Haja, finalmente, uma lanterna que brilha diferente (crónica)
Diz Sérgio Godinho que «a sede de uma espera só se estanca na torrente». O Aves SAD encontrou, ao fim de 22 jogos, a Liberdade de cantar vitória e, com três golos sem resposta, matou essa sede que angustiava o conjunto nortenho.
Que o contexto que o país vive dê, pelo menos, para encher a fonte de esperança da formação orientada por João Henriques, que, com esta primeira vitória no campeonato, chega aos oito pontos, numa altura em que estão ainda 36 (12 jogos) em disputa.
Na primeira parte, o Estoril foi a equipa mais dominadora, criando várias oportunidades, mas sem o engenho suficiente para fazer o mais importante: o golo. Sim, foi estranho ver uma equipa que tinha marcado 15 nos últimos quatro jogos a ter tantas dificuldades para se encontrar com a baliza. A confirmação de que este não era o dia deu-se logo no início do encontro, quando a equipa da Linha desperdiçou um lance de 5 para 1. Num contra-ataque, após pontapé de canto para o Aves SAD, os canarinhos saíram rápido. Chegado à área contrária, Ricard Sánchez, pela esquerda, na cara de Adriel, rematou contra o guarda-redes, quando podia ter passado a um dos colegas, ao lado…
O Aves SAD, por seu turno, apesar de não ter tido tanta bola, foi ameaçando no contra-ataque e nas bolas paradas, tendo tido também criado, igualmente, por essas vias, boas oportunidades para se adiantar no marcador. Foi mesmo o último classificado, mas já na segunda parte, a abrir a contagem. Os avenses acenderam a luz, depois de muita insistência de Diego Duarte: o número 20 tentou um primeiro remate, mas a bola bateu em Bacher e Pedro Amaral; na carambola que se seguiu, o esférico sobrou para o paraguaio, que fez o 1-0 (54').
O primeiro tento galvanizou os da casa que levaram um remate à barra, dois minutos depois, por Pedro Lima. Perante um Estoril muito incapaz, Tomané, à passagem do minuto 75, dilatou a vantagem. O avançado apanhou uma bola à entrada da área e, de primeira, sem preparação, atirou-a para dentro da baliza, de pé esquerdo.
O apagão total dos forasteiros chegou já em tempo de compensação, pelo interruptor de Algobia. Com um passe magistral, Nenê isolou o espanhol nas costas da defensiva estorilista. O número 27, aparecendo pela direita, recebeu a bola dentro de área e não vacilou.
Fez-se história na Vila das Aves. Pela primeira vez, aquela lanterna vermelha brilhou de forma diferente. A formação do concelho Santo Tirso afastou também os holofotes da sua baliza e estreou-se a não sofrer.
Por outro lado, e retomando a metáfora inicial, o caudal (ofensivo) da equipa da Linha secou, depois de dois meses a escorrer com força. Desde a derrota por 4-0 em Famalicão (14 de dezembro), os canarinhos tinham marcado 21 golos em sete jogos. Voltam agora a ficar a zeros.
As notas dos jogadores do Aves SAD (4x2x3x1): Adriel (6); Mateus Pivô (6), Devenish (6), Paulo Vítor (6), Leonardo Rivas (5); Roni (6) e Gustavo Mendonça (5); Tunde Akinsola (6), Pedro Lima (6) e Diego Duarte (7); Tomané (7); Kiki Afonso (6), Algobia (6), Óscar Perea (5), Aderllan Santos (5) e Nenê (6)
As notas dos jogadores do Estoril (4x3x3): Joel Robles (5); Ricard Sánchez (4), Bacher (5), Ferro (5) e Pedro Amaral (5); Jandro (5); Holsgrove (5) e João Carvalho (5); Rafik Guitane (6), Begraoui (5) e Alejandro Marqués (5); Gonçalo Costa (5), Pizzi (5), Pedro Carvalho (5), Peixinho (5)
João Henriques, treinador do Aves SAD
«Sentimos um alívio, que é merecido. Os jogadores questionavam-se do próprio valor e eu dizia-lhes que o valor estava lá. E agora está á vista. A continuidade do bom trabalho que temos feito resultou nesta vitória. A equipa está cada vez mais sólida.»
Ian Cathro, treinador do Estoril
«Achei que ia ser um jogo muito dependente de um primeiro golo. Pode parecer demasiado simplista, mas, se nós fizéssemos esse primeiro golo, a história seria diferente. É uma frustração enorme, mas estes jogos representam onde estamos no nosso crescimento.»