Bernardo Silva é, sem dúvida, o último tradutor do 'Guardiolismo'
Bernardo Silva é, sem dúvida, o último tradutor do 'Guardiolismo'

Guardiola contra Pep e vice-versa

O guardiolismo espalhou-se, mas o City já não parece acreditar totalmente na ideia que o tornou hegemónico. Pela primeira vez, Pep Guardiola enfrenta o seu próprio legado

Pep Guardiola ensinou-nos que o futebol é um sistema fechado, no qual cada passe tem o seu sentido, cada movimento não só uma causa, como também uma finalidade, e o golo é a consequência lógica de uma equação complexa. Talvez mesmo de uma ordem superior. Durante quase duas décadas, não foi apenas vencedor: foi hegemónico.

Hoje, embora nada nos garanta que, de um momento para o outro, não se possa voltar a agigantar e acumular títulos, o Manchester City tem demonstrado, nos últimos anos, ser uma equipa que já não acredita plenamente na ideia que o tornou quase imbatível no plano interno e grande favorito na Liga dos Campeões. Será este o princípio do fim do guardiolismo? Não, nada disso. À semelhança do que sucedeu com Cruijff, o legado de Guardiola não se esgotará no seu próprio percurso: prolonga-se nos discípulos que o replicam e o adaptam. E, de forma talvez mais irónica, alguns já aparecem em rivais de peso — do Arsenal ao PSG, do Bayern à restante elite europeia —, que passaram a falar a sua linguagem.

Guardiola, porém, poderá estar a ser engolido pelo monstro que ele próprio criou.

A sua quebra não é estatística nem imediata. É conceptual. E talvez tenha começado no momento em que o próprio treinador aceitou que o seu futebol, tal como o concebera no início, podia já não estar a ser suficiente.

A contratação de Erling Haaland é o primeiro grande sinal dessa inflexão. Não pela qualidade do avançado norueguês, um verdadeiro puro-sangue — que é indiscutível —, mas pelo que simbolizou: a admissão de que o processo precisava de um atalho. Neste caso, um caminho mais direto para a baliza. O ponta de lança era a solução para o golo rápido ou simplificado, que dispensava camadas sucessivas de passes. 15, segundo a doutrina de Pep: precisos, criteriosos, racionais, até que as suas equipas estivessem por fim preparadas para atacar com o menor risco possível de serem batidas no contrapé.

Depois de pagar com muitos golos o facto de, ainda assim, ser um corpo estranho no processo do catalão — por mais paradoxal que tal possa parecer —, Guardiola ganhou a Liga dos Campeões que tanto perseguira fora de Barcelona com o nórdico, contratado apenas no verão anterior, no onze. No entanto, conquistou-a com a exceção enquadrada o melhor que conseguiu. Tudo mudaria depois.

As dificuldades aumentaram assim que a exceção começou a moldar o sistema. O City tornou-se uma equipa em permanente ajuste identitário. O técnico passou a procurar soluções em várias direções ao mesmo tempo: mais verticalidade com o 9, mais desequilíbrio individual com extremos de drible, menor dependência do passe como linguagem dominante. Doku, Savinho e Cherki aparecem como sinais de um futebol mais instintivo, mais reativo, menos cerebral. O resultado não foi evolução, bem pelo contrário. Pelo menos, foi dispersão.

O City atual joga muitas vezes como se tivesse várias ideias, mas nenhuma ordem clara. O passe deixou de ser a língua-mãe e passou a ser apenas uma entre outras possibilidades. Sempre houve dribladores nas equipas de Pep, mas, mesmo com Messi, o maior de todos, o drible nunca substituiu o passe: existia para libertá-lo. Hoje, demasiadas ações parecem desligadas do todo, como se cada ataque fosse uma decisão isolada.

No processo, a equipa foi perdendo referências. Bernardo Silva é, talvez, o último grande tradutor — para os companheiros e não só — do guardiolismo: aquele que ainda entende o jogo como sequência, como frase completa e não como palavras soltas. Conceitos que apenas existem num dicionário e já pouco fazem sentido no dia a dia. Mais do que um jogador decisivo, é um guardião cultural. Se sair, o Manchester City poderá ir ao mercado outra vez e ficará certamente mais talentoso em aparência, todavia, bem mais pobre em gramática coletiva. E isso não há à venda.

Rodri representa o outro pilar essencial. Não é coincidência que a instabilidade do City coincida com a sua condição física longe do ideal. O futebol de Guardiola nasce sempre no controlo do tempo e esse começa no médio defensivo. Sem um corpo que imponha ritmo, todo o edifício perde coerência.

Importa repetir: o guardiolismo não morreu. Nem o próprio Guardiola. Não lhe façam o enterro futebolístico. O génio continua lá, mesmo depois de ter dado tanto ao jogo. Não acredito que esteja vazio, apenas talvez a visão esteja turva com o desgaste. Com o cansaço. Porque, como escreveu em título Pedro Paixão, Viver Todos os Dias Cansa. Ainda mais a este nível. Com esta pressão. E também com a expetativa, que ao seu redor é sempre enorme.

Morreu, sim, a sensação de inevitabilidade. O futebol aprendeu a defender-se do seu maior experimentalista. As equipas já sabem onde pressionar, quando baixar, quando ferir. A Premier League, sobretudo, vive hoje num estado permanente de contra-argumentação tática.

Talvez por isso a figura de Mikel Arteta surja como sucessor natural. Não por copiar Guardiola, mas por ter entendido os seus dilemas. No Arsenal, a procura de um avançado como Gyökeres não redefine o modelo, é, pelo menos por enquanto, apenas uma variável. O sueco não mudou o sistema. Gabriel Jesus, Merino, Havertz ou Gyokeres são caminhos possíveis para um processo que permanece reconhecível. A identidade não se fragmenta.

Guardiola, paradoxalmente, parece hoje menos confortável com a flexibilidade do que aqueles que aprenderam com ele. Como se estivesse a treinar contra o próprio legado, tentando provar que o modelo ainda evolui — e, nesse esforço, sacrificando a clareza original.

Talvez esta quebra não seja o fim de um ciclo vencedor, mas o desgaste de uma ideia que viveu demasiado tempo sob o peso de ter de roçar a perfeição. Guardiola continua a ser um génio. Mas, pela primeira vez, parece menos convicto de que o caminho que abriu é, também, aquele que quer continuar a percorrer. Chama-se a isso ser humano. Ainda que um humano genial.