Não era dos mais talentosos, mas enquanto jogador, Tony da Silva jogou a Champions, fez-se lenda no Cluj e no P. Ferreira, que apurou para a Liga dos Campeões. Agora treinador, estreia-se amanhã como selecionador do Mali e garante querer ter um percurso ainda melhor
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«Selecionador do Mali? Não quero parar por aqui, ainda estou a meio 'pau'»

Não era dos mais talentosos, mas enquanto jogador, Tony da Silva jogou a Champions, fez-se lenda no Cluj e no P. Ferreira, que apurou para a Liga dos Campeões. Agora treinador, estreia-se amanhã como selecionador do Mali e garante querer ter um percurso ainda melhor

Para quase todos em Portugal é o Tony do Paços, apesar de ter jogado apenas três épocas nos castores. Foi lá que Paulo Fonseca lhe alargou horizontes e é um dos culpados por hoje falarmos do mister Tony. Depois de «conhecer o futebol desde o distrital», e após quatro anos como adjunto de António da Conceição na seleção dos Camarões, é o selecionador do Mali e desde junho. Amanhã estreia-se frente a Cabo Verde, razão mais do que suficiente para irmos conhecer uma personagem incontornável do futebol nacional. Da formação no PSG, com Anelka como colega de quarto, ao título que mais o orgulha na vida: «Ser um gajo porreiro.»

— Tony, Tony da Silva ou Tony Careca?

— Os três [gargalhada]. Os três. Não me incomoda ser o Tony Careca, porque é uma imagem de marca. E eu orgulho-me quando as pessoas me chamam Careca ou Carequinha. Acho que é sinal de que deixei alguma marca nas pessoas. Portanto, podes tratar-me como quiseres.

— Bom mote. Fez a formação no PSG, mais de 100 jogos na Liga, ajudou a qualificar o Paços de Ferreira para a Champions. Jogou a prova pelo Cluj e conquistou sete títulos na Roménia. Mas diz que o melhor do seu currículo é que toda a gente se refira a si como «um gajo porreiro».

— Sem dúvida. Acho que o maior legado que eu posso deixar ao meu filho é a educação que eu recebi dos meus pais. É aquilo que eu tento dar-lhe a ele. Claro que os títulos são importantes, mas quando vais ao supermercado não te compram nada. As medalhas não compram nada. O reconhecimento das pessoas é aquilo de que me orgulho mais.

— Ser sempre bem recebido.

— Sim. Vou a todos os estádios, de norte a sul, e sou recebido de braços abertos por toda a gente. Toda a gente tem um carinho especial por mim. Se calhar pela minha forma de ser, humilde, muito positivo e sorridente. Que é o contrário do que era dentro de campo, onde era um jogador mais agressivo.

— Um operário em vez de um virtuoso, não é?

— Sim. Digo-o sempre. Até deu que falar quando o disse numa entrevista pós-jogo, num golo importantíssimo ao Sporting [praticamente garantiu a qualificação do Paços para a Champions]. É uma imagem que me caracteriza: eu nunca fui um Ronaldo ou um Quaresma, mas fui sempre um jogador de equipa. E a minha forma de jogar e a forma de estar na vida são muito parecidas.

— Ou seja, o que importa é mostrar os dentes: rosnar dentro de campo e sorrir fora dele?

— Sem dúvida: está resumida a minha vida. No futebol temos uma vida de sofrimento. Claro que as pessoas veem as luzes nos dias de jogo, ou as entrevistas no jornal, mas não sabem todo o sofrimento que há por trás.

— Vem de uma família de emigrantes. Como foi crescer em França?

— Sim, nasci em França, mas fiz o caminho inverso aos meus pais. Eu vim para Portugal atrás do meu sonho. Só tinha uma opção, porque só sabia jogar futebol. E queria alcançar uma boa carreira para poder dar estabilidade financeira à minha família. O maior orgulho que posso ter também é esse de ser reconhecido por ser sorridente, mas sobretudo é ter conseguido dar estabilidade financeira à minha família.

— É o ‘gajo’ mais transmontano que cresceu em Paris?

— Ah, sem dúvida! Eu sou muito enraizado lá no norte. Tenho um orgulho imenso dos meus avós, que eram agricultores. E gosto muito de estar lá, porque ali sou o Tony, sou o Careca. Não sou o Tony da Silva, não sou o treinador de futebol, não era o jogador, sou apenas mais um. Sou igual a eles e faz-me muito bem. Já quando jogava na Champions, fazia-me muito bem voltar às raízes para ter os pés assentes no chão. Saber de onde vim, de onde os meus pais vieram e o que tiveram de trabalhar para atingir os objetivos de vida deles, que passavam por dar as melhores condições, a mim e à minha irmã. Os valores que me transmitiram são inegociáveis. E eu sou o puro transmontano. Sou mesmo puro, apesar de ter nascido em França.

— Depois de uma carreira de bom nível como futebolista, começa a carreira a solo como treinador na AD Oliveirense?

— Exatamente. Na fase de subida [do Campeonato de Portugal]. Sinceramente, nunca pensei em ser treinador. Queria estar ligado ao futebol, mas como empresário ou diretor desportivo. Mas depois houve um ex-treinador meu que me desafiou, o Ricardo Chéu. Ligou-me a convidar-me para ir para o Académico de Viseu, e a partir dali ganhei o gosto, fiz uma opção de carreira enquanto treinador, que era acumular o máximo de experiência e conhecimento, e depois as coisas foram acontecendo normalmente. Foi fruto de muito trabalho, sempre sozinho, sempre a trabalhar, a tirar cursos… A única pessoa a quem eu devo muito no futebol é o António Conceição. A esse devo tudo.

— Mas ele tirou-o do seu clube do coração.

— É verdade. Nos juniores do Chaves. O amor que sinto por aquele clube não se explica, é como o que sinto pelos meus pais e pelo meu filho. Eu amo o Chaves, por isso estava na cadeira de sonho. Mas depois surge uma proposta irrecusável para ir para a seleção dos Camarões com o António Conceição.

— Que lhe mudou a vida, não é assim?

— Foi a melhor opção que tomei para a minha carreira de treinador. Aprendi muito numa seleção de topo, convivendo com jogadores de topo, como era o Choupo-Moting, o André Onana, o Aboubakar… e a lidar diariamente com o mister, a aprender sobre a preparação dos treinos, a gestão humana. Aprendi imenso com o António Conceição, aprendi imenso e agradeço-lhe por isso.

— A trabalhar numa seleção, como aproveitava as semanas sem atividade?

— Tirei várias formações, desde psicologia, anatomia, os cursos de treinadores nível II e III. Eu conheço o futebol desde a distrital até à seleção, já passei por escalões todos e até pela formação nos sub-19 do Chaves. Essa bagagem toda também foi uma opção de carreira. Quis ter a máxima bagagem possível porque não sabia o dia de amanhã e acho que é importante passar por várias experiências para ir bebendo daqui e dali, para formar a minha própria identidade.

— Depois do trabalho nos Camarões ruma à Roménia. Era outro destino inevitável?

— Sim. Estive uns três meses no Montalegre, pertinho de casa, mas depois saí por culpa de um problema de saúde. E depois ligou-me um amigo para ir treinar um clube da primeira divisão da Roménia. Tenho lá uma imagem muito boa. As pessoas ainda se lembravam de mim e ainda se lembram de mim. Eu faço questão de ir lá muitas vezes, porque é um país que me diz muito, um país que me acolheu da melhor forma.

— Que realidade encontrou?

— O clube estava praticamente condenado. Faltavam nove jogos, se não me engano, nós tínhamos de ganhar cinco, pelo menos, e empatar um ou dois. Mas eu vi isso como uma oportunidade de ganhar mais experiência. Sabia que ia ser difícil, mas fomos lá e conseguimos safar aquilo. Sem play-off, sem nada. Conseguimos ganhar o grupo e safámos o clube.

— Agora volta a trabalhar numa seleção, mas como treinador principal.

— Sim. Sempre fui subindo na minha vida ao meu ritmo. Nunca tive pressa de chegar do primeiro andar ao décimo. Fui sempre ao meu ritmo até chegar agora à seleção do Mali. E não quero parar por aqui! Ainda estou motivado. Tenho um grande trabalho para fazer. Há muito trabalho para fazer, mas eu sou uma pessoa que mete objetivos de vida e ainda estou a meio pau, como se costuma se dizer.

— Tem raízes em Montalegre. Acha que a bruxaria de Montalegre vai funcionar no Mali?

— [Gargalhada] Eles lá têm mais bruxarias do que nós. Mas sim, a terra da minha avó é Vilar de Perdizes, que é a terra das bruxas. Eu nunca acreditei nisso, apesar da minha avó ter aquelas coisinhas dela. Mas em África vive-se muito isso, muito mesmo. E como não ligo, podem fazer as coisas todas. Eu vou sempre dar o máximo no que depender de mim, que é a honestidade e trabalho. Não posso prometer vitórias, porque há coisas que não dependem de nós, mas dedicação, respeito, honestidade, muito trabalho, muito trabalho.

— Como surgiu a oportunidade de ser selecionador do Mali?

— É engraçado porque eu já tinha quase tudo acertado para ir treinar o Gabão. Faltavam detalhes no contrato. Mas entretanto ligou-me o presidente da federação do Mali, tivemos uma reunião, como teve com outros treinadores. E, honestamente, se fosse pelo dinheiro, eu tinha ido para o Gabão. Mas aderi ao projeto do presidente do Mali. À ambição dele em tornar a federação e a equipa mais profissionais, mais organizadas. E acho que temos tudo para fazer história no Mali.

— O que seria fazer história?

— O Mali nunca foi a um Campeonato do Mundo. Acho que seria histórico. E o próximo Mundial sendo em Portugal, Espanha e Marrocos, para mim seria ouro sobre azul. É um objetivo muito difícil. E agora em setembro começa a qualificação da CAN, no final da época a CAN e depois a Liga das Nações Africanas. Portanto, são três eventos de enorme responsabilidade, mas também acho que é muito motivante. Por isso é que optei por ir para o Mali tentar fazer história.

— Em 2012 e 2013, o Mali foi a duas meias-finais da CAN, mas depois nunca mais chegou tão longe. O que é preciso fazer?

— Temos de ir etapa a etapa. Primeiro temos de renovar a seleção aos poucos, e qualificar a equipa para a CAN, que será em junho.

— Sentiu algum tipo de desconfiança quando foi anunciado?

— Sinceramente, não. As pessoas conheciam-me como adjunto na seleção dos Camarões, mas já vários treinadores começaram como adjunto, e tiveram sucesso. Mesmo em África. Eu sou muito confiante. Sei aquilo de que sou capaz e confio muito na minha organização. Se estou preparado? Estou. Conheço muito bem África, como conheço muito bem como funcionam as coisas. Conheço as condições, os jogadores. Em dois meses, já conheço 300 jogadores do Mali. São muitas horas de trabalho.

— Que Mali idealiza como seu?

— Será uma seleção com mentalidade ambiciosa, e com muita disciplina, o que é muito importante.

— A estreia será amanhã, contra Cabo Verde. Como está a preparar esse jogo?

— Pelos Camarões, defrontei muitas vezes Cabo Verde. Conheço a maior parte dos jogadores. Eles são um exemplo para muita gente, principalmente em África. Houve um projeto, deixaram um treinador trabalhar durante sete anos, e aquilo que fizeram no Mundial não cai do céu. Foi um trabalho, mérito da estrutura, do treinador e dos jogadores. E acho que é uma excelente oportunidade para mostrarmos aos nossos jogadores que eles também são capazes.

— As seleções africanas apresentaram-se em grande nível no Mundial.

— Sim. Das dez equipas africanas que participaram no Mundial, nove passaram a fase de grupos. Acho que isso demonstra que África está a evoluir. Tens Cabo Verde, mas também tens Marrocos que andou anos a investir nas infraestruturas e na formação de treinadores e jogadores. E muitas federações estão a ver como conseguir resultados.

— Acredita que a do Mali é uma delas?

— Sim, o novo presidente cresceu no Canadá e vem com um mindset de tornar as coisas mais profissionais. Essa foi uma questão importante para mim, porque quem conhece África sabe que a nível de logística e de organização, muitas vezes deixa a desejar. O presidente prometeu-me essa mudança e isso também me fez aceitar o desafio.

— Em 2024 houve um caso no Mali de renúncia de vários jogadores, que acusavam a federação de falta de organização. Isso não vai voltar a acontecer?

— Exatamente, mas eu sinto que isso já está a mudar. Sinto mesmo essa mudança. E isso nota-se. Porque, tal como acontecia nos Camarões, há jogadores com dupla nacionalidade que queremos trazer, mas que podem representar Espanha e França. E eles ficam um bocado reticentes por causa dessas situações, mas no espaço de dois meses nós já conseguimos convencer alguns desses jogadores. O que é um enorme orgulho para mim. Até há jogadores com quem falei no início, que agora são eles que me ligam porque percebem que as coisas estão a tomar outro rumo.

— E mostram vontade de representar o Mali?

— Sim. Estão a ver que a equipa diretiva é diferente, que o treinador traz outra mentalidade: traz muita ambição, mas também muita disciplina. Nós temos três critérios de seleção: o patriotismo, que é inegociável; ser competitivo, isto é, jogarem, independentemente de se chamarem Messi ou Ronaldo; e depois a disciplina. Quem não tiver disciplina, comigo só falha uma vez.

— Quais são os campeonatos onde está a base da seleção do Mali?

— Na primeira liga francesa. Agora foi vendido para o Brentford um jogador por 48 milhões de euros: o Sangaré. Um monstro no meio-campo. Parece que tem quatro pulmões, nunca vi um jogador correr tanto e com muita qualidade. Temos o [Nene] Dorgeles no Fenerbahçe. E temos alguns em Espanha.

— Convencer jogadores com dupla-nacionalidade será fundamental?

— Sem dúvida. E tenho a sorte de ter um team-manager que eu não conhecia e que tem sido um apoio incondicional. Temos a mesma visão e andamos de mãos dadas, o que torna mais fácil chegar ao coração dos jogadores. Muitas vezes, o difícil é lidar com os empresários e as famílias. Mas estou muito confiante e tenho a certeza de que vamos ter sucesso e criar uma base para os próximos 10 anos no Mali. Esse também é um objetivo. Posso não conseguir ser campeão do Mundo, mas um dia vão poder dizer: «Está ali o trabalho do Tony.» E isso é muito importante.

— Consegue apontar um jogador que ainda não seja muito conhecido, mas que vai ‘rebentar’?

— Sim. Gaoussou Diakité, que joga no Salzburgo. É um jogador com um talento como já não se vê. Daqueles com futebol de rua. Tem um caráter difícil, é verdade, mas tem um talento que acho que vai dar que falar no futebol europeu nos próximos anos. Só tem 20 anos, pode jogar nas três posições da frente, é muito versátil e muito técnico. É bastante interessante.

«Só o futebol faz o povo do Mali esquecer a guerra»

— O Mali está em guerra civil há quase 15 anos. Como se lida com essa parte?

— Por incrível que pareça, quando estive no país não senti sinais da guerra. À noite veem-se polícias a rondar, mas não senti que estava num país em guerra. Mas também estava em Bamako, a capital, e a guerra é mais a norte, perto da fronteira com Burkina Fasso, Mauritânia e Nigéria. Muito longe de mim, portanto. Vivi uma vida normal, uma vida difícil, porque em África não é uma vida fácil. O que nos dá mais responsabilidade, porque a única coisa que lhes dá prazer e um sorriso é o futebol. Eles adoram futebol e é a única coisa que os faz esquecer a parte da guerra. Claro que também sou um privilegiado: tenho condutor e guarda-costas. Mas do meu apartamento à federação são 800 metros e eu vou a pé, pelo meio do povo. E nunca senti insegurança, muito pelo contrário.

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