Senegal em festa com a conquista da CAN após Sadio Mané ter ajudado a resolver um... problema - Foto: Imago
Senegal em festa com a conquista da CAN após Sadio Mané ter ajudado a resolver um... problema - Foto: Imago

Senegal no melhor e no pior

'Livre e Direto' é o espaço de opinião semanal do jornalista Rui Almeida

É notório o esforço que, ano após ano, a Confederação Africana de Futebol (CAF) protagoniza para melhorar a qualidade das suas organizações, seja a nível estrutural (estádios, vias de comunicação, condições de treino e alojamento), seja no quadro competitivo.

Há poucas semanas, aqui sublinhei a revolução Motsepe, o plano de reconversão que o presidente da entidade gestora do futebol africano quer implementar nos próximos anos, servindo as provas de seleções e os torneios de clubes, a nível continental.

Marrocos é um dos pouquíssimos países que, neste momento, garantem, à partida e sem reservas, condições próximas da excelência para albergar estas provas. Com a África do Sul e o Egito, falamos dos três únicos países africanos que podem suportar as elevadas exigências e o consequente padrão de qualidade pretendido.

Porém, África é um continente muito especial, e é dado praticamente adquirido que, ao país organizador de determinada grande competição internacional, é garantido um estatuto de proteção que pode, até, passar por arbitragens mais suaves ou convenientes, em determinados momentos do torneio em causa.

A CAN-2025, uma Taça de África das Nações com peso e com dimensão global (estima-se que a final de domingo passado tenha sido transmitida para 180 países), roçou o patamar mais alto, do ponto de vista das estruturas apresentadas, com estádios state-of-the-art, que muito prometem para a organização marroquina do Mundial-2030 (em conjunto com Espanha e Portugal), mas teve, na final, um dos mais rocambolescos momentos da história do futebol internacional. Pela minha parte, com milhares de jogos narrados e talvez centenas de finais observadas, ao longo de 40 anos de carreira profissional, não me consigo recordar de uma situação tão absurda e constrangedora para a imagem de uma seleção, como a assumida pela seleção do Senegal, nos últimos minutos da compensação, na segunda parte do desafio com Marrocos, e com o resultado em branco.

Depois de o árbitro congolês Jean-Jacques Ndala Ngambo ter revisto um lance de El Hadji Diouf (jovem lateral-esquerdo do West Ham e do Senegal), por solicitação da equipa VAR, assinalou — bem — grande penalidade para os senegaleses. O marroquino Brahim Díaz sofrera, de facto, falta para penálti.

A confusão estava lançada, e não era uma simples discussão mais ou menos controlada no relvado. Minutos antes, o Senegal havia introduzido a bola na baliza marroquina, mas o juiz apitara bem antes, sinalizando uma falta ofensiva. Portanto, nem se pode falar de golo anulado aos senegaleses, uma vez que o jogo já estava parado.

Porém, essa era a situação de ignição de um momento impensável no futebol profissional: na sequência da sinalização da grande penalidade, o selecionador do Senegal, Pape Thiaw, dá indicação de abandono de relvado (!) à sua equipa. Que, em grande parte, cumpriu e retirou para o balneário.

A imagem de uma final internacional não pode, jamais, ser manchada por uma atitude antidesportiva, lesiva da competição e indigna de um país. Valeu o bom senso de dois Senhores do futebol internacional: o capitão Idrissa Gueye (jogador do Everton) e o incontornável Sadio Mané, figura maior de uma inteira geração de futebolistas do seu país. Esses, ao permanecerem no retângulo, praticamente exigiram aos colegas que voltassem e ao treinador que revertesse a decisão tomada.

Ironia máxima, Brahim Díaz, chamado a tentar converter um lance que, seguramente, daria o título africano a Marrocos, falhou redondamente, entregando a bola ao guarda-redes contrário.

No prolongamento, o que se sabe: um grande golo de Pape Gueye e o Senegal a ser coroado como titular de África, em pleno estádio do adversário.

A situação criada pelo combinado senegalês radica, é verdade, num acumular de decisões arbitrais questionáveis, sempre em favor de Marrocos, tomadas ao longo dos jogos anteriores. Uma onda de contestação, sobretudo de países da África subsaariana, tomou de assalto as redes sociais e criou um ambiente pouco propício a uma grande final internacional, como a de Rabat.

Mas o respeito pelo jogo e pelas respetivas Leis tem de se sobrepor, em quaisquer circunstâncias. E, acima de tudo, o respeito pelos milhões de adeptos de Futebol que aguardaram por um dos jogos mais esperados do ano. A imagem do continente sai beliscada com as atitudes dos leões de Teranga, agora campeões africanos.

As consequências serão duras, quer por parte da CAF, quer pela FIFA, cujo presidente Gianni Infantino estava na tribuna, na capital marroquina, e participou na cerimónia de entrega de prémios.

É essencial que as conclusões dos inquéritos entretanto instaurados reflitam a indignação do planeta Futebol, mas é também muito importante que a CAF continue a pugnar por uma crescente valorização dos espetáculos e dos seus intérpretes. No que diz respeito ao órgão reitor do futebol em África, a arbitragem deverá estar no topo das atenções, com a necessária qualificação e blindagem dos seus agentes.

Mas há, acima disso, uma componente ética que terá de ser trabalhada. A imagem internacional do desporto-rei no continente jamais poderá voltar a ser beliscada pelo impulso do momento, por uma discordância de circunstância, ou pelo capricho de um treinador.

Cartão branco
Excecional semana para a arbitragem portuguesa de futebol no estrangeiro. João Pinheiro no Inter de Milão-Arsenal, da Liga dos Campeões, e Luís Godinho no Fenerbahçe-Aston Villa, da Liga Europa. Com as respetivas equipas, os árbitros de Braga e de Évora rubricaram atuações irrepreensíveis: excelente controlo dos jogos, distanciamento sem autoritarismo, diálogo tranquilo com os capitães, gestão do tempo e dos momentos de cada partida. Jogos de grande mediatização (o de Milão) e de imensa intensidade à chuva (o de Istambul). Pinheiro, Godinho e as suas equipas regressam a Portugal não apenas com a sensação de dever cumprido, mas com a certeza de que assinaram mais duas páginas brilhantes da arbitragem portuguesa na alta roda do futebol internacional.
Cartão branco
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