Há uma diferença entre usar uma braçadeira e ser capitão. A primeira pode ser entregue antes de um jogo. A segunda demora tempo a conquistar - constrói-se nos treinos em que ninguém está a ver, na forma como se reage à derrota, na capacidade de colocar a equipa acima do ego e na exigência de continuar a querer vencer quando já se ganhou quase tudo.

Foi esta diferença que me interessou enquanto escrevia o meu novo livro «Capitão João Matos – Liderar, vencer e inspirar». Os números dariam, por si só, uma grande história: mais de duas décadas ao mais alto nível, mais de 40 títulos, mais de 200 internacionalizações, campeão do Mundo e bicampeão da Europa por Portugal, tricampeão europeu pelo Sporting CP, mas a pergunta que me levou para lá das estatísticas foi outra: como é que alguém consegue ganhar durante tanto tempo sem perder a fome de vencer?

Num período em que procuramos resultados imediatos, no aqui e agora, o João Matos construiu uma carreira baseada exatamente no contrário: consistência. Não foi um momento - foram mais de vinte anos; não foi um grande jogo - foram milhares de treinos; foi a capacidade de atravessar gerações, treinadores, colegas, adversários e mudanças na modalidade continuando a ser relevante. 

Hoje em dia falamos muito de talento e pouco de permanência e consistência. Celebramos quem chega ao topo, mas raramente estudamos e tentamos perceber o que é necessário para continuar lá. E permanecer exige gestos que raramente dão manchetes de jornais ou publicações virais: disciplina quando ninguém está a ver, treinar quando não apetece, ouvir quando já se tem estatuto para falar, adaptar-se e aceitar que nem sempre teremos o mesmo papel. Nani resume-o bem: no final, não fica apenas o talento, mas tudo aquilo que estamos dispostos a dar por aquilo em que acreditamos. É compromisso. E compromisso não é uma palavra exclusiva do desporto.

Foi aí que percebi que este livro não podia ser apenas uma biografia desportiva. João Matos é o protagonista e o futsal é, inevitavelmente o cenário, mas os temas presentes no livro pertencem a todos nós. Falamos de resiliência, disciplina, valores, gestão emocional, liderar pelo exemplo, gestão de egos e conflitos, comunicação, lealdade e construção de culturas vencedoras. Falamos também de equilíbrio pessoal e familiar, literacia financeira, preparação para uma mudança de carreira, planeamento, inovação e propósito. Falamos, também, de erro porque uma das aprendizagens mais interessantes desta carreira é perceber que o erro não é o contrário do sucesso - muitas vezes, faz parte do caminho até ele.

Nada disto pertence exclusivamente a um pavilhão. Pertence a uma empresa, a uma escola, a uma associação, a uma startup, a uma família. No fundo, pertence a qualquer organização composta por pessoas. É por isso que gostaria que um gestor, um professor, um estudante, um empreendedor ou alguém a atravessar uma fase de mudança consiga encontrar ao longo das 210 páginas da obra, algo que possa transportar para a sua própria realidade. Os contextos mudam, mas os princípios, muitas vezes, não.

Uma das conclusões mais fortes a que cheguei durante a elaboração do livro é que o João Matos não começou a liderar quando alguém lhe entregou uma braçadeira. A braçadeira apenas tornou visível aquilo que já existia. A liderança estava no jovem que observava os mais velhos, no jogador que trabalhava, no colega que ajudava e no atleta que colocava a equipa acima do ego. Rui Miguel Nabeiro, CEO do Grupo Nabeiro–Delta Cafés, transporta esta reflexão para o universo empresarial e sintetiza essa transversalidade: a liderança do João Matos ultrapassa o desporto e inspira quem tem a responsabilidade de orientar equipas, tomar decisões e cuidar de pessoas. Liderar não é falar mais alto, ter um cargo ou usar uma braçadeira. É fazer com que o coletivo, o todo, seja superior à soma das partes que formam esse mesmo todo.

Frederico Varandas escreve no prefácio que o legado do João não se mede apenas no que conquistou, mas sobretudo no que inspirou, lembrando que o talento só atinge a verdadeira dimensão quando acompanhado por trabalho, humildade, disciplina e espírito de equipa. Pedro Proença, que assina a introdução, coloca o João Matos entre os heróis e lendas do futsal português e sublinha que deixa o futsal muito melhor do que aquele que encontrou. Penso que não existe definição mais simples do que esta sobre o verdadeiro legado: deixar melhor aquilo que encontrámos.

O livro também não romantiza a liderança. Equipas, empresas e organizações têm conflitos, egos, ambições e momentos de discordância. Sebastián Coates, outro capitão que conhece bem o peso de uma braçadeira, deixa uma reflexão essencial: «Não é a ausência de conflito que define uma equipa forte. É a forma como conseguimos crescer a partir dele.» Jorge Braz acrescenta, no posfácio: «O João ajudou-me a ser melhor treinador.» Haverá elogio maior a um jogador do que este? Julgo que não e significa que a aprendizagem aconteceu nos dois sentidos. É isso que as melhores organizações fazem: as pessoas desafiam-se sem se destruírem, questionam sem perder o respeito e discordam sem perder o propósito comum.

Nuno Dias, oferece no livro, outra ideia que atravessa facilmente a fronteira do desporto: «As grandes equipas não nascem de um momento. Constroem-se.» Culturas vencedoras não aparecem numa apresentação de PowerPoint, não se decretam nem nascem de um slogan numa parede de um balneário. Constroem-se através de comportamentos repetidos, critérios, exigência e da forma como reagimos quando ganhamos e quando perdemos. Pedro Dias, secretário de estado do desporto, ao refletir no livro sobre o modelo que levou o futsal português ao topo mundial, acrescenta outra dimensão: o sucesso sustentável nasce de planeamento, formação, estrutura, aposta nas pessoas e capacidade de transformar vitórias em legado e legado em futuro.

Há ainda um capítulo do qual gosto particularmente: “Cocriar para inspirar”, com Tiago Valadas, Diretor de Marketing da Decathlon Portugal. O João Matos não foi apenas um atleta patrocinado pela marca - testou protótipos, identificou problemas, questionou soluções e participou no desenvolvimento de produtos. A sua pergunta era simples: «Como podemos fazer melhor?» É difícil encontrar uma pergunta mais útil para qualquer organização. O caso mostra que os melhores resultados não nascem apenas de um contrato, mas da confiança, da proximidade, da humildade para ouvir, da coragem para testar e da vontade de construir em conjunto. Isso é inovação, mas também é liderança.

Os valores e traços de personalidade do João Matos fizeram com que o seu próprio livro nascesse de um projeto coletivo. Capitão João Matos – Liderar, vencer e inspirar é uma obra escrita por mim no âmbito de um projeto desenvolvido pela editora 21Books e pela agência whynote.pt, em parceria oficial com a Decathlon e a União das Freguesias de Carnaxide e Queijas, território onde começou uma parte fundamental desta história, e conta com a chancela Portugal Legends, da Federação Portuguesa de Futebol.

Pedro Proença assina a introdução, Frederico Varandas o prefácio e Jorge Braz o posfácio. A eles juntam-se outras vozes e experiências como Alex Merlim, Ana Catarina, Carlos Ortiz, Dolores Silva, Falcão, Jesus Velasco, João Benedito, Joel Rocha, Madjer, Marquinhos Xavier, Matias Lucuix, Nani, Nuno Dias, Patrícia Mamona, Miguel Faro, Pedro Cary, Pedro Dias, Ricardinho, Rui Miguel Nabeiro, Coates, Tomás Paço e Fernando Gomes.

E chegamos à palavra que mais me acompanhou durante este projeto: legado. Legado não é aquilo que guardamos numa vitrina. É aquilo que deixamos nos outros. Um título pertence a uma época. Um recorde será ultrapassado mais tarde ou mais cedo, mas aquilo que transmitimos pode sobreviver e acrescentar valor ao desporto e à nossa sociedade. Um jovem jogador que aprendeu a treinar de determinada maneira porque viu o João Matos fazê-lo. Um colega que percebeu como se reage depois de um erro. Um líder que aprendeu que ouvir não diminui a sua autoridade. Um gestor que percebeu que uma cultura não se decreta, constrói-se com o tempo. Uma equipa que aprendeu que o conflito pode produzir crescimento. Uma organização que decidiu escutar melhor quem está no terreno antes de desenvolver a próxima solução. Uma pessoa que percebeu que não precisa de ser a mais talentosa da sala para poder tornar-se extraordinariamente boa naquilo que faz. Alguém que assume o compromisso de nunca desistir. Isto não aparece nas estatísticas, mas é uma das vitórias mais difíceis de conquistar.

O João Matos terminou a carreira de jogador. Outros jogadores chegarão, outros títulos serão conquistados e outros capitães levantarão troféus. A braçadeira passa. A camisola passa. Os recordes também passam inevitavelmente, mas há uma diferença enorme entre sair e desaparecer…

O João Matos deixou o campo, mas não desaparecerá dele. Ficará naquilo que conquistou, nas pessoas que marcou, no exemplo que deixou e, agora, também nas páginas de um livro que procura guardar e transmitir muito mais do que a memória e as aprendizagens de uma carreira. 

Os títulos contam-nos o que o João Matos ganhou. O legado diz-nos aquilo que deixou e é por isso que, no final, a braçadeira fica. O capitão também.

«Liderar no Jogo» é a coluna de opinião em abola.pt de Tiago Guadalupe, autor dos livros «Liderator - a Excelência no Desporto», «Maniche 18», «SER Treinador, a conceção de Joel Rocha no futsal», «To be a Coach», «Organizar para Ganhar», «Manuel Cajuda – o (des)Treinador» e «Capitão João Matos – Liderar, Vencer e Inspirar» 

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