Pensar, o princípio dos sucessos
Comecemos pelo princípio. O princípio das coisas, o pensamento. A capacidade de parar para olhar e ver, tocar e sentir, ler e perceber. O panorama do futebol português não apenas o merece, mas exige-o, num momento em que a indústria é cada vez mais global e exigente, e em que a qualificação do trabalho e dos projetos é essencial para garantir o sucesso, transversal e em âmbitos e ambientes tão distintos como complementares para que os objetivos possam, gradativa e qualitativamente, ser atingidos.
Daí à necessidade emergente de um fórum em que todos possam ser escutados, em que todos possam ter opinião, em que todos possam contribuir, é um pequeno-grande passo dado pela Federação Portuguesa de Futebol. Como se de um pontapé de saída se tratasse, para um jogo com prolongamento, decisivo para o encontro de plataformas de diálogo e de caminhos de construção de um ecossistema mais uniforme, democrático, transparente e equilibrado.
O 1.º Congresso do Futebol Português foi, apenas, um ponto de partida e representa, na verdade, o passo mais visível de uma estratégia que tem de aproveitar o que de muito bom foi feito nos últimos anos (seja no reforço da componente estrutural da entidade que gere a modalidade em Portugal, seja no capítulo mensurável dos resultados desportivos obtidos entretanto), à crescente necessidade de agregar. Esse é o verbo. Agregar vontades, congregar protagonistas, chamar novos atores e projetar ideias.
Vejo o desporto-rei, em Portugal, não apenas como o óbvio catalisador de atenções gerais e mediáticas. Ele continua a ocupar uma grande percentagem das páginas dos três diários da especialidade, a preencher espaços nobres nos canais de televisão e rádio, e a merecer a atenção privilegiada da maioria dos seguidores e utilizadores digitais na área do desporto.
Mas o futebol é bem mais do que isso. Importa fazer uma análise global e pormenorizada dos enquadramentos legais e financeiros, zonas tantas vezes cinzentas e pelas quais passa uma boa parte das dúvidas metódicas e práticas de tantos dirigentes, no exercício das respetivas funções.
É essencial entender a modalidade como um edifício cujas bases têm não apenas de ser acauteladas, como estimuladas em todo o tempo e a toda a geografia do território: as associações distritais e regionais continuam a ser o pólo de encontro e desenvolvimento do jogo. Dessas 22 estruturas emerge a promoção, o despiste, a filtragem e a qualificação dos principais agentes (jogadores e treinadores). Surge delas a paixão pela prática, o gosto pelo desenvolvimento e o sacrifício pela competição, que, evidentemente, se torna depois o grande objetivo dos mais dotados e capazes.
Mas é essencial perceber este edifício como uma construção em permanência, porque, alterna estruturas físicas com dimensão humana. Terá de olhar a formação contínua numa lógica biunívoca: o crescimento dos parâmetros técnicos e profissionais, por um lado, e a perspetiva da formação geral, continuada e acrescentada, dos indivíduos que gravitam em torno do futebol profissional. Sobretudo, claro, dos jogadores, sabendo-se que é uma ínfima percentagem a que corresponde aos atletas que, efetivamente, ganham o suficiente, durante as respetivas carreiras, para não terem quaisquer problemas vida fora.
É também essencial compreender a dinâmica das competições, porventura repensando a sua lógica, por forma a não manietar a qualidade em detrimento da quantidade, e de tentar tornar o jogo efetivamente transversal, e a sua organização correspondente aos anseios, mas igualmente às reais possibilidades de clubes e dirigentes. Só faz sentido ter a ideia de uma liga profissional qualificada e competitiva, se, a montante do processo organizativo, cuidarmos de competições não-profissionais preparatórias para as exigências dos patamares mais elevados. Se o não fizermos, arriscaremos a rutura financeira e a ineficácia dos modelos competitivos de base.
O fórum do passado fim de semana, na Cidade do Futebol, foi um pontapé de saída notável, pelo diagnóstico transversal, que resultou do trabalho de seis meses, em cada uma das áreas abrangidas, mas representou também uma responsabilização total, a partir da Federação Portuguesa de Futebol, de todos os agentes envolvidos. Acredito que será importante, para o próximo estágio de investigação e debate setorial, a atenção especial à componente de Ética e Deontologia, sob a forma (fica a proposta…) da elaboração de um código identificativo e normativo desses pressupostos essenciais ao Desporto, com o seu lançamento e assinatura por todos os atores do ecossistema futebolístico português. Será um elemento de superior e formal responsabilização, unindo em torno de valores inegociáveis todos os que pretendem contribuir para um Futebol mais democrático e mais agregador.
Talvez seja este o momento ideal, a quatro anos e meio da organização conjunta do Mundial de Futebol em 2030, para enterrar machados de guerra e perceber que, na saudável partilha de ideias, troca de experiências e diferença de visões, se pode construir um edifício com bases sólidas, alicerces à prova de sismo, com condições inigualáveis para o sucesso de médio e longo prazo. Esta será, seguramente, a primeira grande vitória.