Política trans da WNBA gera polémica e ex-atletas querem jogar na Liga feminina
O antigo poste da NBA, Enes Kanter Freedom, gerou uma enorme controvérsia no basquetebol feminino ao anunciar a sua elegibilidade para o draft da WNBA de 2027. O anúncio do veterano, conhecido pelas suas opiniões fortes, foi feito através de um vídeo e de uma declaração na rede social X, colocando os regulamentos de elegibilidade da liga no centro das atenções.
A decisão de Freedom surge num momento de intenso debate sobre a participação de atletas transgénero na WNBA. No seu vídeo, o jogador turco, vestido com uma camisola da WNBA, abordou diretamente as diretrizes da liga. «Após cuidadosa consideração e análise das atuais diretrizes de elegibilidade, declaro-me oficialmente um candidato à @WNBA. Se simplesmente declarar quem se é é tudo o que é necessário, então eu cumpro todos os requisitos para competir na WNBA», afirmou o ex-poste, que não joga na NBA desde que foi dispensado pelo Houston Rockets em 2022 após uma troca com os Boston Celtics.
Freedom sublinhou que ele e a sua equipa «examinaram cuidadosamente os critérios de elegibilidade da WNBA e o enquadramento que rege a autoidentificação e a inclusão». Concluiu, afirmando: «Com base nas diretrizes atuais, posso e declaro oficialmente a minha elegibilidade para o próximo draft da WNBA em abril de 2027».
O antigo jogador da NBA fez questão de esclarecer que a sua intenção não é ridicularizar a situação. «Não estou aqui para gozar ou desrespeitar qualquer comunidade ou escolhas pessoais. Estou simplesmente a pedir que as regras atuais sejam aplicadas de forma igual a todos — as regras que representam os mesmos valores que muitas jogadoras e treinadores da WNBA defenderam publicamente», explicou na sua publicação. «A minha equipa e eu estamos preparados para garantir que estas diretrizes sejam aplicadas de forma igual, consistente e sem exceção, e aguardo com expectativa que a #WNBA honre os seus princípios declarados. Vemo-nos no campo de treinos».
O momento do anúncio não é uma coincidência. A WNBA tem estado no centro de uma acesa discussão nacional sobre a participação de atletas transgénero. Semanas antes, Sophie Cunningham, jogadora das Indiana Fever, gerou manchetes ao afirmar que queria «proteger as raparigas jovens» no desporto feminino. «Recebi muitos comentários negativos a dizer que odeio pessoas trans. E eu penso: 'Nunca disse isso'. Acho que estou aqui para espalhar amor. Mas também acho que com esse amor vem a verdade, ser honesta. E quero proteger as raparigas jovens num balneário, ou as raparigas jovens no desporto que não deveriam ter de competir contra homens biológicos», declarou.
As reações na liga foram diversas. Em resposta, a treinadora das Minnesota Lynx, Cheryl Reeve, usou uma t-shirt com a frase «crianças trans pertencem» durante um jogo contra as Indiana Fever. Por sua vez, Gabby Williams, jogadora das Golden State Valkyries, disse aos media: «Acho que a questão trans é a nossa nova batalha... Eu acolheria uma atleta trans na minha equipa ou contra a minha equipa a qualquer momento».
No cerne da controvérsia está a política de elegibilidade da WNBA. O Acordo Coletivo de Trabalho (CBA) da liga estipula, no Artigo XIII, Secção 1(a), que «apenas jogadoras que são mulheres são elegíveis para jogar na WNBA». Contudo, o acordo não define a palavra «mulher» nem especifica se a elegibilidade é determinada por autoidentificação, estatuto legal ou critérios biológicos, e não há menção explícita a atletas transgénero.
Esta não é a primeira vez que Freedom aborda a ideia de se juntar à WNBA. Em 2023, sugeriu que poderia «pôr uma peruca, identificar-se como mulher» e jogar na liga, esclarecendo mais tarde que os seus comentários visavam destacar as suas opiniões sobre atletas masculinos em desportos femininos.
Já Royce White foi selecionado pelo Houston Rockets na primeira rodada do draft da NBA de 2012 . Embora White não tenha jogado pelos Rockets, fez três partidas pelo Sacramento Kings em 2014.
«Agora sou transgénero. Pretendo seguir carreira na WNBA... Identifico-me como uma mulher trans que só se identifica às vezes. Desejo ser tratada com justiça e sem discriminação. Este é um objetivo sério. Cheguei à conclusão que, depois de 35 anos, sou de facto uma mulher», anunciou Royce lançando mais achas na fogueira.
Até agora, os responsáveis da WNBA mantiveram-se em silêncio sobre a declaração de Freedom, não tendo clarificado a sua posição sobre a elegibilidade de atletas transgénero ou daqueles que procuram entrar na liga com base apenas na autoidentificação. Este silêncio tem alimentado a especulação e o debate.
Atualmente, o Acordo de Negociação Coletiva (CBA) da WNBA estipula que as jogadoras norte-americanas devem ter pelo menos 22 anos no ano do draft, enquanto as internacionais devem ter no mínimo 20. Além disso, as candidatas precisam de cumprir requisitos de formação ou experiência profissional, como ter completado quatro anos de universidade ou estarem quatro anos afastadas do ensino secundário. O regulamento é omisso quanto à elegibilidade de ex-jogadores da NBA ou atletas do sexo masculino, e não prevê um processo para contestar decisões de elegibilidade com base na identidade de género.
Este debate sobre a participação de atletas transgénero no desporto feminino não se limita ao basquetebol. No ténis, por exemplo, a Women's Tennis Association (WTA) anunciou recentemente um teste de género único para as jogadoras. A número um mundial, Aryna Sabalenka, e a estrela em ascensão, Coco Gauff, manifestaram o seu apoio à justiça competitiva, apelando, no entanto, para que a comunidade trans não seja demonizada.
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