Ana Caldas nasceu em Vizela e com o género masculino, mas já nos EUA fez a transição de Hugo para Ana. Foto X
Ana Caldas nasceu em Vizela e com o género masculino, mas já nos EUA fez a transição de Hugo para Ana. Foto X

Nova polémica com a nadadora portuguesa 'trans' Ana Caldas

Uma adversária chamou-lhe «homem» e corre risco de ser banida para a vida. Nascida em Vizela, atleta transgénero de 47 anos, que reside na Califórnia, gerou enorme controvérsia e abriu mais uma vez a discussão por ter recusado fazer os testes de sexo

A nadadora norte-americana Angie Griffin enfrenta um processo disciplinar e uma possível exclusão vitalícia da natação por defender as regras da World Aquatics que protegem a categoria feminina. O caso já levou a Unidade de Integridade da World Aquatics a notificar a U.S. Masters Swimming, que arrisca perder o seu estatuto de entidade reguladora reconhecida nos Estados Unidos.

A polémica começou no ano passado, durante os Campeonatos de Primavera da U.S. Masters em San Antonio, Texas. Angie Griffin viu um dos títulos femininos ser conquistado por «Ana» Caldas, uma nadadora que competiu na categoria feminina. Griffin expressou a sua opinião de que a vitória era injusta, uma vez que Caldas, anteriormente conhecido como Hugo, é um homem de nacionalidade portuguesa.

Após a competição, Griffin e outros nadadores apelaram, num fórum online de Masters, para que a U.S. Masters Swimming aplicasse as regras da World Aquatics. Estas regras, estabelecidas em 2022, estipulam que nenhum nadador que tenha passado pela puberdade masculina (Tanner Stage 2) pode competir na categoria feminina. Em resposta aos seus comentários, Griffin foi alvo de ataques agressivos e misóginos, culminando na abertura de um processo disciplinar contra si por parte da U.S. Masters.

Recorde-se que «Ana» Caldas, que também já usou o nome Hannah, está atualmente a cumprir uma suspensão de cinco anos imposta pela World Aquatics por se ter recusado a realizar um teste de sexo não invasivo, necessário para comprovar a elegibilidade para a categoria feminina.

A situação escalou ao ponto de a Unidade de Integridade da World Aquatics ter enviado uma carta formal à U.S. Masters, alertando que está a acompanhar de perto o processo contra Griffin. A entidade global instou os responsáveis norte-americanos a garantirem um processo justo e independente, em conformidade com os estatutos da World Aquatics.

Nos Estados Unidos, a USA Swimming é a entidade filiada na World Aquatics, mas a U.S. Masters opera como uma organização separada com jurisdição própria. No entanto, o desrespeito pelas regras internacionais sobre direitos baseados no sexo pode levar à perda da sua afiliação e, consequentemente, da participação nos Campeonatos Mundiais de Masters.

Fontes próximas do processo expressaram grande preocupação de que a U.S. Masters permita que o processo contra Griffin seja influenciado por preconceitos, resultando numa sanção desproporcional. Uma fonte sénior destacou que até atletas condenados por doping grave recebem penas muito mais leves do que um banimento vitalício.

Angie Griffin expôs o seu caso num vídeo divulgado pelo ICONS (The Independent Council on Women's Sports), uma rede de apoio a atletas femininas. A declaração é acompanhada por um apelo à comunidade da natação para que apoie o direito das mulheres a um desporto justo e seguro na sua própria categoria.

A nadadora Hannah Caldas foi suspensa por cinco anos pela World Aquatics por violar as regras de elegibilidade da categoria feminina. A sanção, que vigora até 18 de outubro de 2030, implica também a anulação de todos os seus resultados obtidos entre 19 de junho de 2022 e 17 de outubro de 2024, incluindo os do Campeonato do Mundo de Masters de Doha 2024.

A decisão do organismo que rege a natação mundial baseia-se no facto de Caldas, uma mulher transgénero nascida com o nome Hugo Caldas, ter competido na categoria feminina apesar de as regras em vigor desde junho de 2022 o proibirem. A política da World Aquatics impede a participação de atletas que tenham passado pela puberdade masculina (Tanner Stage 2) nas competições femininas.

Antes da sua transição, Caldas integrou uma equipa de natação masculina para homossexuais em Ohio. Após a transição, começou a competir em provas femininas, tendo participado nos Campeonatos do Mundo de Masters de 2021 e 2024, primeiro sob o nome de Anna e depois como Hannah.

A New York Aquatics, em representação da atleta, emitiu um comunicado em resposta à suspensão. A organização revelou que, durante a investigação, a World Aquatics exigiu que Caldas realizasse um teste genético ou cromossómico, a expensas próprias, para comprovar a sua conformidade com a política de género, mesmo após a apresentação de uma certidão de nascimento que a identificava como mulher.

No mesmo comunicado, Caldas expressou a sua posição:

«Estou desiludida com a decisão da World Aquatics e não concordo que esta seja a forma correta de tratar os atletas. No entanto, aceito a sanção de cinco anos e espero que a minha aceitação permita que o desporto avance. Não quero que nenhuma outra mulher passe pelo que eu passei, e é por isso que não vou contestar a decisão.»

Apesar da sanção, a nadadora afirmou estar pronta para deixar a situação para trás, dando prioridade à sua saúde e segurança pessoal. «A minha vida e privacidade já foram suficientemente invadidas», declarou, acrescentando que tem enfrentado «repetidas ameaças violentas nos últimos meses simplesmente por participar em eventos de natação».

Recorde-se que, em agosto, um painel de revisão de elegibilidade da U.S. Masters Swimming considerou Caldas elegível para a categoria feminina, uma decisão que, no entanto, ignorou os regulamentos internacionais da World Aquatics. A federação internacional sublinha que todos os atletas em competições internacionais estão sujeitos às suas regras.

A World Aquatics tentou criar uma categoria «Aberta» para atletas transgénero na Taça do Mundo de Berlim em 2023, mas a iniciativa não teve a adesão de qualquer atleta, incluindo nomes como Lia Thomas.

O argumento principal é que a criação de uma categoria exclusivamente feminina serve não só para assegurar a equidade e a segurança nas provas, mas também para incentivar a participação de raparigas no desporto. Pretende-se evitar que estas se sintam desmotivadas e abandonem as modalidades por considerarem que o desporto «não é para mim».

Neste contexto, a publicação State of Swimming avança que Caldas não terá desistido da sua posição, prometendo mais desenvolvimentos sobre o caso no futuro. A controvérsia levanta questões sobre se os homens devem competir em provas e espaços femininos, com o debate a invocar a necessidade de honrar os compromissos constitucionais de jogo justo.

A posição de Coventry, que defende a proteção da categoria feminina, é um dos pontos centrais da discussão, levantando a questão sobre se as regras olímpicas de 2026 irão refletir esta perspetiva. O papel do Comité Olímpico Internacional (COI) também é alvo de críticas, com alegações de que o organismo tem desapontado as atletas femininas.