Tão grande como os maiores da Europa
Há muitos anos, numa terra distante localizada na base de uma enorme cordilheira, o rei ordenou que se formassem duas equipas com os homens mais valentes de entre a população. O objetivo era que pelo menos uma das equipas conseguisse chegar ao topo da montanha mais alta para que, finalmente, se descobrisse o que estava do outro lado. E tal como ordenado pelo rei, assim os homens fizeram. As equipas partiram no mesmo dia, com o mesmo número de homens e iguais recursos e mantimentos.
A primeira equipa avançou sem grande alarde. Caminhou com método e eficácia, tropeçou algumas vezes, mas livrou-se da maioria das emboscadas e tempestades. A viagem da segunda equipa, contudo, foi tão cheia de percalços que chegou a parecer que poderia ficar pelo caminho. Mas quando tudo parecia perdido, graças a uma ponte construída pela primeira equipa durante o seu percurso, conseguiu, também ela, chegar ao topo da montanha.
Acontece que quando as duas equipas regressaram à cidade algo de curioso aconteceu: o feito da primeira equipa, muito mais meritório, foi praticamente esquecido em detrimento do feito da segunda. Parecia que, afinal, a verdadeira conquista não era ser consistente e chegar ao topo de forma directa, mas antes no limite e depois de inúmeros sobressaltos e provas de sorte. Os escribas da cidade, que apenas dedicaram meia dúzia de parágrafos ao feito da primeira equipa, escreveram verdadeiras odes à segunda. De repente, a conquista da segunda equipa eclipsava tudo o resto e, segundo diziam os que se entretinham a comentar estas coisas, nunca se vira uma tão grande proeza e um tão heróico feito.
Os homens que compunham a primeira equipa, vendo o seu feito desvalorizado, acabaram por encolher os ombros. Conheciam o seu valor e a grandeza do que tinham feito e depressa perceberam que isso era quanto bastava. Assim, regressaram à sua vida e começaram a preparar uma nova viagem, mais curta, mas igualmente importante. Já na segunda equipa as coisas não foram tão lineares. Debaixo do som dos aplausos, inebriados pela sensação de invencibilidade, os homens acabaram por descurar a viagem seguinte. E enquanto a primeira equipa, pouco inspirada, mas com muita atitude, voltou a chegar ao destino, a segunda ficou presa num atoleiro.
E sabem o que aconteceu na cidade quando souberam o que tinha acontecido na segunda viagem? Os escribas foram obrigados a mudar a narrativa e, um deles, inclusivamente, escreveu um texto a que chamou «nem todo o ruído é grandeza». Vitória, Vitória, acabou-se a história!
E sim, eu sei bem que esta crónica vai render uns quantos comentários com todas as variantes possíveis do termo Calimero, mas, muito honestamente, nem sequer me importa. Sabem, há uns dias conversava com um amigo sobre esta sensação de ver a passagem direta do Sporting aos oitavos de final da Liga dos Campeões relegada para segundo plano, muito atrás da chegada do Benfica ao play-off em vigésimo quarto lugar. E ele ralhava comigo e dizia que eu não devia sequer preocupar-me com isso. Aliás, armou-se até em psicólogo e diagnosticou-me um síndrome de Maribor (sportinguistas entenderão). Mas sabem que mais? Eu acho mesmo que me devo preocupar com isto. Aliás, tenho a certeza que devo. Porque, não me interessa se é coisa de Calimero, se é síndrome de Maribor ou outro trauma qualquer, sinto verdadeiramente que o Sporting não tem, por parte da comunicação social (e até de outros clubes, mas já lá vamos), o respeito institucional que merece.
Reparem, eu sei que a conjugação de factores que permitiram que o Benfica pudesse agora disputar os play-offs foi quase um alinhamento astral. E percebo a loucura dos adeptos benfiquistas, que chegaram a ver tudo perdido, quando o herói mais improvável apareceu no último minuto. Aliás, o meu marido gritou tanto que pensei mesmo que lhe fosse dar uma coisinha ruim. Mas seria de esperar que a comunicação social fosse um bocadinho mais isenta. E não foi.
Fiquei com a televisão ligada após o final dos jogos e fui fazendo zapping pelos canais desportivos. Num dos canais o feito do Sporting foi referido quase como que por obrigação e, noutro, foi analisado em quinze minutos (menos de um terço do tempo dedicado ao Benfica). E sim, antes que perguntem, eu voltei atrás para poder contar com o cronómetro do telemóvel.
Mas, como referi há alguns parágrafos, não foi só da comunicação social que veio o desrespeito e a desvalorização. Também o director-geral do Benfica, Mário Branco, veio dizer, com uma bazófia que lembra o sapo da fábula, que o clube quer estar nos oitavos de final com o Manchester City ou com o Sporting de Lisboa.
E não, não o disse de forma inocente e nem para que o jornalista espanhol o compreendesse. Disse-o porque o quis dizer. Mário Branco não anda nisto do futebol há três dias e sabe tão bem como qualquer um de nós que o Sporting é de Portugal.
Mas tal como escrevi na história com que comecei esta crónica e que, na verdade, é uma mistura de uma história tradicional chinesa com uma fábula famosa, o tempo acaba sempre por colocar tudo no seu devido lugar. E esta semana isso aconteceu especialmente depressa com o Sporting a conquistar três pontos em casa e o Benfica a escorregar frente ao Tondela. E, por favor, não façam o mesmo que José Mourinho e poupem-nos à conversa do tempo porque, e quem viu o jogo sabe, o relógio de Luís Godinho é o menos culpado deste empate. O Benfica empatou porque falhou quando não podia falhar — sendo que também convém referir que teve pela frente um super Bernardo —, e são esses falhanços que deviam frustrar Mourinho. Não Luís Godinho e a meia dúzia de segundos que o treinador encarnado achou que ficaram por compensar.
Não sei o que vai acontecer com o Sporting de ora em diante na Liga dos Campeões. Mas sei que tenho sentido um orgulho imenso nesta equipa de Rui Borges e que ver-nos ali nos lugares cimeiros da tabela me emociona sempre. Demorámos exactamente cento e vinte anos a cumprir o sonho de José Alvalade, mas agora, finalmente, podemos dizer sem medos que somos «tão grandes como os maiores da Europa».
Não sei o que aí vem. Mas sei que deixei de temer. Finalmente cumprimos o desígnio da nossa fundação. Olharemos quem vier olhos nos olhos. Sejam Manchester City, Real Madrid, Sport Lisboa e Benfica ou qualquer outro. Há trinta e nove anos que esperava por isto.