Hazard: «Agora sou mais um taxista do que um jogador de futebol»
Eden Hazard, lenda do Chelsea, revelou em entrevista ao The Guardian que a sua vida após o futebol é agora muito mais simples, confessando que se sente «mais um taxista do que um jogador de futebol». Retirado dos relvados há quase três anos, o belga vive em paz com a decisão de terminar a carreira aos 32, após uma passagem pelo Real Madrid marcada por lesões.
Longe dos holofotes do Bernabéu e de Stamford Bridge, o antigo avançado encontrou refúgio na tranquilidade da sua vida familiar em Madrid, uma cidade que escolheu não pelo futebol, mas «pela família, pelos filhos, pelo clima e pela comida». «A vida passa muito depressa, especialmente no futebol. Ontem tinha 19 anos, hoje tenho 35. É preciso aproveitar, não só no futebol, mas em tudo», reflete o antigo craque, que agora desfruta de uma rotina bem diferente. «A minha vida é simples: fico em casa e aproveito as coisas simples com a minha mulher, os meus filhos e os meus irmãos. Quando se joga, viaja-se constantemente, mas quando se para, finalmente temos tempo para eles sem o stresse.»
Com humor, descreve o seu novo quotidiano: «Nunca treinei às 10 da manhã! Eu só jogava ao sábado e era isso. Agora a minha vida é bastante simples. Sou pai de cinco filhos. Neste momento, sou mais um taxista do que um jogador de futebol, mas não há problema.» A distância permitiu-lhe também analisar as duas principais ligas onde brilhou. Para Hazard, a Premier League e a La Liga têm «estilos de jogo diferentes». «A Premier League é mais física, nunca se para de correr. A LaLiga é mais técnica. Em Madrid, pode-se gerir o jogo, mas na Premier League não há hipótese... tem de se ir a fundo durante 90 minutos», explica.
Ao recordar a sua passagem por Inglaterra, a conversa recai inevitavelmente sobre José Mourinho, seu treinador no Chelsea. Hazard partilhou uma história que ilustra bem a sua relação com o técnico português, marcada por um episódio de indisciplina. «Tenho muitas [histórias], não apenas uma», começa por dizer, entre risos. «Lembro-me que, no primeiro ano em que Mourinho chegou, fui a Lille ver um jogo e perdi o passaporte no regresso. Não me foi permitida a entrada em Inglaterra e faltei ao treino. Regressei por volta das 14h. Quando a sessão terminou, tive de lhe pedir desculpa. Foi um momento muito mau para mim».
Para muitos, esse teria sido o fim. Para Eden, foi apenas uma falha. Apesar do incidente, que o deixou fora da equipa no jogo seguinte, Hazard recuperou rapidamente o seu lugar. O respeito pelo treinador português permaneceu intacto. «Na semana seguinte, ele tirou-me da equipa e disse que a culpa era minha, mas quando chegou o fim de semana voltei a jogar e correu bem», contou. Questionado sobre o que aprendeu com ele, a resposta é clara: «Tantas coisas. A sua paixão pelo futebol, a forma como confia nos jogadores... a maneira como treinávamos com ele era inacreditável».
Outro ponto alto da sua carreira foi a seleção belga, especialmente o Mundial de 2018, onde a equipa alcançou o terceiro lugar com Roberto Martínez. «O Mundial de 2018 foi incrível. Tive a oportunidade de jogar com o meu irmão. Ser o capitão do meu país foi algo inacreditável», recorda com orgulho. Para Hazard, o resultado foi motivo de «felicidade total». «Sentimos que a Bélgica foi incrível durante aqueles anos. Mesmo não tendo ganho, as pessoas hoje dizem que éramos uma equipa melhor do que a França. Isso deixa-me orgulhoso: não por termos ganho, mas pelo que criámos juntos», afirmou.
Olhando para trás, elege o jogo dos quartos de final do Mundial de 2018 contra o Brasil como a sua melhor exibição. Já o seu golo favorito foi «talvez aquele contra o Tottenham», em 2016, que selou o empate a duas bolas e entregou o título da Premier League ao Leicester de Claudio Ranieri. No final, o antigo jogador espera ser recordado como «um bom jogador e um tipo divertido».
Ao recordar a sua carreira, Hazard coloca a Premier League, que venceu por duas vezes com o Chelsea, ao mesmo nível da Liga dos Campeões ou do Campeonato do Mundo. «Ganhar a Premier League é muito difícil. É especial porque muitas equipas a podem vencer», afirmou. Sobre a conquista da Liga dos Campeões com o Real Madrid em 2022, descreve-a como «uma sensação fantástica». E acrescenta: «Mesmo que não tenha jogado muito, só o facto de estar num clube que ganha tanto e de jogar com jogadores tão bons foi inacreditável».
Quando lhe pedem para nomear o jogador mais subvalorizado com quem jogou, a resposta é imediata: «Sempre achei que Mousa Dembélé foi um dos melhores médios daquela geração. As pessoas não falavam muito dele porque não marcava golos, mas os adeptos da Premier League sabem que ele era um jogador de topo». Para o futuro, Hazard não ambiciona ser recordado como uma lenda. «Apenas como um bom jogador e um tipo divertido e simpático. Não preciso de mais nada», confessou. O seu foco está agora na família e no seu novo projeto. «Vejo o meu futuro como um avô feliz, de cabelo branco, rodeado pelos meus filhos. É essa a vida que quero».