Joaquim Evangelista, presidente do Sindicato de Jogadores Profissionais de Futebol. Foto Miguel Nunes
Joaquim Evangelista, presidente do Sindicato de Jogadores Profissionais de Futebol. Foto Miguel Nunes

Andamos aqui a gozar com os miúdos portugueses

Dizer aos jovens portugueses que não servem para a Liga e contratar jovens estrangeiros com a mesma idade e experiência é, objetivamente, gozar com o futebolista nacional

Uma das maravilhas do futebol (e do desporto em geral) é a universalidade, o contacto entre povos e culturas, a facilidade com que regras simples transformam a comunicação numa tarefa fácil e como atletas de todo o Mundo podem competir em qualquer parte sem barreiras linguísticas, culturais, étnicas ou até económicas (bom, neste ponto nem sempre, mas no futebol até sim).

Acredito muito na interculturalidade. Considero-me insuspeito a propósito de racismo, chauvinismo e nacionalismo. E por isso não tenho receio de afirmar que as conclusões do estudo ontem apresentado pelo Sindicato de Jogadores, com o apoio do jornal Record, são absolutamente escandalosas: apenas 29 por cento dos jogadores utilizados na I Liga são portugueses. Não se trata, aqui, de achar que deveriam ser a maioria ou que «aqui mandamos nós» e muito menos que «isto não é o Brasil, a França ou o Bangladesh». Não — trata-se de constatar uma enorme falta de respeito da indústria para com aquilo que ela própria, no seu trabalho de base, consegue produzir: bons jogadores.

É um contrassenso ser-se campeão mundial e europeu de sub-17, conquistar títulos e presenças em finais uns atrás dos outros ao longo de décadas, e depois apresentar um rácio destes na principal competição portuguesa.

Isto é faltar ao respeito ao jovem jogador português — bem como ao formado localmente — e convidá-lo a emigrar, como um certo governante entretanto tornado sebastiânico fez aos enfermeiros há uns pares de anos.

Não, não é nas áreas com empregos mais duros, que os portugueses recusam recorrentemente, que devemos queixar-nos de um alegado excesso de estrangeiros, que ainda por cima vêm viabilizar a Segurança Social e aumentar a taxa de natalidade. É num trabalho como o de futebolista profissional, sonho de criança de tantas e tantos portugueses, que devemos perguntar-nos o sentido que faz ocupar tantas vagas cujo valor nominal do futebolista português chega e sobra para preencher, como aliás se prova quando emigram e brilham por outras paragens (o que também é ótimo que aconteça, não confundamos exageros com situações equilibradas).

A indústria — e quem nela embolsa mais dinheiro — anda a gozar com os jovens futebolistas portugueses. Dizer-lhes que não servem para a Liga e contratar miúdos estrangeiros da mesma idade e experiência não tem outra qualificação possível.