A 'revolução Motsepe'
África é, em quase tudo o que pudermos imaginar, um continente sui generis. Pelas suas gentes, tão distintas nas origens, tão diversas nos hábitos, mas também pela diversidade territorial que transforma terras africanas num permanente desafio de descoberta, de apuramento de sentidos e de desenvolvimento de competências pessoais, sociais e profissionais.
No desporto em geral, mas no futebol em particular, essa idiossincrasia única pode transformar-se em dificuldades ou oportunidades. Ao longo dos tempos, as primeiras têm ganho terreno, seja pela pouca visão de liderança partilhada, seja pelo fechamento em si próprios de alguns países, seja pelo êxodo de alguns dos seus mais destacados valores.
Porém, Patrice Motsepe trouxe ao futebol africano um olhar muito distinto, feito de visão estratégica e de aproveitamento das condições já existentes, por um lado, para potenciar a realização de competições que melhorem a imagem global do continente para o mundo, mas também de projetos de longo prazo, olhando grassroots, o setor de formação que, irónica e antagonicamente, tão frutuoso tem sido na libertação de grandes valores para o planeta futebol, como nefasto para os países que os produziram ao longo do tempo, pouco recompensados pela emanação de tanto talento.
O multimilionário sul-africano tem, justamente, essa grande vantagem: não precisa do futebol para subir a escada social, para se impor de algum modo, para mostrar poder ou para ser feliz. Aos 63 anos, e com um património líquido de quase quatro mil milhões de dólares norte-americanos, proveniente de uma aturada e profícua atividade na área da mineração, Motsepe é o exemplo acabado de um self made man que chegou a homem mais rico da África do Sul.
Gestor entusiasmado pelo desporto-rei, natural e facilmente projetado para a liderança da Confederação Africana de Futebol (CAF), o sexagenário está na sua segunda cadeira de sonho. E tem ideias, coisa às vezes rara numa paleta de dirigentes federativos africanos que, na sua maioria, utiliza o futebol como forma de promoção pessoal, como elevador social e como ferramenta e alavanca para o reforço da independência financeira. Sobram exemplos, escasseiam dirigentes do maiúscula, que coloquem à frente dos seus mandatos a verdadeira melhoria da qualidade do jogo, em todos os seus aspetos (estrutural, formativo, competitivo e financeiro).
Pois Patrice Motsepe prepara-se para revolucionar o quadro competitivo africano para seleções, com a passagem da realização da Taça das Nações Africanas (CAN) para a periodicidade quadrienal, a partir de 2028, e com a abolição de uma competição estranha, que servia para empatar dinheiro e para beneficiar alguns dos tais dirigentes: o CHAN (Campeonato Africano das Nações), dedicado a jogadores que atuavam apenas nas ligas domésticas, e realizado a cada dois anos.
Em paralelo com a reconversão da CAN e da extinção do CHAN, Motsepe cria agora a Liga das Nações Africanas, seguindo apenas em parte o modelo europeu (que já viu realizadas quatro edições, com duas de vitórias de Portugal, uma de França e outra de Espanha). Tratar-se-á de um torneio bienal à escala continental, mas suscitando as características peculiares de África, designadamente na componente logística. Um continente gigante, com o mesmo número de países da Europa e com o dobro da área, em que uma viagem aérea entre extremos norte e sul demora nove horas, tem necessariamente de se adaptar. A Liga das Nações Africanas fá-lo-á, com um quadro competitivo zonal (divisão do continente em quatro zonas geográficas), e uma fase final reunindo os mais cotados conjuntos de cada zona.
A perspetiva de criação desta Liga tem um duplo sentido: a oportunidade para a criação e estímulo de espírito de seleção, no aproveitamento de novos valores, e a perspetiva de um maior equilíbrio competitivo, permitindo jogos entre seleções de um mesmo nível que, de outra forma, apenas defrontariam adversários mais cotados, quer nas qualificações para a CAN, quer no apuramento para o Mundial.
É um modelo de desenvolvimento competitivo equilibrado, mas que deve, forçosamente, ter também em consideração as particularidades continentais. Há demasiados países africanos que não dispõem de um só estádio com condições consideradas mínimas pela CAF para a realização de jogos internacionais. E, por outro lado, as deslocações no continente, tirando da equação países charneira no desenvolvimento do transporte aéreo (África do Sul, Etiópia, Quénia, Egito, Marrocos, Senegal, Gana e, talvez agora, com o novo aeroporto internacional Dr. António Agostinho Neto, Angola), são complicadas, demoradas e de gestão logística muito difícil.
As ideias de Motsepe parecem não apenas ter pernas para andar, como mereceram aplausos da comunidade futebolística, mesmo fora do continente. São oportunidades para a reconversão competitiva de países como Angola e Moçambique, para o desenvolvimento de um modelo arquipelágico para Cabo Verde, para a melhoria infraestrutural na Guiné-Bissau e em São Tomé e Príncipe.
São, em suma, boas notícias para o futebol africano, e para os passos indispensáveis rumo, finalmente, ao seu desenvolvimento sustentado e ao respetivo (e tão necessário) reenquadramento internacional.