Ruben Amorim saiu do Manchester United em conflito com Jason Wilcox, diretor de futebol - Foto: Imago
Ruben Amorim saiu do Manchester United em conflito com Jason Wilcox, diretor de futebol - Foto: Imago

Os treinadores e os fantasmas

'JAM sessions' é o espaço de opinião semanal de João Almeida Moreira, correspondente de A BOLA no Brasil

No mercado de verão no Brasil, mais conhecido como janela de inverno na Europa, o atacante Gabigol está a caminho do Santos, Marlon Freitas trocou o Botafogo pelo Palmeiras e Arana foi contratado pelo Fluminense ao Atlético Mineiro.

Além disso, os treinadores Martín Anselmi e Luís Castro foram contratados para os bancos de Botafogo e Grêmio, respetivamente.

Porém, as grandes novidades do mercado não são essas.

São a chegada de Bruno Spindel, ex-dirigente do Flamengo, à direção do futebol do Cruzeiro para substituir Paulo Pelaipe, depois de ter sido dado como certo no Corinthians.

E a contratação de Marcelo Paz, ex-CEO do Fortaleza, pelo timão. «Agradeço ao presidente esta oportunidade, tenho a certeza de que com a força do elenco, da equipa técnica e da fiel torcida entregaremos trabalho de excelência», disse o reforço.

Do clube paulista saiu, entretanto, Fabinho Soldado, novo diretor de futebol do Internacional.

Ou seja, se o futebol brasileiro é tantas vezes acusado, inclusivamente nesta coluna, de teimar em não se adequar aos bons padrões europeus, neste ponto parece estar na vanguarda, pelo menos, face à Premier League, a julgar pelos recentes despedimentos de Ruben Amorim, no Manchester United, e de Enzo Maresca, no Chelsea.

No Brasil, o cargo de diretor desportivo, diretor de futebol, diretor executivo ou gerente de futebol, conforme se queira chamar, é visto até como mais estratégico (e quase tão mediático) do que o de treinador, na definição da política do clube.

E as funções são bem definidas para que nenhum treinador sinta que «perdeu apoio nas piores 48 horas no clube», como se queixou Maresca, ou tenha de lembrar que foi contratado «para manager e não para coach», como desabafou Amorim.

No livro The Numbers Game, de 2013, os autores Chris Anderson e David Sally já prognosticavam «o fim do treinador absolutista» e, não por acaso, davam como exemplo o último ícone do modelo, Sir Alex Ferguson, a quem ninguém, nem Amorim, consegue suceder com êxito.

«Quando Sir Alex Ferguson se reformar, todos os grandes clubes terão um diretor executivo (...) dentro de dez anos eles terão um parceiro no mesmo patamar», escreveu a dupla de estatísticos.

No mesmo patamar não há problema, convém é que seja mesmo parceiro, dirão Amorim e Maresca.

Até porque, ao contrário do que se passa no Brasil, onde todos aqueles dirigentes, a meias com os treinadores, enfrentam a imprensa nas horas más, Jason Wilcox, do Manchester United, e Paul Winstanley e Laurence Stewart, do Chelsea, operam na sombra como fantasmas.