Portugal a olhar para o Japão?…
Estive pela primeira vez no Japão há 41 anos. Era, também, a primeira visita a um país do extremo oriente. Da história, da luta pelo domínio marítimo, da resiliência perante as catástrofes naturais, temos todos, certamente, uma ideia mais ou menos clara. E também temos a perceção de uma organização ao limite, pensada estrategicamente para elevar a pessoa em detrimento da economia. O primado humano reflete-se no dia a dia, nas condições garantidas aos cidadãos, na dialéticas estabelecida entre pessoa e empresa. O Japão será sempre um case study, até porque a tal prioridade dada ao cidadão se reflete na gestão e na otimização e recursos que, invariavelmente, desembocam na competitividade empresarial e na formatação de uma das mais vivas e fortalecidas economias do planeta.
O Japão, esse país mítico, que organizou exemplarmente (em conjunto com a vizinha Coreia do Sul), a fase final do Mundial 2002. Foi a primeira do século XXI, a primeira da responsabilidade de dois países, e com uma amplitude verdadeiramente global. Um país cuja liga de futebol se tem mantido fiel a determinados princípios de ética, de saudável disputa enquadrada em regras rígidas de distâncias entre jogos, capacitação de agentes desportivos, motivação do público, cativação de novos alvos empresariais, e organização sem mácula.
Não é necessário chegar às velhas e inquebrantáveis ligações históricas e comerciais entre Portugal e o Japão para se compreender uma certa similitude na componente do futebol de alto rendimento. No cotejo asiático, os nipónicos têm sempre andado de braço dado com o sucesso, com recorrentes presenças em fases finais de Mundiais de futebol, tornando-se, quer do ponto de vista da qualidade individual dos jogadores, quer globalmente enquanto estrutura, como faróis continentais, sempre na dianteira de inovação, imaginação e projeção.
Portugal tem garantido, ao longo dos últimos largos anos, uma perspetiva larga em termos de seleção principal, com cometimentos que colocam a equipas das quinas no pelotão dianteiro, quer se fale da Europa, quer se estenda a avaliação ao globo. Mas, no que à liga profissional diz respeito, falta qualquer coisa. Falta a dinâmica da compreensão dos limites, a avaliação das reais possibilidades, a ação e a coragem para mudar o que deve (e o que tem de…) ser mudado.
Entre o deve e o haver, entre a análise e a decisão, há — todos sabemos disso — múltiplos entraves e interesses. E é tão importante, com clareza, reconhecê-lo quanto ultrapassá-lo para um bem comum, o verdadeiro sucesso do futebol português além-fronteiras.
Escrevo hoje sobre Portugal e o Japão porque a liga nipónica foi capaz de um turnover. Alterou o sistema competitivo. Dividiu o campeonato em duas séries de orientação geográfica, maximizando rivalidades regionais, aumentando a competição entre equipas rivais, melhorando as receitas, diminuindo as despesas, respeitando equilíbrios desportivos e financeiros.
Esse é, de facto, o método ideal, a consequência lógica da importância de um negócio que movimenta milhões em euros e muitos milhares em pessoas. E os japoneses foram ainda mais longe: estabeleceram que o empate não vale, penalizando quem para ele, tantas vezes, joga, provoca e dinamiza.
Os jogos que seguirem com igualdades ao cabo dos noventa minutos, são decididos por pontapés da marca de grande penalidade. Mas com penalizações evidentes: nesse caso, quem ganha obtém apenas dois pontos, quem perde consegue somar um ponto.
Assim se introduz um mecanismo simples e absolutamente lógico de decisão de cada jogo, com impacto e imprevisibilidade na elencagem das classificações.
Há muitos anos que os norte-americanos tinham descoberto que o empate, na metodologia e na lógica do desporto de alto rendimento, não deveria existir.
Premeia, tantas vezes, o jogo prático, o método facilitista, a vontade de não perder que se superioriza à de querer ganhar. Olhando para a alta competição, há que assumir que existem apenas dois resultados possíveis em cada confronto: vitória ou derrota, ainda que uma e outra possam ser balizadas pelos métodos e pela capacidade (ou falta dela) de atingir o objetivo final.
Portugal pode e deve seguir o exemplo japonês. Nunca à letra, claro. A divisão competitiva em fases geográficas talvez não se justifique, num pequeno país cujas maiores distâncias continentais a percorrer nunca serão superiores a 600 quilómetros. Mas a dinâmica de uma liga profissional a duas fases, considerando a diminuição para 16 dos clubes intervenientes e potenciando, em cada jogo, o critério vitória/derrota, seriam apreciáveis para os adeptos, e permitiriam construir um edifício competitivo mais coerente e compaginado com a dimensão e os objetivos de uma liga periférica e que, honestamente, jamais fará cócegas às cinco mais mediatizadas e representativas do futebol europeu.
Para que Portugal siga as pisadas japonesas é preciso, apenas, a conjugação de dois fatores: vontade e coragem.
Vontade de dar palco aos verdadeiros protagonistas do jogo, e coragem para assumir que, nas limitações territoriais e financeiras, pode ser gerada uma gigante oportunidade de evolução, competição e sucesso.