Rui Pedro Braz: «Suspeições? Sei perfeitamente de onde partem»
Depois da saída atribulada do Al Ahli, Rui Pedro Braz esteve à conversa com A BOLA, naquela que é a primeira entrevista concedida em cinco anos. Neste primeiro excerto fala da rescisão com o clube saudita e das suspeitas de corrupção com que foi confrontado por esses dias.
- A saída do Al Ahli foi abrupta, embora já existisse alguma contestação dos adeptos. Um jornalista belga, Sacha Tavolieri, chegou a referir suspeitas de corrupção a incidir sobre o Rui. Mais tarde retratou-se, pediu desculpa por ter avançado com essa informação. O que se passou, efetivamente, para o Rui sair do Al Ahli?
- Sim, a saída acaba por parecer repentina para quem vê de fora, até porque os resultados falam por si e não o faziam prever: tudo aquilo que foi alcançado nos primeiros 10 meses foi superlativo, e se não foi o melhor ano da história do clube, foi um dos melhores. Mas naquilo que era o funcionamento diário, aquilo que deve ser a relação entre o diretor desportivo e a tutela de um clube, já existiam sinais de rotura que depois levaram a uma decisão de comum acordo. Entendemos que havia divergências de opinião inultrapassáveis em relação àquilo que deveria ser o futuro imediato. Eu tinha – e tenho – uma ideia muito específica daquilo que deve ser o projeto, e as pessoas que estão à frente do clube têm uma ideia diferente. Nada a apontar, é mais do que legítimo pensar diferente, mas quando há desacordos de opinião em relação a coisas tão estruturantes e profundas, o melhor é mesmo as pessoas seguirem caminhos separados.
- Tinha a ver sobretudo com transferências, ou era mais abrangente?
- Não, pelo contrário. Nesse aspeto o clube funciona de uma forma muito estruturada. Há um Sporting Committee, onde está o CEO, o CFO, e toda a direção desportiva. Depois tudo é aprovado pelo Conselho de Administração. No caso dos clubes do PIF – o Fundo Soberano – nenhuma contratação é feita sem ser também devidamente analisada pelo PACE (Player Acquisition Center of Excellence), que valida em termos técnicos e financeiros. Nada é feito à revelia de ninguém. Referia-me ao projeto desportivo num sentido mais lato: rigor, disciplina, compromisso, regras que têm de ser seguidas no dia a dia. Se calhar há pessoas que não veem as coisas da mesma maneira e começou a notar-se algum distanciamento. Mas repito: é legítimo que entendam que existe outra forma de chegar ao sucesso e obter resultados. Não tenho nada a apontar às pessoas com quem trabalhei, nada a apontar aos membros do Conselho de Administração, apesar de já só estarem lá 50% dos que estavam quando entrei. Isso também pesa. Nos últimos dois meses o clube perde o treinador [Matthias Jaissle foi para o Newcastle], perde o presidente, perde metade do Board, perde três capitães de equipa, e acaba por perder também o diretor desportivo. É muita coisa em pouco tempo. Quase um colapso de toda a estrutura. Mas repito: não estou a apontar o dedo a ninguém. As pessoas são livres de tomar as decisões que entendem ser mais válidas. Sempre me trataram com respeito, deram liberdade para trabalhar, mas chegámos a um momento em que havia uma divergência de opiniões tão profunda relativamente ao rumo que o clube deveria seguir, que deixou de fazer sentido continuarmos a trabalhar juntos. Sentámo-nos e chegámos rapidamente a um acordo para uma saída pacífica.
- Mas como encarou as suspeitas que surgiram por esses dias?
- Estava tão mergulhado no trabalho que, inicialmente, nem me apercebi. Normalmente não ligo ao que se passa nas redes sociais, que têm um peso muito grande na Arábia Saudita. Não há controlo absolutamente nenhum, são muitas páginas falsas, muitos influencers pagos para formar opinião a favor ou contra determinada pessoa. É tudo muito anárquico, muito violento. Quando percebo que há ali algo mais concertado, é quando sai essa notícia, de suspeições de corrupção em relação à contratação do Artem Bondarenko. Uma coisa absolutamente disparatada. Todas as contratações têm de ser validadas tecnicamente e financeiramente pelo PACE. O Bondarenko foi validado pelo PACE em 14 milhões de euros e custou 7. O salário é menos de metade do que foi validado financeiramente, e tecnicamente o jogador foi validado com distinção pelo PACE. Portanto isso é um disparate sem pés nem cabeça. Foi tudo feito de forma muito transparente. Contratámos um novo treinador a cinco dias do início da temporada, esse treinador não teve qualquer influência na escolha do plantel, e quando chega identifica uma lacuna, diz que precisa de um jogador com determinadas características para ter mais posse de bola, e aponta um jogador com o qual queria contar, com o qual trabalhara duas épocas no Shakhtar. O jogador foi validado pelo clube e pelo PACE, temos de tomar uma decisão naquele momento, dar o benefício da dúvida ao treinador e ajudá-lo a meter a equipa a jogar como ele quer. E é nesse sentido que surge a contratação do Bondarenko, que inicialmente nem sequer estava referenciado.
- Encontra explicação para essas suspeitas?
- Sei perfeitamente de onde partem. O clube e o PIF também sabem quem está por trás disto. Fizeram questão de me dizer que sabiam que não era um ataque que nasce de forma orgânica, mas sim de forma orquestrada. Estávamos de acordo em relação à identidade dos protagonistas e às razões pelas quais tudo isto aconteceu. Chegaram inclusive a pedir-me desculpas formalmente, por escrito, e a dizer-me que o mesmo se passou com o meu antecessor no cargo, Lee Congerton, o que acabou também por precipitar a sua saída. No caso dele até foi mais grave, porque chegaram a fazer esperas na porta da escola da filha. Eu estava sem família em Jedá, não foi tão difícil lidar, mas imagino o que terá sido para ele. Ou seja, nada disto é novidade, e eu não fui o primeiro a sofrer na pele as consequências destas situações e comportamentos. Agora, não me compete a mim revelar o que quer que seja, mas têm tudo devidamente identificado.
- Pergunto diretamente, para encerrar o tema: alguma vez tirou benefício próprio de algum negócio, de alguma transferência?
- Obviamente que não. Nem sequer é tema, todas as pessoas que trabalharam comigo nos clubes por onde passei conhecem bem a minha lisura e honestidade. Até porque guardo sempre provas de tudo, de todos os passos que dou em todas as negociações, e faço sempre questão de envolver devidamente todas as partes: CEO, CFO, Conselhos de Administração, Departamentos Legais, e no caso da Arábia Saudita, obviamente também o PACE. É tudo muito transparente e deixo sempre tudo detalhadamente documentado. Não faz qualquer sentido sequer levantar este tipo de suspeição. Mas a partir do momento em que um alegado jornalista escreve uma coisa dessas nas redes sociais, abre-se uma caixa de Pandora. Depois veio desmentir, retratar-se, pedir desculpa publicamente em duas ocasiões, já me contactou também em privado para se desculpar dizendo que foi induzido em erro, mas como é evidente terá de responder perante a justiça. Não pode valer tudo, não se pode atacar assim a integridade de um profissional e achar que não há consequências. Deixo tudo agora nas mãos dos advogados e não perco mais tempo com isso.
- Que balanço faz então da passagem pelo Al Ahli. A conquista da Champions League Asiática foi o ponto alto da carreira até ao momento?
- Não. O ponto alto da minha carreira foi ser campeão no Benfica, conseguir ganhar títulos e ajudar a elevar o clube para uma dimensão mais fiel àquilo que são os seus pergaminhos. Cinco anos consecutivos na Liga dos Campeões sempre com boas campanhas, presença no Mundial de Clubes, quatro títulos oficiais… Ficámos a dever mais algumas conquistas, mas tenho muito orgulho naquilo que foi feito no Benfica, representar aquele clube que, acima de tudo, é também o meu clube do coração. É óbvio que ganhar a Liga dos Campeões Asiática é um feito assinalável, mas houve coisas que foram alcançadas no Al Ahli às quais as pessoas não dão tanta importância hoje, mas com o tempo vão perceber a dimensão do que foi alcançado. O Al Ahli estava na segunda divisão há três ou quatro anos. Depois foi um dos clubes comprados pelo Fundo Soberano, mas nos primeiros dois anos do projeto PIF perdeu 37 e 35 pontos na Liga, respetivamente. Ficou sempre muito longe da luta pelo título. No ano em que eu chego, em outubro, com 6 ou 7 jornadas disputadas, já estava a 8 pontos do Al Nassr, e acaba a temporada a 5. Desde que começámos a trabalhar com novas regras e com outro tipo de rigor e disciplina, ninguém fez mais pontos do que o Al Ahli no campeonato, de outubro até ao final da temporada. Isto num clube que não ganha o campeonato ou a taça há mais de 10 anos. Estivemos na luta até ao fim em todas as competições domésticas e acabámos por ganhar a Liga dos Campeões. Foi uma época a todos os níveis extraordinária. Batemos o recorde de golos marcados e o recorde de pontos, fomos a melhor defesa da Liga, o Ivan Toney foi o maior goleador da temporada, levámos 10 jogadores ao Campeonato do Mundo. É um trabalho do qual me orgulho muito e o tempo acabará por ilustrar a verdadeira dimensão daquilo que foi alcançado nesse período. Dentro e fora das quatro linhas.
- Quais as outras notas de destaque além desses resultados desportivos?
- Eu acho que subir a média de vitórias de um clube de 61% para 76% sem contratar jogadores nem mudar de treinador, é uma demonstração muito forte daquilo que se pode alcançar apenas com profissionalismo e disciplina, com implementação de regras claras e com um apoio muito forte da direcção desportiva ao trabalho do treinador. São detalhes diários que ganham jogos e títulos. Depois, subir o valor global do plantel em 17% apenas numa janela de mercado é também um passo muito sólido para a consolidação de um projecto que se deseja sustentável. Reerguer uma Academia moribunda e que hoje apresenta excelentes resultados inclusive na luta pela conquista da Liga Elite U21. Elevar todo o departamento médico para outros patamares de rigor e exigência. A criação de raiz dos departamentos de scouting, de data, e de análise. Reformular as infra-estruturas e todo o Performance Building que estava a funcionar a menos de 50% das suas capacidades. Implementar regras rigorosas de negociação e transparência no mercado de transferências. Foi um trabalho muito transversal em diversas áreas que apresentavam lacunas graves, se calhar a conquista da Champions League acaba por ser a face mais visível do sucesso, mas para aquilo que é a sustentabilidade e a sobrevivência do clube a longo prazo, alcançámos outros feitos muito mais relevantes e assinaláveis.
Leia também:
A segunda parte da entrevista a Rui Pedro Braz, na qual faz o balanço da passagem pelo Benfica, será publicada este domingo.