Estaduais e dentes do siso
Os campeonatos estaduais do Brasil são como aqueles formulários, aqueles carimbos, aquelas assinaturas que a máquina burocrática nos exige mesmo que só sirvam para atrapalhar. Ou como aquelas monarquias, sem poder efetivo, que só dão despesa.
Como a infantaria, e até a cavalaria, depois da invenção da pólvora. E como as eleições com colégios eleitorais, votos indiretos e outros expedientes que só atrasam a contagem e ferem a vontade popular.
Acabar com eles, entretanto, é mexer num vespeiro de interesses cruzados das mesmas federações que elegem o presidente da CBF. Por isso eles sobrevivem — ou, melhor, já morreram mas insistem, qual fantasmas, em voltar à terra para assombrar a vida dos clubes grandes.
Nomeadamente, o Vasco da Gama, que com o treinador Fernando Diniz, deu sinais de recuperação em 2025. Bastou um empate na última segunda-feira na casa do modesto Madureira, que só tem o estadual para disputar até abril, para se ouvir um coro de insultos ao técnico.
Filipe Luís, era o que faltava, ainda não é contestado. Mas tem de ficar atento. O Flamengo perdeu no arranque do Brasileirão e foi derrotado na Supercopa do Brasil pelo Corinthians porque o treinador foi obrigado a colocar os titulares, com meros 20 dias de férias e três de treinos, a jogar no estadual uma vez que os sub-20 arriscavam cair de divisão.
O Santos e o São Paulo agravam as crises a cada semana porque devem falhar a fase final do Paulistão onde andam a defrontar clubes a prepararem-se há meses para o torneio.
Até o saudável Palmeiras, ainda às voltas com o mercado e com o défice de forma dos principais jogadores, perdeu na casa do Botafogo de Ribeirão Preto, clube que, no entanto, tem quase um mês de avanço em treinos e se beneficia de não ter começado ainda a Série B do Brasileirão que disputa.
Como Abel Ferreira, também Luís Castro não tem sossego no Grêmio porque logo a abrir a temporada, enferrujado e em testes, perdeu com o rival Internacional no insípido Gauchão.
O Cruzeiro de Tite, com ambições de título nacional, não soube gerir o início de época por culpa das exigências estaduais e já perdeu no arranque do Brasileirão por sonoros 4-0 na casa do Botafogo.
Antigamente, o Cariocão tinha uma regra absurda aos olhos europeus: clube grande — Vasco, Fla, Fluminense e Botafogo — não desce de divisão mesmo que fique em último. Nos anos 90, a (suposta) injustiça foi corrigida.
Mas há quem a queira de volta, porque mérito desportivo serve para competições com calendários e regulamento justos — serve, em suma, para competições com razão de ser, ao contrário dos estaduais, uma espécie de dente do siso ou de apêndice no corpo do futebol brasileiro.