De Fafe a Torres Vedras
Ainda bem que o sorteio desta semana ditou a possibilidade de Associação Desportiva de Fafe ou Sport Clube União Torreense estarem na final da Taça de Portugal.
Bem sei que, para as parangonas dos jornais (sobretudo os da área do desporto) e para o clickbite digital e das redes sociais, seria muito mais atrativa uma reedição de clássico, com Sporting e FC Porto podendo disputar entre si o segundo mais apetecido troféu do futebol português.
Mas, como se viu na recente final da Taça da Liga (com todas as limitações competitivas que, na minha opinião, contribuem para uma clara desvalorização do troféu), podemos ter grandes jogos e fantásticos ambientes sem a presença de qualquer dos três mais emblemáticos conjuntos portugueses.
Por isso, ainda bem que o clássico poderá ter lugar nas meias-finais (ainda por cima a dobrar), tendo a palavra o Aves SAD para evitar que tal suceda.
A Taça de Portugal não é mais nem menos do que uma prova de sonhos concretizados. Ao longo dos anos, equipas de divisões menos cotadas estiveram em foco e, no limite, conseguiram presenças muito interessantes e dignificantes no Estádio Nacional. A história fala de David contra Golias mas, na realidade, o que quer significar é a grande capacidade de abnegação, de luta, de conquista, de crença, de motivação que a competição permite e promove, levando ao limite circunstâncias do jogo que, numa prova de regularidade, dificilmente se manteriam por muito tempo e em jornadas sucessivas.
O trabalho que a AD Fafe e o SCU Torreense assinaram, na atual edição da Taça de Portugal, é absolutamente notável, justamente porque radica nos valores que sublinhei no parágrafo anterior. Atentemos no percurso minhoto: Moreirense, Arouca, Lusitano de Évora (uma das sensações da época passada) e, agora, SC Braga regressam a casa com a porta fechada e — pelo menos na ótica também minhota de Braga — com um dos objetivos da temporada caído por terra.
Em Fafe mora Mário Ferreira, nome que estaremos mais habituados a associar, de imediato, ao audiovisual ou à indústria marítima. Porém, este Mário Ferreira, aos 31 anos, está agora a colher os frutos do que foi plantando com o grupo de trabalho às suas ordens, e com o inefável e indispensável apoio (por ele, de resto, enfatizado e agradecido), de uma generosa massa de adeptos, consegue um percurso notável, que leva a equipa à antecâmara da final do Jamor, e (com a necessária pontinha de sorte) a um duplo confronto com o Torreense. Importa dizer que a AD Fafe milita na Liga 3, a competição em muito boa hora gizada e criada pela Federação Portuguesas de Futebol (com um dedo muito importante do então diretor-geral Luís Sobral), e que, na sua génese, visou dar campo, visibilidade mediática (através das regulares transmissões do Canal 11) e patamar competitivo de entry level no profissionalismo, para atenuar as imensas diferenças financeiras e estruturais encontradas pelos clubes que, provenientes do Campeonato de Portugal, se viam projetados no âmbito das provas da Liga Portugal.
Fafe, cidade e concelho de grande ebulição desportiva, chega às meias-finais da prova rainha com o dedo do treinador Mário Ferreira, mas a base de desenvolvimento de um projeto credível na identidade local, estável na componente financeira e determinado no âmbito desportivo.
Justamente o mesmo que Torres Vedras pretende do seu SCUT. Lembro-me de imensas deslocações ao Estádio Manuel Marques, enquanto jornalista de rádio, e de perceber nos torreenses o desejo de que o seu clube não mais tivesse abandonado o convívio dos maiores.
Pode, porém, um passado histórico servir agora de motivação e de resiliência para a recuperação desejada. Atuando no segundo escalão profissional, a equipa do Oeste mudou recentemente de comando técnico, e as ondas de choque parecem ter gerado combustível e vontade para duas vitórias, uma delas, justamente, nos quartos de final da Taça de Portugal, agora com Luís Tralhão promovido dos sub-23 ao degrau mais alto.
Cruza-se a história de Fafe e de Torres Vedras, cidades muito próximas, também, na tradição do ciclismo e, por isso, vibrantes com as proezas dos seus, qualquer que seja a modalidade. Serão dois jogos inesquecíveis, os das meias-finais da Taça de Portugal entre estes emblemas. E dois, pela última vez, porque o quadro mais lógico, até em face do restante modelo da prova, é que o caminho direto para a final seja disputado apenas a um jogo.
Mas até neste detalhe, ainda bem que estaremos perante a última temporada de meias-finais a duas mãos. Porque nenhuma destas cidades, depois dos percursos brilhantes das respetivas camisolas nesta Taça de Portugal, merecia ficar fora do roteiro. Provavelmente até teremos dois clássicos para apurar o outro finalista, com o natural e habitual impacto causado nos media. O que honestamente espero é equilíbrio, equidistância e equidade na importância, no impacto e nos espaços informativos concedidos aos quatro jogos das meias-finais, para que AD Fafe e SCU Torreense vejam feita justiça absoluta ao seu mérito desportivo e à proeza que constitui o apuramento de ambos para uma tão adiantada fase da competição.
Só assim se promoverá, verdadeiramente, o espírito de Taça que honra o talento, o arrojo, o desassombro. E que, claro, nos motiva a gostar cada vez mais de Futebol.