Mário Felgueiras: «É uma experiência que em Portugal jamais teria tido»
Mário Felgueiras assumiu há dois anos o cargo de diretor desportivo do Universitatea Craiova, depois de muita indecisão no que fazer após terminar a carreira de guarda-redes em 2019, e transformou o emblema romeno numa equipa que está a luta pelo primeiro campeonato em mais de 30 anos (está em primeiro lugar) e que regressou à fase de grupos das competições europeias. Além disso, trouxe vários portugueses para a estrutura e também uma equipa técnica liderada por Filipe Coelho em novembro, tornando o clube no mais português da Roménia.
- Quando é que percebeu que queria ser diretor desportivo, depois de muitos anos a defender a baliza?
- Na verdade, quando deixei de jogar futebol, estava realmente numa fase em que queria ficar totalmente desligado. Eu deixei de jogar praticamente no verão antes de surgir a Covid, em março de 2020. Eu deixei de jogar no verão de 2019. Na altura estava já um bocadinho cansado, mais até a nível mental. Realmente precisava de uma pausa e pensava que não queria ficar mais ligado ao futebol. Acabei por ficar um ano, um ano e pouco, praticamente desligado. Até que acabámos por sentir um bocadinho a falta daquilo que era a adrenalina do jogo, a adrenalina do futebol, e comecei a ponderar por onde é que poderia ficar novamente ligado ao futebol. Acabei por fazer um percurso um bocado diferente daquilo que é ser diretor desportivo. Tentei apalpar outros terrenos. Comecei como treinador de guarda-redes, após um convite por parte do Sporting para estar nas escolas — neste caso na escola do Sporting dos miúdos em Braga. Depois acabei por entrar como treinador de guarda-redes no SC Braga, nos sub-23, na altura com a equipa técnica do Artur [Jorge], através de convite do Eduardo. Mas depois também percebi que não era bem o que eu queria. Não me sentia totalmente focado ou motivado para estar nessa posição. Faltava-me algo.
- Nesse momento também já estava no meu curso, estava a tirar Psicologia - que já era um curso que vinha de enquanto jogava, já estava na universidade. Estava ocupado também com outros negócios que já tinha extra-futebol e percebi que realmente do treino gostava, mas não era bem o que eu queria. Acabei por também trabalhar depois como agente de jogadores, maioritariamente fazendo intermediações no estrangeiro. Permitiu-me conhecer o outro lado, do qual eu enquanto jogador não tinha tanto conhecimento, porque enquanto jogadores, obviamente, estamos mais conscientes daquilo que é o treino, daquilo que é a preparação, mas a parte da negociação não estava tão por dentro. E permitiu-me, no fundo, também perceber outras dinâmicas, outra perspetiva e foi aí que comecei, se calhar, a pensar mais na questão de um dia vir a ser diretor desportivo. Porque permitir-me-ia, no fundo, ter esta parte da negociação, a análise do jogador, também estar, obviamente não estou diretamente envolvido naquilo que é o treino, mas na escolha das pessoas que preparam o treino, que fazem a gestão de balneário. E foi uma área que eu, já enquanto jogador, por vezes ponderava essa posição e foi então que decidi acabar por me formar nessa área. Tirei a pós-graduação na Liga em Organização e Gestão no Futebol Profissional e depois acabou por surgir a oportunidade de trabalhar aqui no Universitatea Craiova.
- A minha segunda pergunta era exatamente nesse sentido. Como é que surgiu essa possibilidade de regressar à Roménia? Um país onde já jogou em dois clubes, o Brasov e o Cluj, mas agora noutro papel e noutro clube.
- É uma história gira, porque eu já conheço o patrão do Craiova há muitos anos. Eu ainda jogava e aconteceu, pelo menos por três vezes, de estar muito próximo de assinar para jogar pelo Universitatea Craiova, com o mesmo patrão de hoje. Por uma ou por outra razão, nunca chegámos realmente a acordo. Ainda hoje brinco com o meu patrão por causa disso, mas fomos mantendo relação. Depois, enquanto empresário, também sempre mantive a relação e acabei por ajudar em alguns processos. E foi algo que fomos mantendo uma boa relação, até que acabou por surgir, numa visita a Portugal, o convite. Eu na altura ainda não estava totalmente certo de que não fosse o melhor passo — isso eu sabia que era —, mas se estava capaz. Porque estamos a falar de um clube... na dimensão da Roménia é um clube muito grande e obviamente nunca tinha trabalhado nesta área a 100%, ainda por cima num clube com esta dimensão, com esta exigência. Foi giro perceber que, quando somos expostos a este tipo de desafios, obviamente algumas dúvidas surgem. E depois o facto de ter de mudar de novo, de sair de Portugal — já estava habituado a estar em casa... Mas depois quando acabei por decidir, já não pensei mais e foi a melhor decisão que podia ter tomado.
- E qual foi o maior desafio a nível pessoal e também profissional nesta mudança?
- Bem, a nível pessoal, claramente foi voltar a sair de casa. A minha família ficou em Portugal, ainda está em Portugal. Também tenho um filho que estava numa fase na escola, não seria o ideal estar agora a mudar novamente tudo, e também sabia da exigência que eu iria ter nos primeiros meses. E, como tal, decidimos que era melhor eu vir neste momento para a Roménia sozinho, de forma a que me pudesse concentrar totalmente naquilo que era a reorganização do clube e criar outras condições. A nível profissional, é uma exigência e é um desafio diário. Lá está, é algo que às vezes partilho aqui com alguns jogadores — alguns que inclusive chegaram a jogar contra mim, ou que eu, quando jogava, joguei contra eles, estavam eles a começar a carreira deles — e os jogadores realmente não têm ideia daquilo que está por detrás do bem-estar deles. O que os clubes proporcionam. Os jogadores simplesmente chegam e veem tudo preparado e é uma logística muito interessante, perceber que a este nível, obviamente, não pode falhar nada. Os jogadores estão atentos a tudo o que falha e é esse o nosso trabalho. E aqui não é só a função de diretor desportivo. No fundo, tenho aqui mais alguns departamentos que temos que gerir e que temos que reinventar, reorganizar. Foi um processo e é um processo, dinâmico e contínuo, e acho que, a esse nível, aprender que no futebol todos os dias acontecem coisas novas e que às vezes aquilo que temos preparado para o dia seguinte já não faz sentido... E ter esta capacidade de reagirmos rapidamente, de termos que criar novamente condições e apagar alguns fogos que vão existindo, é uma dinâmica gira que eu não estava totalmente à espera.
- Já estava, acredito eu, habituado ao país por ter jogado lá, mas qual é que foi o maior choque cultural em termos Portugal e Roménia? De agora ou de antes?
- É assim, agora não me custou praticamente nada. Eu falo romeno fluente. Já o falava antes de vir para cá. Acredito que isso também tenha sido uma das vantagens ou uma das razões pela qual a direção do clube decidiu fazer-me o convite. E, como tal, eu já estava habituado. Apesar de que a Roménia é um país muito grande e de região para região existem características diferentes das pessoas, mas eu já tinha uma noção daquilo que era também a região de Craiova, a região de Oltênia. São pessoas que são muito mais apaixonadas, por exemplo, do que as pessoas do Norte, em Cluj - onde eu estive - ou em Brasov. Cada um com as suas características, mas eu já tinha essa noção. Não me custou nada, até porque nestes últimos anos eu sempre vim à Roménia, sempre fui acompanhando aquilo que foi o desenvolvimento do país nos últimos anos a nível de infraestruturas, a nível até do imobiliário, que desenvolveu muito. Portanto, não posso considerar que tive assim um choque. Se tive um choque foi pela positiva, porque apesar de eu conhecer o clube de uma forma mais distante, e sabendo que era um clube grande, depois de estar dentro do clube, na estrutura, aí é que se percebe realmente aquilo que é a grandeza do clube.
- O Universitatea Craiova é um clube com bastantes elementos portugueses na estrutura, desde equipa técnica, coordenador de scouting, fisioterapeutas, analistas. Chegaram todos esta temporada, depois de si. O que motivou esta reestruturação no clube e com o foco em Portugal?
- Primeiro que tudo, há, por parte do patrão, dos acionistas, da direção, uma vontade muito grande em tornar o clube um clube grande, não só na Roménia mas também na Europa. Quando digo grande, obviamente que seja com participação assídua naquilo que são as competições europeias, e este ano conseguimo-lo fazer. Há muitos anos — há mais de 30 e tal anos — que o clube já não participava nas fases de grupo, portanto foi muito importante. Ainda por cima neste molde agora da Conference, foi a primeira vez. O que o clube realmente quer é estar aqui nestes palcos, não só uma vez e de forma esporádica, e acredito que, ao mesmo tempo que nós, enquanto dirigismo nos clubes na Roménia, enquanto também na parte daquilo que é a metodologia de treino, desenvolvimento de treino, temos muito que melhorar. Também a questão da imprensa na Roménia, acredito que pudessem evidenciar melhor ou mais aquilo que há de bom no futebol romeno, ao invés de alimentar por vezes situações que de nada dignificam aquilo que é a história romena. E isso às vezes é uma luta que eu, ao início, tentei em certa medida... não é mudar, que eu não tinha essa influência, mas tentar perceber melhor esse fenómeno. Não consegui, nem consigo, e como tal então prefiro não me alimentar com esse tipo de situações, fazer o meu trabalho. E no final, como sempre, os resultados falarão se as coisas foram bem feitas ou não.
- E como é que faz esse balanço desta caminhada europeia? E se esperava chegar a este nível nesta altura, passado dois anos?
- Acreditar, acreditei sempre. Se há algo que eu posso dizer desde que estou aqui no Universitatea Craiova, é que realmente acredito que vamos ter sucesso, que estamos a fazer bem as coisas, que estamos no caminho certo. Que ainda há um caminho longo a percorrer para que possamos atingir aquilo a que nós nos propusemos. O primeiro grande feito realmente foi a qualificação para a Conference League. E é engraçado, e foi algo que eu disse à malta depois do jogo do AEK em Atenas, que nós, quatro ou cinco meses antes, quando nos qualificámos para a fase de qualificação, ninguém sequer acreditava que seríamos capazes de nos qualificar. Ou melhor, o nosso sonho era qualificar-nos. E depois pusemo-nos numa situação em que já era quase impossível... ou se não nos qualificássemos para o playoff, já era uma má performance. E foi o que eu disse, nós não podemos passar do 8 ao 80 em quatro meses. Foi uma aprendizagem muito boa para que, para o ano, possamos estar mais cimentados naquilo que são as competições europeias. Estamos a falar de um clube, como eu disse, que nos últimos anos não participou nas competições europeias. Não tínhamos nenhum jogador que com o clube tivesse tido essa experiência. São coisas que fazem a diferença. Quando nós vemos uma equipa do AEK Atenas ou do Sparta de Praga e vemos a quantidade de jogadores que já estão lá e que já jogaram em Champions League, em Europa League... o detalhe faz a diferença. E foi o que eu não queria, era que realmente as pessoas se esquecessem daquilo que foi a festa em agosto, no final de agosto, quando nos qualificámos com o Basaksehir. Eliminámos já uma equipa na altura, não é? Que era super favorita. E a festa que foi no estádio, toda a gente dizia 'epá, agora é só desfrutar'. E a verdade é que fizemos 7 pontos e nos últimos dois jogos não fizemos nenhum ponto, e foi por um golo que não passámos. Quando estivemos a ganhar 2-0 no último jogo, perdemos 3-2. Foi uma derrota realmente... custou muito pela forma como foi, mas o futebol também já sabemos que é... que é o momento e há sempre um jogo seguinte que pode mudar, que pode mudar tudo. Portanto, estou muito orgulhoso daquilo que fizemos, daquilo que a malta, os jogadores, a equipa técnica, toda a equipa técnica anterior como a que está agora, da direção... Foi um esforço e uma experiência muito positiva para todo o clube. Para percebermos também o nível em que nós estamos.
- Também já falou nisso, na chegada do mister Filipe Coelho para suceder ao Mirel Radoi no comando técnico em novembro. Apostaram num jovem treinador português, nos últimos anos teve muita experiência como adjunto do Paulo Bento, mas não tinha experiência na Roménia. Qual é que foi a lógica? E como é trabalhar também com ele no dia a dia?
- É assim, a lógica da escolha pelo mister Filipe Coelho foi essencialmente por aquilo que é o contexto do nosso clube. Como eu disse, é um clube muito grande, com uma dimensão e com uma exigência diária de uma equipa que quer títulos todos os anos e que, infelizmente, não conseguiu e ainda não consegue... ou melhor, não foi campeão nos últimos 30 e tal anos. Portanto, é um clube muito peculiar, que tem uma massa adepta muito exigente, que está habituada a um Craiova de competições europeias, de dominar, inclusive quando o FCSB também estava nas competições europeias, inclusive com a Liga dos Campeões. E é uma pressão que paira no ar e que para mim é fascinante poder trabalhar diariamente com essa pressão, mas tinha consciência que o treinador que viesse, se calhar seria um plus se não tivesse plenamente consciência daquilo que seria o tamanho e a grandeza do clube. Daí nós termos tomado essa opção, de termos definido que o perfil do treinador teria que ser um treinador que não teria necessariamente que ter muito currículo. Até porque por vezes os treinadores com currículo podem também cometer o erro de achar que, porque tiveram sucesso num determinado contexto, a forma como tiveram sucesso vão ter sucesso em todos os contextos e isso não é sempre verdade. Portanto, acima de tudo queríamos um perfil de um treinador que viesse e que chegasse ao Craiova, que não tivesse plenamente consciência daquilo que seria a exigência diariamente, mas ao mesmo tempo visse aquilo como uma oportunidade da sua vida. Que percebesse que era um clube que tinha umas infraestruturas muito boas para se poder trabalhar e que viesse com soluções e não com problemas. E não nos arrependemos de todo da escolha do mister Filipe Coelho, porque veio obviamente a comprovar aquilo que nós já esperávamos e já sabíamos. Para já, estamos numa posição que é a posição que sempre quisemos estar, primeiro lugar. Mas a verdade é que também falta ainda... faltam 19 jogos para chegarmos ao final do campeonato, ainda muita coisa vai acontecer. Mas acreditamos plenamente que foi a escolha acertada.
- E como é que reagiu ao interesse do Pafos, no seu treinador? Entretanto já foi oficializado um novo treinador, mas surgiu essa notícia. Vê isso como um sinal positivo ou negativo?
- Eu vejo como um sinal positivo, mas a primeira coisa que eu lhe perguntei foi se ele queria ir ao Chipre só para comprar uma casa, porque realmente é uma zona boa para se ter casas. Agora, pondo a brincadeira um bocadinho de lado, claro que é sempre bom percebermos que tanto o nosso treinador como os nossos jogadores existe interesse neles em clubes que, neste momento, estão até em competições superiores, como neste caso o Pafos está na Champions. No entanto, o mister foi bem claro ao dizer que para ele só sairia daqui se fosse por parte da direção.
- E esta época chegou também um jogador português ao plantel, o Samuel Teles. Tem sido, digo eu, titular indiscutível. Veio de outro clube romeno, o Oțelul, mas é sinal que está atento à possibilidade de chegarem mais atletas portugueses, do estrangeiro, da Roménia ou até de Portugal?
- É assim, eu não discrimino nem positivamente nem negativamente os jogadores pela nacionalidade. E a verdade é que o Teles, eu já estou aqui há um ano e tal, e o Teles foi o único jogador português que assinou no Craiova. Não foi o único com quem nós falámos, mas que realmente houve interesse para fecharmos foi o Samuel Teles. E foi, obviamente, para além daquilo que é a sua capacidade técnico-tática, também enquanto homem, porque é um excelente profissional e uma excelente pessoa, já conhecia o campeonato. E isso é uma vantagem muito grande, porque a Roménia é um campeonato muito complexo, muito sui generis, e acreditamos que os jogadores que já conhecem o campeonato e que chegam depois ao Craiova, num contexto tão específico como é o nosso, vêm melhor preparados. E o Teles está a provar, no fundo, aquilo que nós já esperávamos. Um jogador super competitivo, que nos pode ajudar em várias posições e adaptou-se rapidamente, até porque também já percebe romeno, já tenta falar romeno — é uma coisa que eu ainda lhe dou na cabeça, mas ele tinha muitos portugueses no Oțelul e então é por isso que ainda não fala, mas já se desenrasca bem e claro que isso é sempre uma vantagem. Mas, acima de tudo, é uma pessoa que dentro do grupo foi muito bem recebida.
- E como é que é o dia a dia, pessoalmente? Acredito que ter muitos portugueses à sua volta, embora saiba falar romeno fluentemente, acredito que ajude também, se calhar, a matar um bocadinho as saudades de casa e do país?
- É assim, eu os primeiros seis, sete, oito meses estive praticamente... não é sozinho, mas estava todos os dias acompanhado, mas sem portugueses. A verdade é que hoje já somos alguns, também porque com a vinda do mister Filipe Coelho vieram mais três portugueses. Claro que torna o dia mais... não é mais fácil, porque realmente eu não tinha problemas nenhuns, mas sim, acaba por atenuar um bocadinho as saudades de casa. Até porque acabamos por falar de coisas do nosso país, temos sempre pessoas em comum, acabamos sempre por nos lembrar de coisas mais giras e as nossas histórias acabam sempre por fazer mais sentido do que se eu estivesse a contar a uma pessoa de Craiova, por exemplo. Por outro lado, também nos torna mais responsáveis, diria eu. O facto de estarmos todos ali também nos obriga a sermos sempre corretos, a sermos sempre pessoas humildes e que realmente estamos ali porque merecemos e não simplesmente porque ou viemos com o treinador ou da parte do diretor desportivo. Acho que isso cria ali um bom bem-estar. Eu não tenho a menor dúvida que toda a gente vê competência em todos os elementos que vieram este ano.
- Já falámos aqui um pouco também da dimensão do clube, da pressão que existe nos adeptos. Como é que lidam com esses momentos? A verdade é que falta conquistar o campeonato e ainda não conseguiram este século, mas até com a presença nas competições europeias é um sinal de que o clube está de facto em crescimento e o caminho é esse.
Em relação àquilo que é a pressão, eu enquanto jogador gostava realmente de sentir pressão, de ter o estádio cheio, de haver uma exigência diária por parte daquilo que era a massa adepta, da direção, porque permitia-me sempre tirar o melhor de mim. Não é que necessitasse só disso para dar sempre o melhor, mas realmente era algo que me 'obrigava' a estar totalmente concentrado e focado e trazer para mim uma exigência de saber que aquelas pessoas realmente davam tudo pelo clube. A verdade é que para alguns jogadores não funciona assim, funciona de uma forma mais negativa. Eu, como é que consigo lidar? Falando agora no meu caso pessoal — e é algo que eu tento sempre passar também aos jogadores, porque os jogadores de atualmente vivem num período muito diferente daquilo que era o nosso quando começámos a jogar há 15, 20, 25 anos atrás, que não havia as redes sociais — os jogadores hoje estão expostos a muita opinião pública. Eu, para me proteger disso, porque obviamente enquanto diretor também há muita gente que opina sobre aquilo que é o meu trabalho, e como eu não quero ser influenciado - por mais que possa dizer que sou e que consigo fazer um filtro -, eu não leio praticamente nada de imprensa. Tenho um acordo com o meu diretor de comunicação para me chegar a mim simplesmente aquilo que realmente é polémico e que eu tenho de resolver, de uma forma ou de outra. Às vezes, aquilo que possa ser dito sobre o treinador, sobre um jogador, uma polémica.... Obviamente que há casos que temos que gerir dentro daquilo que são as próprias situações mais delicadas no jogo ou no balneário, mas tudo aquilo que é para o bem e para o mal, não quero ouvir. E claro que quando é o bem, gostamos sempre de ler aquilo que falam sobre nós, mas também rapidamente percebo que é um falso elogio, porque nem é preciso perder: a primeira vez que empatamos ou que temos um jogo menos bem conseguido, somos sempre alvo de críticas e então prefiro, mesmo nas redes sociais, evito ao máximo... Quando me aparece alguma coisa de adeptos a comentarem ou de notícias, ponho logo aquelas coisinhas no Facebook para nem me aparecer mais. E tento sempre com os jogadores fazer-lhes ver que, por mais que eles digam que conseguem lidar com isso, influencia. É normal. E atualmente há pessoas que realmente opinam porque têm que libertar as frustrações que têm, porque não têm conhecimento daquilo que é o fenómeno futebol, e então é mais fácil estar ali a criticar do que realmente estar a incentivar. Mas a verdade é que nós no Craiova temos uma pressão muito positiva naquilo que é o nosso estádio. Prova disso é que eu acredito que perdemos duas vezes em casa desde que eu estou aqui: uma este ano contra o UTA Arad e o ano passado contra o Rapid, e foram dois jogos muito estranhos. É muito difícil nós sermos batidos em casa e isso, obviamente, no estádio funciona como algo muito positivo, mas não deixamos de ter a imprensa que está sempre e na Roménia...
- Quais são os objetivos para o futuro a nível coletivo e também individual? E se está aberto a exercer estas funções de diretor desportivo em Portugal?
- Então, em termos coletivos, obviamente que o objetivo passa por cimentar o clube nas competições europeias, como fizemos este ano. Que possamos repetir não só uma vez, mas que seja algo constante nos próximos anos, e obviamente que o título é algo que escapa há muitos anos. Já houve, se não me engano, no ano 2020, o ano Covid, foi na última jornada que se perdeu o título em casa. E é algo que está sempre, como eu disse inicialmente na entrevista, que paira no ar. No entanto, o nosso objetivo — e isto eu sei que é bonito de se dizer e parece o politicamente correto — realmente o nosso próximo objetivo é ganhar o próximo jogo. Sempre. É nisso que nos focamos, é isso que queremos controlar e, aos poucos, tornar-nos um clube que possa, obviamente, discutir o título sem margem para dúvidas. É um crescimento que queremos fazer, é um passo que queremos dar. É um passo que o patrão e a direção, todos os acionistas, estão dispostos a fazê-lo. E acredito, e sinto acima de tudo, sinto que o clube está alinhado nessa direção. Em relação àquilo que sejam os meus objetivos pessoais, o meu objetivo pessoal passa sempre por, primeiro, dignificar a instituição que me contrata, de forma profissional, de forma digna, respeitosa, educada. Eu sei que se der o meu melhor, vou conseguir ajudar, e sinto-me muito agradecido por, obviamente, esta oportunidade. É uma experiência que, se calhar, em Portugal jamais a teria tido. Portanto, não posso, obviamente, deixar de agradecer às pessoas que tiveram confiança em mim e ajudar este grande clube a que possa dar o passo que todos desejamos. Que nos possamos cimentar na Europa, na Roménia, que possamos dominar nos próximos anos. E, obviamente, que um dia gostaria de ter essa experiência em Portugal, mas não é algo que me... não, estou habituado a estar fora. Gosto muito de experiências novas. Custa muito, obviamente, pela minha família, pelo meu filho, mas também sei que estando por fora tenho muitas experiências, não vou dizer mais enriquecedoras, mas a nível cultural, a nível de aprendizagem, são experiências fantásticas. E não me preocupo muito com aquilo que é o futuro, sinceramente. Preocupo-me em dar o melhor no presente.
- E já agora, se vão chegar mais portugueses ou não?
- Sim, poderão. Temos, por exemplo, o departamento de scouting, o departamento de análise, são departamentos que nós em Portugal, por exemplo, trabalhamos muito bem. E a prova disso é que, já nem falo das principais ligas, das principais cinco ligas, mas se formos às Arábias, nas Turquias, na América, na América do Sul, na China, temos muitos portugueses na parte de análise, de scouting, na parte do treino. Portanto sim, se forem para ajudar e para acrescentar, claro que sim. Mas como disse anteriormente, não é... Pode ser português, pode ser francês, pode ser romeno... Desde que acrescentem. Queremos é criar equipas boas, departamentos bons em que tenhamos bom ambiente, mas acima de tudo malta que queira muito ganhar. E que esteja disposta a tudo para... a tudo, isto é, a estar dedicado, não é? E que isto não é fácil. Não é fácil. E às vezes as pessoas pensam que é chegar e estar assim um bocadinho duas, três horas e não é. Perde-se muita coisa, perde-se muita coisa e às vezes é difícil de compreender como é que nós nos sujeitamos a algumas situações.