Florentino: «Gosto de ver a frustração dos adversários quando lhes roubo a bola»
O Burnley ocupa a 19.ª e penúltima posição na Premier League, mas Florentino Luís considera que a experiência está a ser enriquecedora porque transitou para um campeonato em que «todos os jogos parecem de Liga dos Campeões».
- Como têm sido estes primeiros tempos no Burnley e na Premier League?
- Tem sido uma experiência muito boa, desde o primeiro dia tenho-me adaptado bem. Tem sido um clube no qual me tem proporcionado todas as condições para desfrutar desta liga, porque é uma liga muito exigente, que demonstra desafios todas as semanas tendo em conta que as equipas apesar de jogarem de forma semelhante apresentam coisas diferentes e nós temos de nos adaptar aos outros como as outras equipas se adaptam a nós, mas é uma competitividade muito alta que nos permite estar sempre no máximo e também com todas as condições à volta que tanto a liga como o clube oferecem fazem com que nós possamos dar um espetáculo todas as semanas.
- Fala da competitividade: era o que estava à espera ou alguma coisa o surpreendeu?
- Estava à espera, mas vivendo, estando lá dentro, surpreendeu-me um pouco porque [a intensidade] ainda foi um pouco mais alta do que eu estava à espera tendo em conta a qualidade, a intensidade... os jogos aqui nunca param. Quando a pessoa pensa que o jogo vai acalmar um pouco, vem sempre algo mais da equipa adversária, temos de estar sempre preparados. Há muitos golos, por exemplo, no final dos jogos, num momento em que pensamos que as coisas vão ficar como estão, mas não é isso que acontece, pois há muitos golos nesse período, o que demonstra que temos que ter um alto nível de concentração a todo o tempo.
- A maior diferença para o campeonato português é essa intensidade e menos pausas?
- Sim. Porque aqui, eu jogando como médio, tenho que ter sempre as jogadas já estudadas um pouco antes na cabeça, porque as equipas também jogam muito homem a homem, um futebol mais apertado. Claro que se conseguirmos driblar um jogador ou outro abrimos cais espaço, mas quando o jogo está mais fechado é tudo muito apertado, a nossa janela de pensar tem que ser muito rápida. Eu costumo dizer que a adaptação é como se estivéssemos a jogar um jogo de Champions League todas as semanas.
- Disse que é obrigado a antecipar jogadas. Isso foi algo que também desenvolveu na sua carreira?
- Quando uma pessoa chega aqui é algo que é obrigada a fazer. Foi algo que sempre tentei fazer durante a minha carreira. Claro que é algo mais difícil quando estamos mais cansados e aí entramos no modo de poupança, mas temos de ter essa inteligência de saber gerir o jogo e temos de ter as coisas preparadas na cabeça antes de a bola vir, faz com que estejamos um passo à frente. Quando aprendemos a fazer essa leitura tudo se torna mais fácil.
- Em Portugal há mais faltas. Sentiu essa diferença em Inglaterra?
- Claro. Os árbitros deixam seguir mais o jogo. No início estava sempre à espera daquela falta após um contacto. Mas o jogo fica mais corrido, mais intenso, o tempo útil de jogo é maior, o que proporciona um melhor espetáculo. O que as pessoas gostam de ver é a bola a andar.
- Qual foi o jogador mais forte que já teve de defrontar nos muitos duelos individuais que somou até ao momento?
Jogar frente ao Liverpool é complicado. Quando tento chegar à bola ela já não está lá
- Ah, muitos jogadores… mas posso se calhar eleger o Wirtz do Liverpool. É um jogador com muita qualidade e agora está a adaptar-se melhor ao futebol inglês. É muito difícil de marcar, não só ele mas toda a equipa, porque é uma equipa que tem as ideias muito bem claras. Eu como médio defensivo tento pressionar os outros médios e quando eu chego a bola já não está lá, é complicado.
- Manteve na Premier League o registo que tinha em Portugal, porque é o segundo jogador com mais roubos de bola, atrás de Palhinha. É mais fácil a adaptação a um campeonato mais exigente quem exerce funções defensivas do que um avançado como Gyokeres?
- Concordo. Do ponto de vista defensivo um jogador já tem a leitura do que vai acontecer. É engraçado: há jogadas-padrão que todas as equipas fazem e com o tempo uma pessoa vai apercebendo isso. De início foi um pouco difícil para mim porque eu tinha a mesma estratégia [que tinha no Benfica] que era o de roubar bolas e fazer a leitura de quando é que o outro ia passar ou não ia passar, mas parecia que chegava sempre atrasado. E quando comecei a entender que tinha de mudar um pouco a minha estratégia a antecipar o que se passava as coisas começaram a ficar mais fáceis. Já para um jogador ofensivo acredito que seja um pouco mais ofensivo porque aqui os jogadores defensivos são mais fortes e mais rápidos e a marcação é mais fechada, daí que o jogador ofensivo tenha de criar outro tipo de estratégias para ter sucesso.
- No caso de Gyokeres, não tem a ver tanto com o perfil dele, mas com a qualidade dos adversários? Ele não faz tantos golos como no Sporting mas é o melhor marcador do Arsenal e está em primeiro na Premier League. Ele foi um 'upgrade' para a equipa?
- As defesas têm muito mais qualidade em termos gerais e também querendo ou não sabendo do historial dele no Sporting os defesas quando jogam contra ele já vão com uma atenção extra, daí a maior dificuldade dele em marcar golos, mas quando um jogador adapta-se consegue fazer o que fazia antes.
- Jogou contra Gyokeres e ele marcou um golo na vitória por 2-0...
- Não tive muitos confrontos diretos com ele, mas recordo que nos marcou um golo, isso só demonstra a qualidade que ele tem.
Quando vejo a frustração dos adversários que tentam atacar e veem que é difícil fazer golos é sinal de que o trabalho está a ser bem feito
- Consegue descrever qual é o seu prazer de um desarme? Lembra-se quando começou a ter este gosto, quando os outros já pensavam que iam direitinhos para a baliza e de repente chegava lá e... 'esta é minha'?
- Eu quando era mais novo, quando comecei a jogar a médio defensivo, ali por volta dos 15 anos... antes disso até era mais ofensivo que defensivo, mas quando chego ao futebol profissional começou a desenvolver-se em mim a coisa mais defensiva e esse instinto. E eu gosto muito disso porque traz-me uma segurança não só para mim, mas também para os meus colegas ao lado, porque eles sabem que têm alguém na parte de trás que pode distribuir o jogo de uma forma mais fluida e quando os adversários atacam eu estou lá. Isso dá-me prazer porque os colegas olham para o lado e veem ali segurança. E também quando vejo a frustração dos adversários que tentam atacar e veem que é difícil fazer golos é sinal de que o trabalho está a ser bem feito.
- De igual maneira. É como se fosse um suspiro. Sendo nós uma equipa que tem menos tempo de posse de bola e sempre que ganhamos a bola é como se fosse um suspiro e uma oportunidade de fazer um golo e claro que os adeptos gostam disso.
As pessoas não entendem mas como eu gasto muita energia na parte defensiva e quando chego à parte ofensiva já é mais numa de descansar, não consigo pensar mais além do que a simplicidade
- Uma das duas assistências na Premier League foi no empate (1-1) com o Liverpool, tendo feito o passe para Marcus Edwards. Este é um aspeto que pretende desenvolver mais, tendo em conta que isso também foi sendo visível na sua última época no Benfica?
- É um extra que quero dar ao meu jogo. E claro, nunca esquecendo a parte defensiva. Quando consigo juntar as duas coisas é perfeito, mas às vezes… as pessoas não entendem mas como eu gasto muita energia na parte defensiva e quando chego à parte ofensiva já é mais numa de descansar, não consigo pensar mais além do que a simplicidade, mas quando a minha cabeça está mais fresca e tenho tentado desenvolver esse lado de dar mais assistências e marcar golos é algo que quero complementar no meu jogo porque pretendo evoluir e tornar-me um jogador cada vez mais completo.
- Treinou com o antigo atleta olímpico Jorge Palma, dos 400 metros barreiras. O quão foi importante para si?
- Foi quase como uma escola. Comecei a treinar com ele aos 17/18 anos, foi-me recomendado pelo Pedro Amaral que também jogou no Benfica. Ele quase que me ensinou a correr. Ele no primeiro treino disse-me assim: 'Olha, tu precisas de ser mais eficiente nos teus movimentos'. E quando somos mais eficientes nos movimentos, fazemos a mesma coisa, mas gastamos menos energia. Por exemplo, correr com os braços, porque estamos sempre focados nas pernas. Se soubermos como mover os braços sabemos que automaticamente as pernas vão correr. Ativamos o core [zona abdominal], o que faz com o que resto do corpo fique menos cansado, porque quando não o ativamos estamos a desgastar músculos que são necessários. Esse trabalho com ele é algo que levo até hoje comigo e são estratégias que fazem com que eu seja mais eficiente. O futebol é sobre ser eficiente, fazer as coisas em menos tempo possível, marcar golos da forma mais pática possível, então isso tem-me marcado muito. Senti muito essa evolução.
- No plantel do Burnley há Marcus Edwards e o Amdouni. Benfica e Sporting costumam ser tema no balneário?
- Ocasionalmente, quando eles jogam, falamos sobre os jogos e o que está a acontecer. Acompanhamos sempre.
- Marcus Edwards nunca se queixou de uma entrada que lhe tenha feito num dérbi?
- Não, ele é muito tranquilo [risos]. Diz que tem sorte por me ter agora do lado dele, porque sabe a quantidade de bolas que eu costumava recuperar.
- Tranquilo é realmente a palavra que melhor o define...
- Sim, ele é mesmo calmo. É uma ótima pessoa e dá-nos muita qualidade.
- Amdouni teve muito azar com a lesão.
- Sim, mas se Deus quiser, ele está quase de volta.