Portuguesa faz história na NBA perante o casal Obama: «Se não fosse a minha mãe…»

Mery Andrade inscreveu o nome na história do All-Star, como treinadora adjunta e emocionou-se a conversar com A BOLA

«Estou toda arrepiada. Foi incrível. Eu tinha imaginado podia ia ser, mas isto superou qualquer expectativa.»

Instantes após fazer história ao inscrever o nome na lista All-Star da NBA, faltavam as palavras a Mery Andrade para expressar tudo o que lhe ia no coração ao sentar-se no banco da equipa Mundo como treinadora-adjunta, num novo formato do jogo que reúne os melhores dos melhores, da mais espetacular liga de basquetebol do planeta.

Dificilmente podia ter sido mais simbólico e especial e emocionante, reconheceu a antiga internacional portuguesa, na zona mista da casa dos LA Clippers.

«Quando se entra e vê All-Star em todo o lado, e as luzes, neste que é o melhor pavilhão nos EUA, o coração já acelera. Depois, quem é que está ali ao lado? A Michelle e o Barack Obama, que vieram ver o jogo… Mais à frente, o Michael Jordan e o Magic Johnson. Estava quase a chorar. Foi mesmo uma experiência espetacular», acrescentou.

Mas se ter o casal Obama e muitos dos melhores da história do jogo não foi suficiente para lhe fazer rolar lágrimas no rosto, a coisa mudou de figura quando A BOLA a questionou sobre como tinha sido partilhar à distância aquele momento com a mãe.

«Vim de uma ilha super-pequena onde nasci, em Cabo Verde, fui para Portugal, fiz a universidade nos EUA, joguei aqueles anos todos em Itália. Depois voltar para os EUA, começar tudo do zero… nada disto teria acontecido se não fossem os sacrifícios que a minha mãe e a minha família fizeram», introduziu, antes de se emocionar ao dedicar mais um feito histórico àqueles que lhe são mais queridos.

«Eu sei que muitas vezes os jogadores aparecem na televisão a dizer este tipo de coisas e pode parecer bonito. Mas a lagriminha está aqui. Eu nunca vou conseguir agradecer à minha mãe os esforços que ela e a minha família fizeram para eu conseguir estar aqui. E continuam a fazer. Os sacrifícios que eu fiz para jogar e como treinadora fizeram-me perder parte da minha vida. O crescimento dos meus sobrinhos, dos filhos dos meus primos... Mas quando vou para casa eles arranjam sempre maneira de me fazer viver todos os momentos que vou perdendo. E isto é para eles», declarou.

«Estou a fazer isto também pela próxima mulher, por um país...»
Na madrugada de segunda-feira, Mery Andrade tornou-se na primeira mulher de sempre a integrar uma equipa técnica de um jogo All-Star da NBA. No final, em declarações aos jornalistas presente, defendia que era um feito muito maior do que ela. «Quando estou em certos ambientes, não estou a fazer isto só por mim: estou a fazer pela próxima mulher, por um país… Vêm-me sempre aquelas borboletas à barriga. Mas eu gosto disso, porque quando jogava – e joguei por mais 20 anos – sempre senti isso em situações importantes. E nesta manhã, quando me sentia nervosa, isso mostrou-me que estava a viver um evento importante na minha vida», apontou. A treinar nos EUA desde 2019 e na NBA desde 2023, como adjunta de Darko Rajakovic nos Toronto Raptors, a antiga basquetebolista, que jogu vários anos na WNBA, comentou a evolução que tem tido ao longo deste trajeto. «A parte mais divertida da minha carreira tem sido o crescimento. Nunca na minha vida imaginei que pudesse estar aqui e a treinar jogadores deste calibre. Porque era algo que nunca tinha sido feito. Mas eu baixei a cabeça, trabalhei e tudo o que viesse era bem-vindo». Não foi pouco o que veio.