Costas largas de Mourinho no Benfica
Independentemente dos resultados de Sporting e FC Porto nos jogos de hoje, é justo reconhecer o trabalho que José Mourinho tem feito no Benfica e a resposta do plantel numa temporada marcada por várias contingências, problemas internos e alguns erros de avaliação. Ainda assim, a equipa das águias tem revelado alma e resistência, alternando entre a iminência do fracasso e o assombro do sucesso.
A matemática ainda permite ao Benfica sonhar com o título — ou pelo menos com o segundo lugar, essencial para garantir o acesso à Liga dos Campeões 2026/2027. Na Europa, a vitória histórica frente ao Real Madrid na fase de liga da UEFA Champions League reforçou a crença de que é possível, novamente, ultrapassar os merengues no play-off de acesso aos oitavos de final. Difícil, mas possível. Tudo isto reflete a humildade e entrega dos jogadores e a capacidade de Mourinho para liderar e unir o grupo, impedindo que alguém atire a toalha ao chão.
A época começou em esforço, com os encarnados praticamente sem férias após a participação desgastante no Mundial de Clubes, nos Estados Unidos. Seguiu-se o despedimento de Bruno Lage, a saída de jogadores importantes, reforços previstos que não chegaram (como João Félix) e, claro, a bomba Mourinho. O entusiasmo inicial deu rapidamente lugar à frustração do treinador, que encontrou um plantel curto para as suas ideias, com muita juventude e um número preocupante de lesões. Ao longo da época, ainda mais baixas apareceram, obrigando Mourinho a reajustar o plano e a tirar o melhor das características individuais dos jogadores. E conseguiu. Seguramente, o treinador encontrou um grupo disponível para aprender e crescer, como ele próprio tem sublinhado em várias ocasiões.
Ao longo da época, ainda mais baixas apareceram, obrigando Mourinho a reajustar o plano e a tirar o melhor das características individuais dos jogadores.
O mercado de janeiro, tão aguardado, acabou por não ser tão produtivo quanto o esperado. Mas, curiosamente, isso pode ter sido positivo: o Benfica atual é mais competitivo, coeso e confiante. Não é uma equipa brilhante, mas ganhou dimensão e caráter. Este Benfica de José Mourinho enfrentou tormentas, foi fortemente criticado — e por vezes, se calhar muitas vezes, com razão —, mas também soube reerguer-se e reconquistar os adeptos. Há um espírito que o técnico recordou na sua apresentação: «É esse o Benfica no qual me revejo, com o qual cresci. Ganha muitas vezes. Quando não ganha, perde de maneira a que as pessoas sintam que perderam com ele.»
Mesmo que o Benfica nem sempre apresente o futebol que os adeptos desejam, e os bons resultados por vezes não apareçam, parece indesmentível que esta equipa ganhou identidade e um balneário unido, onde todos parecem remar para o mesmo lado. Neste sentido, é justo reconhecer o mérito do treinador, que, com uma carreira ímpar e uma capacidade excecional de comunicar dentro e fora do clube, tem conseguido agregar opiniões — ou, pelo menos, manter o foco do universo encarnado no que realmente interessa ao Benfica. Mesmo admitindo algum clubismo inevitável, serão poucos os adeptos mais fervorosos que não concordem que a época do Benfica foi fortemente condicionada por fatores imprevisíveis e outros mais discutíveis — como os casos de arbitragem, que continuam a ter um lamentável e inevitável destaque no futebol português.
É justo reconhecer o mérito do treinador, que, com uma carreira ímpar e uma capacidade excecional de comunicar dentro e fora do clube, tem conseguido agregar opiniões.
José Mourinho continua a ter costas largas, em benefício dos jogadores e do edifício Benfica, de uma forma generalizada. É certo que comete erros — e continuará a cometê-los, naturalmente —, mas tem sabido reinventar-se e, talvez ainda mais importante, reinventar a equipa no meio de uma temporada que tinha todos os indícios para ser bem mais complicada. Mesmo afirmando que nunca deixará de ser o mesmo — Mourinho é Mourinho, sublinhou recentemente o próprio —, o treinador do Benfica tem demonstrado capacidade de adaptação, firmeza nas ideias e uma liderança que voltou a dar identidade ao grupo.
José Mourinho continua a ter costas largas, em benefício dos jogadores e do edifício Benfica, de uma forma generalizada.
Independentemente de o Benfica terminar o campeonato em primeiro, segundo ou terceiro lugar — e caso acabe mais abaixo, será justo reformular esta análise —, vejo um ponto de partida sólido para construir uma próxima época mais forte. A presença na UEFA Champions League, seja qual for a fase alcançada, reforça essa base e oferece uma perspetiva de crescimento sustentado.
A aposta na formação deve ser um caminho inevitável, essencial para reduzir a desvantagem face à qualidade que os principais rivais conquistaram nos últimos anos. Há um percurso a fazer para devolver o Benfica ao topo, e arrisco dizer: se o treinador não fosse José Mourinho, não apenas pelas suas competências táticas, mas pela dimensão e influência que tem, o momento seria bem diferente — e provavelmente pior.
Resta saber se José Mourinho continuará no Benfica na próxima temporada. Mas, mesmo que os objetivos não sejam totalmente alcançados, o seu impacto nesta época já é inegável.