81 anos de A BOLA: renovar o pacto
Há 81 anos, este jornal entrou em campo com uma ambição clara: contar o desporto como ele merece ser contado. Vivê-lo! Com paixão, sim, mas também com rigor. Com emoção, mas sem abdicar dos factos. Ao longo de oito décadas, atravessámos gerações de atletas, vitórias históricas, derrotas dolorosas, mudanças de regras, de modalidades e de ídolos. O desporto mudou e nós mudámos com ele.
Hoje, celebramos este aniversário num tempo novo e desafiante, no qual é cada vez mais difícil distinguir o que é real daquilo que não é. As redes sociais estão repletas de vídeos e imagens que parecem verdadeiras, quando na realidade não o são. O jornalista tornou-se ainda mais relevante para distinguir factos de ficção.
A velocidade e o volume da informação são cada vez maiores. Por exemplo, nunca houve tantos dados sobre o jogo. Estatísticas em tempo real, métricas avançadas, padrões de desempenho, simulações táticas, análises preditivas. A IA entrou nos balneários, nas bancadas e, inevitavelmente, nas redações.
Bem usada é uma aliada poderosa. Mas o desporto não vive apenas de dados, nem as redações apenas de réplicas. Vivem de histórias. De contexto. De caráter. A IA pode dizer e escrever sobre quantos quilómetros um jogador correu, mas não explica o que é a viagem do meio-campo até à grande área do último marcador de penáltis numa final de um Campeonato do Mundo. Um Homem só no meio de milhões.
A IA nunca gritou um golo — e como nos sentimos vivos ao fazê-lo —, nunca se abraçou ao desconhecido do lado, nem chorou numa esquina qualquer de um estádio estrangeiro, onde a dor de uma derrota se sobrepôs ao frio, à intempérie e a tudo o que a natureza podia atirar nessa noite.
A IA pode gerar textos, mas não assume a responsabilidade de uma manchete que inflama paixões e que move leitores.
Hoje, celebramos este aniversário num novo limiar histórico. A Inteligência Artificial já escreve, traduz, resume, sugere títulos. É tentador perguntar: que tempo é este para o jornalismo? A resposta é clara: é um tempo de prova e de afirmação.
Por isso, n’A BOLA é momento de reafirmamos o que nos trouxe até aqui, numa altura em que todos os dias usamos IA na publicação de textos.
O nosso papel não é apenas relatar resultados, mas interpretá-los. Não é seguir o ruído, mas explicar o jogo. Usamos a tecnologia para facilitar tarefas, mas nunca para substituir o julgamento editorial, a ética ou a responsabilidade.
Aos 81 anos, este jornal continua a acreditar que o desporto é um espelho da sociedade e que merece ser tratado com inteligência, humanidade e memória.
Abraçamos a IA com a noção de que ela não inaugura a automatização na nossa profissão, acelera-a. O que muda é a potência. Onde havia horas, haverá segundos. Numa era em que tudo se replica e se adultera, a credibilidade e a personalização serão ainda mais fundamentais para o sucesso, sobretudo dos media legacy, um termo «carinhosamente» adotado em referência aos meios de informação tradicionais por oposição a novas formas e plataformas de comunicação.
Celebrar 81 anos é, também, renovar um pacto. Com os leitores, de independência, e de que não deixaremos de escrutinar sobretudo aqueles que acham que não devem ser escrutinados. Sabendo, também, que seremos nós mesmos alvo da crítica, porque o mundo não é a preto a branco como alguns gostariam que fosse.
Renovamos um pacto com a verdade de método. O tempo do jornalismo na era da IA exige mais do que nunca aquilo que sempre nos definiu: rigor, coragem e humanidade.
Abraçamos a IA com uma garantia. Por trás de cada texto há um jornalista, um editor por si só que valida informação publicada. E isto não pode ser exceção, tem de ser política.