O Benfica tem deixado aumentar a distância para os rivais e agora prepara-se para acentuar, no mercado, a ideia de ser uma equipa de transição - Foto: IMAGO
O Benfica tem deixado aumentar a distância para os rivais e agora prepara-se para acentuar, no mercado, a ideia de ser uma equipa de transição - Foto: IMAGO

Que Benfica haverá depois de Mourinho?

O que se passa na Luz era previsível, mas não aceitável. O naufrágio tinha sido anunciado. Agora, tenta-se jogar à bola no convés, ignorando que um porto seguro está cada vez mais longe

Previsível, ainda assim inconcebível, o que se passa no Benfica. E é um Benfica ainda mais esvaziado de esperança, sem alma, desprovido de todo o inconformismo que ainda embalou as últimas eleições até se diluir por fim em duas voltas de recorde e se misturar com o betão do estádio. O clube afunda-se e parece estar tudo bem. Se ouvirmos com atenção, o som do violino mistura-se com o das ondas desde o salão. Há quem dance. Os que embarcaram na continuidade e se tornaram cúmplices não tardarão a acorrentar-se ao mastro principal, com medo de serem cuspidos como barris de rum borda fora e o «Homem ao mar!» não venha acompanhado por mãos que os traga de volta.

Está tudo bem, mesmo com a Liga a dez pontos, a Champions do ano que vem a cinco e, sobretudo, a tendência de que as distâncias aumentem, não diminuam, apertem e devolvam a fé, à falta de algo mais palpável, a Rui Costa, José Mourinho e companhia. Se «resignação» é a palavra que melhor resume o que se passa no burgo encarnado, os grande rivais podem tranquilamente dividir o grande prémio e o mal menor, o 1.º e o 2.º lugar, fazendo depender do clássico de daqui a um mês e picos, no Dragão, o tira-teimas da segunda discussão mais importante do ano. A primeira é se foi ou não penálti. Ou pontapé de canto.

Claro que há muitas contas a fazer e até um passado recente de recuperações e perdas pontuais impensáveis, inclusive para Francesco Farioli, o técnico que menos tem falhado até aqui, porém, não tendo eu capacidades de adivinhação do futuro, parece de todo improvável que quem para já anda pior em tudo, a defender e a atacar, numa Liga em que se ataca mal e ainda pior se defende, vire em pouco meses duas lutas (e não apenas uma) a seu favor. É que mesmo que contratasse três ou quatro foras de série continuar-lhe-ia a faltar o essencial: em nenhum dos casos depende de si.

A crónica vitimização de José Mourinho arrancou desde cedo e a sua desculpabilização não demorou a vir do lado de uma oposição que nunca conseguiu resolver o último trunfo apresentado por Rui Costa para também ele se amarrar ao leme de um navio que há muito perdeu o rumo e entrou bem no coração da tempestade.

Talvez a lógica nos dissesse a todos que manter Bruno Lage, mesmo com o ruído que já havia à volta e depois de ter passado incólume ao verão — aí sim, o momento para mudar — carregasse menos anticorpos para o sucesso, já que trabalharia com os jogadores que tinha escolhido e para os quais tinha um plano, fosse este bom ou mau. Porque se a direção encarnada entendeu que lutar até ao fim por várias competições era motivo de esperança para a nova época, o que poderá estar a dizer daqui por algumas semanas, depois das decisões do acesso à fase a eliminar da Liga dos Campeões, Taça da Liga e Taça de Portugal, se não tiverem efeito positivo? Qual será o discurso? Como estará então a aura de Mourinho? Porque se depender apenas de si, é muito provável que, à falta de interesse de outros emblemas, o setubalense comece na Luz a próxima temporada, a correr os mesmos riscos de ser despedido que Roger Schmidt e Bruno Lage correram. E com menos moral.

Os sinais no mercado apontam para um Benfica a querer ser cada vez menos dominador, a viver no cinismo e na transição ofensiva, sem querer realmente tirar a bola aos seus rivais. Nesse sentido, o plantel vai igualmente emagrecer, não fossem já insuficientes, nas opções para o ataque posicional, um dos problemas transversais a todos os técnicos da era Rui Costa. Falo de Andreas Schjelderup, que desde cedo se percebeu não ser jogador para Mourinho, ainda que não necessariamente para os encarnados, que nunca foram firmes na aposta no jovem norueguês. Claro que cometeu erros e, por vezes, se esqueceu de defender, porém não é desta forma que se trabalha um jovem talento, sem lhe dar contexto para poder vingar. A decisão isola ainda mais Sudakov na tomada de decisão, pressiona Ríos para fazer o que não sabe, Barreiro a assumir aquilo em que é muito fraco e o bom Aursnes a expor debilidades que tantas vezes soube esconder.

Talvez seja cedo para pensar na próxima época, porém resta muito pouco a que os benfiquistas se possam agarrar. José Mourinho terá este e o próximo mercado para moldar a equipa à sua imagem e acrescentar-lhe aquilo que muitos ainda veem no técnico, apesar dos últimos anos menos bem-sucedidos: a cultura de vitória. Não o fará, neste último aspeto, sem acrescentar prata ao Museu. Talvez para isso lhe deem carta branca. Não um livro de cheques por estrear, mas deixá-lo tomar todas as decisões. E, imediatamente, lavar as mãos.

Se o Benfica daqui por um ano estiver mais à imagem de Mourinho também parece mais ou menos evidente que andará mais longe de ser controlador, dominador, ou seja, estará ainda mais longe de jogar como equipa grande. E isso também devia preocupar os encarnados. Mesmo que os troféus acabem por compensar a curto prazo, o que nem sequer é certo perante dois rivais que se vão mostrando mais consolidados, fortes e até racionalmente mais competentes e Mourinho também ele ande menos certeiro no toque de Midas, a equipa estará bem mais longe da identidade que o próprio Rui Costa admitiu como sua, quando avançou para Schmidt.

Esqueçam o jogar bonito. Não é disso que se trata. É o trabalhar para jogar bem, não é ornamentar jogadas, fazer passes e jogadas espetaculares. É, sim, possuir os comportamentos corretos coletivos e individuais para se estar sempre mais perto de vencer todas as partidas. Não fazer depender os ataques apenas das individualidades. Ou todos golos consequência de uma bola parada ou de momento de pressão alta. Porque há dias em que nada funciona e é preciso… jogar à bola.

Um Benfica em que Mourinho decida tudo levará a uma equipa cada vez mais à sua imagem, mas eventualmente apenas preparada para treinadores do mesmo perfil. Trabalhar para o presente apenas significará abdicar de uma ideia diferente para o futuro próximo. E a equipa ficará a anos-luz da que deveria ser. A precisar novamente de muitos milhões. Talvez de 25 novos jogadores.