Ronaldo aproveita o poder que conquistou
Há uma frase que é atribuída a Jorge Valdano com a qual a figura de Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro peca por defeito. Disse o campeão do mundo em 1986, autor de vários livros de futebol e cronista de primeira água que os futebolistas tornaram-se «multinacionais com pernas» a propósito dos rendimentos que passaram a receber e as marcas que os próprios construíram.
O tema vem-me à cabeça nas vésperas de o maior futebolista português de todos os tempos celebrar 41 anos (é já nesta quinta-feira) e motivado por duas notícias relacionadas com CR7: a primeira, de menor impacto, envolvendo uma parceria comercial entre a Federação Portuguesa de Futebol e uma das suas empresas; a outra, que mereceu grande destaque na imprensa internacional, sobre o boicote do capitão da Seleção Nacional aos jogos do Al Nassr por considerar que o PIF (Fundo de Investimento Público, sigla em inglês), que detém os quatro maiores clubes da Arábia Saudita (Al Nassr, Al Ittihad, Al Ahli e Al Hilal), está a privilegiar o Al Hilal (ex-clube de Jorge Jesus) em detrimento dos outros ao nível de injeção de capital para contratações.
As duas situações confirmam um estatuto que Ronaldo forjou e que lhe foi permitido. Ao levá-lo para a Arábia Saudita para mudar a imagem do que muitos jocosamente apelidavam de 'camels league', os políticos daquele país atribuíram-lhe uma importância que vai muito para lá do Cristiano futebolista, como se prova pela sua presença na Casa Branca, integrando a comitiva (de forma oficial ou não isso pouco importa) do herdeiro real Mohammed bin Salman no encontro com Donald Trump.
Esperar agora que o jogador não reivindicasse para si esse poder nos bastidores seria desconhecer a matéria de que ele é feito. Se Ronaldo vencerá ou não a batalha, isso são outros quinhentos, porque do outro lado está gente com ainda mais dinheiro que ele.
Já na questão do acordo entre a FPF e a empresa AVA by CR7, especializada em soluções de recuperação e performance, mais do que o enquadramento em causa (a contrapartida será apenas ao nível de publicidade), importa perceber a dimensão das duas instituições: de acordo com um estudo publicado em agosto de 2025 pelo Instituto Português de Administração de Marketing (IPAM), a marca CR7 vale €850 milhões e tem receitas fixas anuais de €350 milhões (ordenado e patrocínios), além do seu universo empresarial. Ganha, portanto, cerca de 155 vezes mais que as receitas operacionais da FPF (dados de 2023). São números assombrosos que ajudam a colocar as coisas em perspetiva.