«Já estive tão longe que agora estar a 5 horas de avião até já me parece perto»
Depois de acompanhar Paulo Bento durante oito anos como adjunto, na China, Coreia do Sul e Emirados Árabes Unidos, Filipe Coelho, de 45 anos, decidiu dar continuidade à sua carreira de treinador principal em novembro de 2025 e aceitou o desafio de liderar o Universitatea Craiova, o que clube mais português da Roménia. Esteve em clubes como Vilafranquense, Leixões e Casa Pia, mas agora o desafio é outro - conquistar o campeonato romeno -, após se estrear também nas competições europeias.
- Como é que surgiu esta oportunidade de rumar à Roménia?
- Foi um pouco inesperado, foi tudo muito rápido. Acabou por surgir a oportunidade e convidaram-me para ingressar neste projeto. De uma forma inesperada, uma vez que o treinador anterior acabou por pedir para sair. Eu fui um dos nomes que estava na lista para poder ser treinador do Universitatea Craiova, fiz uma entrevista, acabei por ficar e estou muito satisfeito.
- Estava na luta pela liderança do campeonato e por continuar nas competições europeias. Acredito que tenha sido também um projeto, nesse aspeto, bastante aliciante. E qual é o balanço que faz com cinco vitórias em sete jogos oficiais?
- Quando eu cheguei, quando nós chegámos, no campeonato estávamos a seis pontos do primeiro classificado. Tínhamos um volume, uma densidade de jogos muito grande: num mês, nove jogos, isto entre Conference League e jogos do campeonato. O desafio era grande também nesse sentido, uma vez que o tempo para trabalhar entre jogos era pouco. Acabámos por recuperar esses pontos e neste momento estarmos em primeiro, embora não seja de todo o mais importante, porque ainda faltam muitos jogos. Acho que em termos de campeonato as coisas correram muito bem, sobretudo por aquilo que eu acho que foi a nossa melhoria em termos táticos e a forma como os jogadores assimilaram as ideias com tão pouco tempo de treino. Relativamente à Conference, fizemos três jogos. Acabámos por ganhar ao Mainz em casa, o que nos alimentou ali um bocadinho o sonho de podermos passar ao play-off. Depois acabámos por perder com o Sparta Praga, que é uma equipa que tem estado na Liga dos Campeões em anos anteriores. E fomos a Atenas, ao AEK, onde estivemos a ganhar por 2-0 e sofremos ao minuto 98 o golo do empate e, depois, passado mais cinco minutos, acaba com um penálti e acabámos por ser eliminados da Conference apenas por um golo. O balanço até agora julgo que é positivo, mas ainda é muito prematuro para podermos fazer um balanço mais realista, diria.
- Por um lado estão na liderança do campeonato, por outro foi esse objetivo europeu falhado. Como é que a equipa lidou com esse momento e o treinador pessoalmente?
- Eu creio que não foi um objetivo falhado, porque nós não tínhamos esse objetivo. Acabámos por, com a vitória em casa, após termos chegado ao segundo jogo, alimentar um bocadinho esse sonho do clube, mas não era um objetivo. Competimos contra equipas experientes e equipas já com muita qualidade neste tipo de competições. Relativamente às derrotas, reagimos de imediato: sempre que perdemos, voltámos a ganhar logo no jogo a seguir para o campeonato. O campeonato acabou sempre por ser, e será, o nosso objetivo principal. Portanto, não creio que tenhamos falhado um objetivo, até porque saímos com muita dignidade, apresentámos qualidade de jogo, competimos contra bons adversários. Fica a experiência, fica também uma aprendizagem — há que tirar ilações disso — para que no futuro possamos competir de outra forma e sermos mais fortes também.
- E qual foi o maior desafio a nível pessoal e profissional que teve desde que chegou à Roménia?
- A nível pessoal foi tentar adaptar-me a um país que eu não conhecia muito bem e isso também devo agradecer ao clube, às pessoas que trabalham comigo e a forma como receberam, especialmente também aos jogadores. Foi um desafio enorme. Depois, a nível profissional, foi conseguir passar as ideias entre jogos, através, obviamente, muitas vezes de recurso às imagens e a forma como os jogadores conseguiram absorver essas ideias, aceitar, tentar pôr em prática. E obviamente que as vitórias acabaram por ajudar nesse processo, mas creio que esse era o desafio mais difícil: começar a ganhar, com jogos com um grau de dificuldade elevado. E foi sem dúvida o maior desafio profissional.
- Chegou a um clube cheio de portugueses na estrutura, não só o diretor desportivo Mário Felgueiras, mas também fisioterapeutas, analistas. Pergunto como é o dia a dia, se é mais fácil também trabalhar neste tipo de ambiente? E quão importante foi o diretor desportivo Mário Felgueiras para aceitar este desafio?
- O Mário teve uma importância enorme, não é? Até porque o contacto foi feito através dele. Creio que foi uma aposta também muito, muito dele. É uma pessoa que tem o clube debaixo da sua mão, conhece muito bem o clube. É importante ter portugueses, é verdade, mas mais importante do que a nacionalidade é a competência. São pessoas competentes, que todos trabalham em prol do clube, à procura de melhorar o clube nos vários departamentos. É um clube que tem uma massa associativa enorme, apaixonada pelo futebol. É um clube grande. Eu não tinha, honestamente, tanto essa noção e creio que as pessoas em Portugal não têm a noção do quão importante é o Craiova na Roménia. É um clube grande, muitas vezes com 25, 30 mil adeptos na bancada, com um estádio fantástico, pessoas que gostam muito de futebol. E, portanto, a adaptação acabou por ser fácil nesse sentido. Depois é um clube que também nos permite trabalhar e que nos dá todas as condições para que possamos fazer o nosso trabalho o melhor possível, com boas instalações, boas infraestruturas, boas condições para os atletas. Portanto, estou muito satisfeito com aquilo que encontrei aqui e agora resta-me trabalhar e dar o meu melhor de forma a poder atingir os objetivos a que o clube se propõe.
- Como é que lida com essa pressão dos adeptos nesta situação em que o clube está já há alguns anos sem ganhar o campeonato?
- Obviamente que eu percebo que os adeptos tenham muito esse desejo e que toda a gente tenha muito esse desejo, mas parece-me que não podemos pensar mais do que o dia a dia. Aprender um bocadinho com aquilo que foi o passado também do clube, daquilo que tem sido até aqui. Focar-nos muito no presente, porque é isso que importa, de forma que possamos tentar ter um futuro bom. Não vale a pena pensar muito na meta, porque ainda temos muito que trabalhar e percorrer até podermos atingir um bom lugar.
- E como é ter um jogador português no plantel, o Samuel Teles? É importante para si ter um compatriota na equipa?
- Obviamente que foi alguém importante também na nossa adaptação aqui, que acaba também por nos poder ajudar e ajudou. Mas mais do que a nacionalidade dele, é aquilo que ele é enquanto profissional. Eu acho que para nós, treinadores, acaba por ser pouco importante a nacionalidade, mas sim aquilo que nós podemos encontrar nos jogadores enquanto profissionais. E nesse aspeto, não só o Samuel, como todos os outros jogadores, nos receberam de uma forma bastante, diria, simpática, disponíveis para receber as nossas ideias e isso foi sem dúvida uma mais-valia para podermos começar da melhor maneira.
- E pergunto também se já falou com o Mário Felgueiras sobre a possibilidade de trazer mais portugueses em janeiro ou no verão. Ou isso não é uma prioridade?
- Relativamente a poderem vir mais portugueses ou não, eu não penso muito na nacionalidade. Vamos ver se conseguimos, o que é que nos pode acontecer neste mercado, que aqui fecha um pouco mais tarde, perceber que saídas podemos ter, que entradas também podemos ter. Mas isso passa sempre um bocadinho mais pelo Mário e pela estrutura. A mim cabe-me trabalhar com os jogadores que tenho e tentar fazer o melhor possível.
- O treinador português tem sido uma referência para muitos no estrangeiro. Sente que essa marca portuguesa está a chegar à Roménia?
- Não, já passaram nomes importantes aqui pela Roménia: Paulo Sérgio, o Jorge Costa, o Toni Conceição... Nomes que acabaram por ter sucesso enquanto treinadores aqui. Eu farei o meu percurso, tentarei dar o meu melhor. Gostaria, obviamente, que no final da minha trajetória aqui, que se lembrassem de mim como alguém que atingiu o sucesso. Mas mais importante do que eu, é o clube e são os jogadores e as pessoas que aqui trabalham.
- Depois de muitos anos como adjunto de Paulo Bento, já pensava há algum tempo em voltar a ser treinador principal? Ou um ano atrás não se via nesta posição?
- Eu creio que estive mais de sete com o Paulo [Bento], eu acho que foi desde 2017. Para já, devo agradecer muito ao Paulo, porque aprendi muito com ele. É, sem dúvida, uma referência para mim. Foi, é e será uma pessoa muito especial no meu percurso. E ele, mais cedo ou mais tarde, também enquanto treinador, sabia... Creio que em Portugal muitas vezes não lhe soubemos dar o devido valor, acho que deveriam existir mais pessoas no futebol como ele, por vários fatores. O Paulo sabia que eu, mais tarde ou mais cedo, poderia voltar a trabalhar como treinador principal. Esteve sempre dentro do processo, apoiou-me, continua-me a apoiar e, portanto, acho que foi inesperado, mas ao mesmo tempo foi no momento que tinha que ser, que tinha que acontecer.
- Como é que foi essa mudança para si, passando de trabalhar num contexto de seleção na Coreia do Sul, nos Emirados, para trabalhar novamente num clube?
- É um contexto um pouco distinto, do qual eu honestamente gosto mais, porque gosto mais do trabalho de campo, gosto mais do dia a dia, da competição mais frequente. E, portanto, eu sempre trabalhei em clube durante muitos anos. Comecei como treinador aos 22 ou 23 anos. Depois existiu esta possibilidade de trabalhar com o Paulo, onde trabalhei em clube também com ele na China. Depois tivemos a experiência incrível que foi na Coreia, na seleção, no qual também adorei. Tive a oportunidade de ter momentos únicos, um dos momentos mais altos da minha carreira desportiva, que foi poder estar num Mundial. Obviamente que o trabalho em seleção acaba por ser distinto. Não é que seja mais ou menos importante, mas é distinto. Mas eu sempre estive preparado e sempre tentei acompanhar um bocadinho também aquilo que eram os clubes e os meus colegas também que trabalhavam nos clubes, de forma a estar atualizado para este meu regresso.
- E como reagiu recentemente ao interesse do Pafos, do Chipre, em si? Entretanto o clube cipriota já arranjou um novo treinador, mas para si é um sinal positivo? E garante também o compromisso com o clube até ao final da temporada?
- Sim, sim, sim. O compromisso... Só há duas formas de eu sair daqui: uma é terminar o meu contrato, a outra é a entidade patronal achar que eu devo sair. É a minha forma de estar no futebol. Gosto de ser assim, gosto de cumprir as coisas a que me proponho. E, portanto, obviamente que esse compromisso, e as pessoas aqui sabem, será da minha parte, do meu lado, até ao final do meu contrato, sempre. Relativamente àquilo que são às vezes as abordagens, ou as notícias, ou o que falam dos outros clubes que possam acontecer... Para mim, honestamente, é pouco importante. O meu foco está totalmente aqui naquilo que será o nosso caminho e nestes próximos quatro meses.
- E tem o objetivo de um dia regressar a Portugal ou passa por continuar no estrangeiro, eventualmente depois do fim do contrato?
- Eu sou um treinador e, portanto, já trabalhei em locais e em países que não esperava. Estou disponível para, no final do contrato, ponderar a minha vida, ponderar aquilo que possa ser mais importante naquilo que eu considero que são passos seguros e naquilo que eu considero que possam ser também passos aliciantes. Portanto, não fecho as portas a regressar a Portugal, como não fecho as portas a continuar no estrangeiro. Sou treinador e serei treinador em qualquer parte do mundo desde que me faça sentido.
- E tem saudades de Portugal ou o ambiente aí muito português faz matar um pouco essa saudade?
- Não, obviamente que temos sempre — e falo por mim — tenho sempre saudades da minha família, especialmente dos meus filhos. É um preço a pagar estarmos fora. Os treinadores têm por vezes que tomar estas decisões e essa é a parte difícil - não é menos boa, é mesmo má -, a ausência permanente deles. Relativamente aqui à adaptação, não sinto essa dificuldade. Já estive tão longe que agora estar a 5 horas de avião até já me parece, por vezes, perto, quando já estive, sei lá, a 20 horas de casa ou algo do género. Estou focado, passamos a maior parte do tempo a trabalhar. E claro que sim, que bate as saudades das pessoas que mais gostamos, mas ser treinador também é isto. Acaba muitas vezes por ser um estilo de vida e temos que também ter esse equilíbrio e saber lidar com essa questão.