Jutta Leerdam tinha conquistado a prata, há quatro anos, em Pequim, mas de Milão leva o ouro. IMAGO - Foto: IMAGO

«Todos me chamaram louca»: o desabafo de Jutta Leerdam após o ouro

Patinadora neerlandesa falou sobre os riscos que correu para alcançar o sucesso

Foi em lágrimas que Jutta Leerdam completou a missão olímpica, que terminou com a conquista da medalha de ouro na prova de1000 metros de velocidade, em Milão. A vitória culmina um percurso arriscado que a patinadora neerlandesa, de 27 anos, iniciou há dois anos, quando decidiu preparar-se de forma independente, abdicando de integrar uma equipa comercial.

«Todos me chamaram louca», confessou a atleta após a vitória. «Mas se seguires o teu coração, acabas aqui com uma medalha de ouro olímpica ao pescoço», acrescentou, visivelmente emocionada.

A decisão de seguir um caminho a solo foi tomada em abril de 2024, quando Leerdam deixou a sua equipa, a Jumbo-Visma. Um mês depois, anunciou que não se juntaria a nenhuma das grandes equipas comerciais, como a Reggeborgh, IKO-X20, AH-Zaanlander ou Essent, optando pela «via individual». Uma aposta que descreveu na altura como de «alto risco, alta recompensa».

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Depois da medalha de prata nos Jogos de Pequim, há quatro anos, o foco da «rainha do quilómetro» centrou-se totalmente no ouro em Milão. A tão desejada recompensa chegou agora. «Vou dormir com ela», afirmou, referindo-se à medalha.

Apesar das dúvidas de muitos, que lhe diziam ser impossível vencer sozinha, o pai, Ruud Leerdam, sempre acreditou. «Se há alguém que o consegue, é a Jutta», afirmou. Na bancada, não conteve a emoção após a corrida da filha, gritando «Não é normal!», ao que Jutta respondeu com um gesto em forma de coração.

«O que diz sobre a Jutta o facto de ter escolhido o seu próprio caminho e concluí-lo com o ouro? Que é uma mulher incrivelmente forte e empreendedora. Ela sabe o que quer. E o que tem na cabeça, mostra no gelo», declarou o pai.

A viabilidade financeira deste projeto foi possível porque Leerdam é mais do que uma atleta. Com mais de cinco milhões de seguidores no Instagram e um noivo famoso, o pugilista e Youtuber americano Jake Paul, conseguiu financiar a preparação para Milão. No entanto, não esteve completamente sozinha, rodeando-se de uma pequena equipa de confiança. «Um fisioterapeuta fantástico e quatro treinadores no total. O meu treinador Kosta Poltavets está sempre lá para mim. Nunca senti que precisasse de uma grande equipa. Esta equipa tornou-se a minha família», explicou.

Kosta Poltavets, o treinador principal, revelou que a parceria não foi um acaso. «Ela ousou correr riscos com este projeto, e eu sou assim também. Sempre acreditei em projetos nos quais ninguém acredita. Todos diziam que eu era louco. Mas a Jutta e eu provámos que estavam errados», disse o técnico ucraniano.

Poltavets destacou a evolução da sua pupila, especialmente após a chegada de Kai Verbij e Ted Dalrymple à equipa. «Isso ajudou-a. A Jutta esteve muito mais focada esta época e progrediu. Desde a primeira Taça do Mundo em Salt Lake City que se notou uma linha ascendente». Apesar do seu papel, o treinador minimiza a sua importância: «Ajudámo-la, mas foi a Jutta que fez tudo sozinha. A forma como ela competiu, sob a pressão e a tensão dos Jogos, é inédita. Estou superorgulhoso».

O feito de Leerdam mereceu também o reconhecimento das suas adversárias. «Sei que as expectativas em torno dela sempre foram altas e que estava sob uma pressão enorme. Lidar com isso é louvável», comentou a sua concorrente, Brittany Bowe.

A própria campeã olímpica mostrou-se orgulhosa da sua força mental. «Provei a mim mesma, mais uma vez, o quão forte sou mentalmente». Sobre a sua ousada decisão de 2024, não tem dúvidas: «Sabia que tinha de o fazer se quisesse dar o próximo passo no gelo. Foi uma boa escolha».