O desgoverno da palavra Açores
São nove ilhas a meio do Atlântico norte, que muito batalham pelo seu desenvolvimento, pela sua autonomia e pelo legítimo direito a serem tratadas com respeito e com equidade. Tem sido assim ao longo dos últimos 50 anos, celebrando justamente agora um estatuto que deve ser cada vez mais trabalhado e moldado por forma a garantir que este pedaço do território português, com características tão únicas quanto exigentes, evolui de modo sustentado e equilibrado.
A ultraperiferia tem destas coisas: fala-se muito da região açoriana nos media nacionais quando troveja, quando a terra treme, quando o mar galga ou quando a desgraça, qualquer que ela seja, bate à porta. Fala-se dos Açores pela elevada taxa de analfabetismo funcional, pelo tráfico de droga acima da média, pelo abandono escolar que importa combater.
Mas as nove ilhas do arquipélago lutam, também, pela sua emancipação cultural e desportiva, áreas em que os governos, transversalmente, quase só aparecem para tirar fotografias com as medalhas ou nas sessões de lançamento das capitais culturais (como acontece, este ano, com Ponta Delgada, a Capital Cultural portuguesa).
O desporto é um veículo de promoção e de estímulo como poucos outros, pela sua dimensão, pelo alcance transversal da sua mensagem ou pela capacidade de concitar unanimismos como, talvez, nenhuma outra atividade. Por isso, o estímulo financeiro garantido pelos sucessivos governos regionais açorianos aos principais emblemas e nomes do desporto regional, quando em compita nacional, pela utilização do nome do arquipélago nas suas atividades ou camisolas (a comummente chamada legislação da palavra Açores), surge como reflexo natural e absolutamente lógico do reconhecimento de que esse é um modelo win win de relação entre o poder público e os representantes mais meritórios em diversas modalidades.
Até agora, 16 equipas das mais diversas modalidades, e o campeão regional de ralis, beneficiaram de uma verba global anual um pouco superior a um milhão de euros como contrapartida da publicidade efetuada aos Açores nas competições nacionais em que estão envolvidos.
Participações no Campeonato de Portugal, em futebol, na liga profissional de basquetebol, no Nacional de Ralis. Ou a simples organização do Campeonato de Futebol dos Açores, prova que junta as melhores equipas das três associações existentes na região (Ponta Delgada, Angra do Heroísmo e Horta), e cujas áreas de abrangência correspondem geograficamente aos três antigos distritos açorianos.
As políticas desportivas devem sustentar duas razões matriarcais: a promoção da prática, envolvendo o estímulo à formação e o consequente apoio à despistagem e desenvolvimento do talento humano, com a necessária componente estrutural adjacente; e a projeção da alta competição ou, pelo menos, do rendimento associado a uma prática continuada e sistemática, que se refletirá, no caso açoriano (como no madeirense, no canarino ou no das Baleares), na promoção da imagem para lá das fronteiras insulares, certo da sua dimensão turística, da sua capacidade de congregação de novos mercados e, sobretudo, como ferramenta natural sucessória da primeira prática (mais lúdica e motivacional), apoiando os que se distinguem e vêem nessa evolução a consequência do seu esforço, do seu talento, do seu trabalho e da sua determinação.
Um governo que não reconhece estas duas vertentes ou que, pelo menos, não faz o possível para as incluir nas prioridades de governação, está a passar ao lado da sua missão e a negligenciar uma importante quota-parte dos seus melhores ativos.
Pois é justamente isto que o Governo Regional dos Açores tem passado para a opinião publica nos últimos tempos, num processo gradual de comunicação aos agentes desportivos: o apoio já tradicional e amplamente justificado, como contrapartida pelo uso da palavra Açores nos equipamentos, vai terminar a partir da próxima temporada desportiva, constituindo, obviamente, um rombo muito significativo (na maioria dos casos, decisivo…) nos exercícios orçamentais da generalidade dos clubes que dele faziam, até agora, elemento nuclear do seu planeamento.
É uma gritante falta de visão e de oportunidade. Falta de visão prospetiva e de perspetiva, não entendendo, com esta atitude, o governo açoriano que a atividade de alto rendimento (ou projetada a escalões de competição nacional), significa a pura continuidade das ambições dos jovens praticantes, e é a consequência do talento e da motivação que fazem deles referências nos escalões de formação. Falta de oportunidade na medida em que o corte deste subsídio, sob o falso pretexto de alocação de verbas para o setor formativo, vai não apenas diminuir, senão mesmo coartar todas as possibilidades de sobrevivência de grande parte dos, até agora, beneficiários destas verbas, retirando aos Açores músculo, dimensão representativa e presença regular em palcos distintivos de diversas modalidades, no país e no estrangeiro.
Sempre o disse: um governo que não aposta sistematicamente nos setores culturais e desportivos, negligencia duas áreas nucleares fundamentais, dá um claro sinal de inconsequência nas políticas setoriais que o podem verdadeiramente distinguir e, mais cedo ou mais tarde, será penalizado exatamente por força das atitudes penalizadoras entretanto tomadas.
Espero que, no caso dos Açores, por entre a bruma e as marés, haja um pingo de bom senso e outro de ponderação.
Cartão branco
Excecional a semana das equipas portuguesas nas competições europeias, projetando Sporting, Benfica, FC Porto e SC Braga para patamares de reconhecimento internacional. A prova de que, com garra e vontade, a dimensão competitiva destes quatro emblemas pode ultrapassar barreiras aparentemente intransponíveis, na certeza de que, no futebol, a única certeza surge com os apitos finais e se resume aos resultados. O caminho que se segue, para qualquer uma das equipas, será complexo, mas a ultrapassagem de desafios é o elemento decerto mais motivador para quem representa um país e para quem já conseguiu as proezas que os quatro mosqueteiros atingiram.
Cartão amarelo
A história da dívida existente à Segurança Social, por parte da Federação Portuguesa de Futebol, na sequência da celebração de um contrato com a empresa FEMACOSA, para suportar o vencimento do anterior selecionador nacional, tem de ser rigorosamente apurada, até para salvaguardar o bom nome e a inocência dos intervenientes. A nova Direção da FPF decidiu — e bem — liquidar mais de dois milhões e seiscentos mil euros, mas, para bem do sistema, para transparência da governança e para clarificação de processos, será essencial que as partes se expliquem e que se perceba, no final de todas as contas, a engenharia financeira desnecessária que balizou a relação laboral de Fernando Santos com a federação.