O segredo da Noruega não é só neve e Haaland que o diga
Com uma população de apenas 5,5 milhões de habitantes, a Noruega não só compete como esmaga superpotências como os Estados Unidos, a China ou a Alemanha nos Jogos Olímpicos de Inverno. A explicação para este domínio avassalador, que se espera continuar em Milano-Cortina 2026, vai muito além da abundância de neve, residindo num modelo desportivo e social único.
A base do sucesso norueguês assenta numa filosofia paradoxal: é proibido competir a sério antes dos 13 anos. Por lei, ao abrigo dos Direitos da Criança no Desporto, não se podem publicar classificações, rankings ou resultados em competições para menores dessa idade. O objetivo não é descobrir talentos precoces, mas sim garantir que o maior número possível de crianças se mantenha ativo e se divirta com a prática desportiva.
Este modelo contrasta com o de outros países, onde jovens talentos são frequentemente desgastados pela pressão competitiva por volta dos 15 anos. Na Noruega, o resultado é uma base de praticantes imensa, com 93% das crianças e adolescentes a praticarem desporto organizado, pois ninguém é excluído por não ter um desempenho de topo.
Quando os atletas atingem a fase de alto rendimento, já depois da adolescência, o sistema muda radicalmente. É aqui que entra em cena o Olympiatoppen, o centro de elite do desporto norueguês. A filosofia do «desporto para todos» dá lugar a uma abordagem científica e precisa, focada na otimização do desempenho.
No Olympiatoppen, atletas de diferentes modalidades, como esqui de fundo, biatlo ou saltos de esqui, partilham instalações, nutricionistas e psicólogos. Este modelo promove uma partilha transversal de conhecimento, onde uma inovação aerodinâmica no esqui alpino pode ser rapidamente aplicada nos saltos de esqui, criando uma economia de escala de conhecimento que sistemas desportivos mais fragmentados, como o norte-americano, não conseguem replicar.
O sucesso é também sustentado por pilares culturais. Um deles é o conceito de «Dugnad», que se refere ao trabalho voluntário comunitário. Os clubes desportivos locais são geridos por pais e vizinhos, o que mantém os custos baixos e garante um acesso universal à prática desportiva, independentemente da condição financeira.
Adicionalmente, a cultura norueguesa rejeita o individualismo excessivo. Superestrelas como Erling Haaland (futebol), Jakob Ingebrigtsen (atletismo) ou o herói dos desportos de inverno Jarl Magnus Riiber são formados num ambiente onde o coletivo se sobrepõe ao indivíduo. É tradição, por exemplo, que na equipa de esqui alpino cada atleta, independentemente do número de medalhas, transporte o seu próprio equipamento, reforçando uma coesão de grupo fundamental para quem passa mais de 200 dias por ano em conjunto.
Por fim, o fator económico é inegável. Sendo um dos países mais ricos do mundo, a Noruega investe de forma inteligente os seus recursos. Em vez de construir estádios faraónicos, o dinheiro do seu fundo soberano do petróleo é canalizado para a criação de instalações locais, aquecidas e acessíveis em todo o país. A estratégia passa por focar-se em desportos onde possuem uma vantagem natural, como os de neve e gelo, maximizando cada coroa investida para se tornarem imbatíveis na sua área de domínio.
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