portugal. Temos os treinos de manhã, tomamos o pequeno-almoço no clube, fazemos o nosso treino lá, se quisermos ir ao ginásio depois à tarde também temos, almoçamos no clube. O clube dá-nos condições fantásticas para nós realizarmos o nosso trabalho. Se treinarmos à tarde também temos o jantar no clube. Estão até a construir um ginásio maior para nos dar ainda mais condições para fazermos o nosso trabalho. Em termos de staff, não só o português, mas é uma estrutura já bastante completa que nos permite trabalhar da melhor forma. Estive os primeiros dois anos sozinho, agora a minha namorada veio com o meu filho pequenino e acaba por ser a minha companhia lá. Em Portugal teria amigos, familiares. Essa é a grande diferença, é estarmos ali só nós.

- E qual foi o maior desafio ao chegar à Roménia e também a este clube em concreto?

- Em relação ao desafio, acho que o desafio até está de certa forma relacionado com isso. Acho que o maior desafio é estar distante já há algum tempo. Em que eu começo a olhar para trás e passo a maior parte do meu ano aqui, longe da minha família, dos meus amigos. De certa forma estou a viver um grande momento na minha carreira, que eu já previa pelo meu trabalho e que era aquilo que eu procurava. O que me deixa muito feliz e ao mesmo tempo sinto que era algo que eu adorava, que os meus amigos aí em Portugal, a minha família, vivessem de perto comigo: ver estes estádios, 20, 30 mil pessoas e que muitas delas a cantar por ti. Isso era uma coisa bonita de partilhar com essas pessoas. E o maior desafio, na minha opinião, penso que é estar longe, é perder alguns momentos, porque a nossa vida de jogador obriga-nos a ter estas decisões difíceis, de ter, por exemplo, agora estou de estágio, de perder muitos aniversários, perder casamentos, natais... Acho que estes são os grandes desafios, na minha opinião.

- Dito isto, ainda tens contrato por mais alguns anos, o objetivo passa por continuar no estrangeiro e eventualmente regressar assim no final da carreira a Portugal, ou estarias aberto a isso num momento próximo?

Isto é como eu digo sempre: depende. Depende do clube, depende do contexto, do projeto, digamos assim. Naturalmente, o mercado português é um mercado que gosta de vender. É um mercado vendedor. Eu neste momento tenho 28 anos, sei que o mercado português é um mercado que gosta de comprar jovens para vender. O que foi algo que eu também gostei muito de alguns clubes que eu sentia aqui, que compram muito com base na performance, às vezes mesmo sendo de uma idade mais avançada, 26, 27, eles continuam a apostar pela performance. Respondendo à tua pergunta: eu tenho ambições de voltar a Portugal. Agora não sei se este será o momento, porque estando as coisas a correr bem aqui fora, certamente acredito que mais oportunidades cá fora possam surgir. Agora, naturalmente, eu conheço muito bem a realidade portuguesa. Em que se surgisse uma proposta de Portugal que me fosse interessante, obviamente que voltaria. Agora, sendo realista, acho que neste momento é um momento de continuar fora, mas mais à frente na minha carreira eu pretendo voltar a Portugal.

- Um dos objetivos é também jogar na Primeira Liga?

- Sim, sem dúvida. Foi algo que eu ainda não fiz. Era o que eu queria fazer mais cedo, o meu objetivo era jogar a Primeira Liga em Portugal e depois sim aventurar-me no estrangeiro. Eu gostava de ter estas experiências fora, mas a minha carreira... O que eu queria era a progressão na carreira e estava no Feirense, na Segunda Liga. Num primeiro ano tivemos perto da subida e isso aí até era mais fácil de acontecer, porque acabava por já estar no clube e já jogava a Primeira Liga. Isso não surgiu, acabou por também não surgir a Primeira Liga e tive de tomar opções. Mas sim, um dos objetivos seria jogar numa Primeira Liga.