Apontamentos sobre a derrota do FC Porto com o Casa Pia
Houve mérito inegável da organização defensiva do Casa Pia de Álvaro Pacheco. Mas também houve demérito por parte do FC Porto.
O que terá faltado aos comandados de Farioli para evitar a primeira derrota no campeonato?
Froholdt a 100% — O dinamarquês é o motor da equipa. Influente na manobra colectiva portista, Froholdt é um dos primeiros defesas azuis e brancos (forte na reacção à perda de bola e na transição defensiva) e o médio com maior raio de acção ofensiva da equipa. Frente ao Casa Pia, o meio-campo Varela-Veiga-Rosário foi demasiado curto no momento ofensivo e a equipa ressentiu-se disso;
Kiwior ao lado de Bednarek — O defesa central mais competente da Liga não foi opção. Só Farioli saberá o porquê, mas Kiwior não é apenas um excelente defesa. É igualmente exímio na saída de bola portista, com qualidade de passe acima da média e inteligência de jogo para encontrar soluções e descobrir linhas de passe onde elas parecem não existir. A fase de construção portista não foi fluida, especialmente sobre o lado esquerdo, pois Bednarek não é um defesa central construtor, o que retirou Gabri Veiga do jogo (um dos principais beneficiados da capacidade de passe de Kiwior);
Rosário como médio defensivo — Chegou para ser a sombra de Varela, trabalhou e ganhou espaço no onze inicial, assumindo a posição 6 e relegando o argentino para o banco de suplentes. Não foi das unidades em maior sub-rendimento frente ao Casa Pia, mas não evidenciou a mesma clarividência como médio interior direito. É verdade que fez o golo dos dragões, mas teria sido mais útil à equipa a coordenar a manobra colectiva a partir da zona 6;
Risco por parte de Farioli — Tem sido recorrente e até à data surtiu efeito, mas as substituições troca por troca por parte do treinador italiano, independentemente do contexto do jogo, acabaram por limitar a equipa. Há muito que o Plano A de Farioli é conhecido, sendo normal que, com o passar do tempo, os adversários comecem a ser cada vez mais eficazes na procura de um antídoto para a Fórmula Farioli;
Criatividade, ou seja, Mora — Umbilicalmente associada ao ponto anterior, a aversão ao risco por parte de Farioli castra a criatividade colectiva da equipa. Num jogo em que foram raras as jogadas de associação e combinação em meio-campo ofensivo, Mora nem sequer saiu do banco de suplentes. O maior criativo do plantel, o jogador mais imprevisível e com maior capacidade para criar desequilíbrios foi preterido para que o plano habitual pudesse ser seguido à risca. Incompreensível...
O pilar fisicalidade — Quiçá fruto do desgaste físico provocado pelo jogo da passada 5ª feira frente ao Rangers para a Liga Europa, o FC Porto não apresentou os habituais índices de fisicalidade frente à equipa de Álvaro Pacheco. Incapaz de imprimir um ritmo alto com bola, pouco eficaz na reacção à perda e na disputa de duelos, a equipa portista esteve longe de ser a máquina sufocante em termos de pressão e vertiginosa no que diz respeito à transição ofensiva;
Extremos em jogo — Se há posições onde o downgrade de qualidade exibicional é evidente neste FC Porto, essas posições são as de extremo esquerdo e extremo direito. Borja Sainz apresenta cada vez menos rendimento (sem bola a pressionar, com bola a atacar zonas de finalização), estando a atravessar uma fase menos boa na relação com a bola. Pepê também perdeu influência na manobra ofensiva da equipa, acumulando más decisões e piores execuções. Foram dois dos elementos menos inspirados na noite que marcou a primeira derrota azul e branca na actual edição do campeonato;
Nota de relevo: A derrota frente ao Casa Pia não belisca o trabalho desenvolvido por Farioli até ao momento. A liderança incontestável do campeonato, o registo defensivo e a forma como se conseguiu impor aos adversários, em especial no primeiro terço da prova, resultam da qualidade do trabalho de campo e da sintonia existente entre Direcção e Equipa Técnica. No entanto, a qualidade exibicional portista tem vindo a diminuir ao longo das últimas semanas. Seja por desgaste físico de algumas das suas principais unidades (Froholdt à cabeça), seja pela incompreensível aversão a um dupla de médios Veiga-Mora, seja porque os adversários estudam cada vez mais este FC Porto, a verdade é que Farioli deveria ter sido alertado para a necessidade de rever ideias e conceitos, no sentido de, eventualmente, preparar um Plano B. Veremos como reagem os dragões a este desfecho negativo e de que forma irão receber e defrontar o principal concorrente direto na luta pelo título, o Sporting.