Nestory Irankunda, extremo do Sporting e da seleção australiana - Foto: IMAGO
Nestory Irankunda, extremo do Sporting e da seleção australiana - Foto: IMAGO
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Bem-vindo, Irankunda

Quando aparece um jogador com uma técnica de remate assim vêm-nos à memória especialistas de livres diretos que deixaram herança mas não herdeiros. Culpa do 'novo' futebol

Uma das novidades mais agradáveis nos muitos jogos internacionais de seleções disputados por esse mundo fora nesta paragem das provas de clubes foi a exibição de Nestory Irankunda, o extremo do Sporting que surpreendeu a seleção do Brasil no primeiro de dois jogos entre a Austrália e a canarinha. Além da velocidade, habilidade individual no um para um e a imprevisibilidade de movimentos exteriores e interiores, saltou à vista a execução soberba de um livre direto, numa técnica de remate que cada vez se vai assistindo menos e que por isso deve ser exaltada a bem do futebol espetáculo.

Porque uma das consequências de termos hoje um futebol mais intenso, rápido e atlético foi precisamente a redução de golos de livre direto. E o quase desaparecimento dos grandes especialistas. De acordo com a plataforma de dados Opta, entre 2014 e 2022 foram marcados menos 75 golos de livre direto nas cinco principais ligas europeias; só em Inglaterra assistiu-se a uma queda de 50 por cento nos golos de livre direto de 2013/14 para 2022/23 (39-19); entre 2018 e 2023 na Serie A, apenas três jogadores conseguiram marcar mais de três golos de livre direto em todo esse período, comparado com 14 jogadores entre 2005 a 2010; no Real Madrid do tempo de Cristiano Ronaldo a equipa exibia uma média de 6,1 golos de livre por época, tendo passado para 1,6 após a saída do internacional português; e dados publicados em Inglaterra mostram que os especialistas tendem a baixar para metade a eficácia à medida que vão ficando mais velhos, sendo o próprio CR7 a prova disso mesmo: passou de um temível a mediano cobrador de livres (1 golo em 60 tentativas nas fases finais de Europeus e Mundiais).

Em termos globais, os motivos para a queda destes números está também numa das revoluções da modalidade: os dados e as ferramentas de estudo. No caso dos guarda-redes assistiu-se a uma evolução tremenda: a taxa de defesas no lado aberto (o que não está tapado pela barreira) passou de 68 por cento em meados de 2000 para 84% na atualidade; e todas as equipas, sem exceção, entre 2000-2010 e 2010-2020, baixaram 38 por cento o número de faltas na zona frontal.

Em suma, hoje não há uma aposta no treino massivo e intenso de livres porque a probabilidade de sucesso é menor. E assim evita-se castigar mais os joelhos, por exemplo.

Sempre que aparece um Irankunda da vida é um pedaço de um outro futebol que vem sempre à memória.

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