Chama a cavalaria
Como o governo dos Estados Unidos não tinha capacidade de fazer chegar a lei aos mais recônditos pontos do Velho Oeste, nasceu a expressão call in the cavalry (chama a cavalaria), porque só os soldados a cavalo conseguiam resolver problemas em tempo hábil.
Daí, o chama a cavalaria migrou para os filmes de Hollywood, do clássico Heróis de Cordura, com Gary Cooper e Rita Hayworth, de 1959, ao mais recente O Senhor dos Anéis: o Regresso do Rei, com Elijah Wood, Ian McKellen e Liv Tyler, de 2003.
Passou por livros de banda desenhada, como os do herói Lucky Luke, por jogos de computador, como Dead Island 2, ou por músicas, como a da banda californiana The Shys.
E chegou agora ao futebol brasileiro.
O Flamengo, às tantas, sentiu-se no Cariocão de 2026 como uma diligência rodeada por cherokees, e chamou a cavalaria. Até à terceira jornada, o atual campeão sul-americano, brasileiro e carioca, por jogar com os miúdos sub-20 no desacreditado campeonato estadual, somava um mísero ponto e amargava a 12.ª e última posição na tabela.
Com isso, além de se expor à vergonha de descer de divisão, ainda arriscava a encrenca de disputar o quadrangular final contra a descida, que obrigaria a mais seis jogos no já de si apertado calendário do clube.
A direção do Fla — consta que contra a vontade do treinador Filipe Luís e do diretor desportivo José Boto — decidiu então chamar a cavalaria para evitar uma goleada aos pés do adversário seguinte, nada menos que o Vasco da Gama, o maior rival. Convocou, pela primeira vez no ano, o plantel principal, ainda a ganhar fôlego na meia dúzia de treinos de pré-época realizados, e venceu por 1-0, golo do consagrado colombiano Carrascal.
Não foi só o mengão. Hoje, sábado, o Palmeiras, o outro clube brasileiro candidato a ganhar tudo em que participa, vai defrontar o vizinho São Paulo com a cavalaria toda.
Porque, para manter a metáfora, em Novo Horizonte, cidade perdida no velho noroeste do estado de São Paulo, a diligência palmeirense, sob a condução de Abel Ferreira, foi atacada por setas disparadas por todos os lados pelos apaches do Novorizontino e saiu vergada a um 4-0 na casa do clube da Série B.
Com o tricolor, Abel entendeu que a infantaria, leia-se o grupo de talentosos sub-20 do verdão, não bastaria. Veremos se a cavalaria alviverde basta.
Nos estaduais no Brasil reina a desigualdade — mas neste caso quem sofre são os mais ricos. Flamengo ou Palmeiras, por chegarem às finais com mais frequência atrasam a preparação para os estaduais, para os quais os clubes pequenos já trabalham há meses.
A diferença é tão grande que às vezes nem as cavalarias chegam. É preciso chamar a artilharia pesada.