Luis Suárez: o golo veio depois
A herança sempre foi pesada. Victor Gyokeres tinha levado Rúben Amorim a adaptar o seu modelo para potenciar o puro-sangue sueco e este correspondeu (não baixando ritmo com Rui Borges) com 97 golos e 26 assistências ao longo de 102 encontros, mais concretamente 1 ação decisiva a cada 68 minutos.
Luis Suárez chegou, da II divisão espanhola, com todo o peso que era ter de substituir o goleador pelo qual o Arsenal tinha sido paciente o suficiente para resgatar por 67 milhões. O próprio colombiano custara €22M e nunca tinha propriamente feito disparar os alertas de quem procurava números 9 do mesmo perfil: apenas três épocas acima dos dois dígitos, a de 2017/18, ao serviço do Valladolid B, na 2.ª B, a de 2019/20, pelo Saragoça, na 2.ª divisão, e a última, ainda no segundo escalão espanhol, em que marcou 31 golos e assinou 8 assistências. Houve, obviamente, risco na contratação, porém o colombiano começou a corresponder com um bis diante do Arouca, na 2.ª jornada, ficando em branco frente a Nacional e FC Porto, antes de pontuar em cinco partidas seguidas.
Hoje, em Alvalade, serão poucos os que ainda pensam em Gyokeres. A época cinzenta do nórdico nos gunners, depois da novela do daqui, de Ibiza, ninguém me tira, quando os colegas já trabalhavam e Frederico Varandas, com a gravata à volta do pescoço e em mangas de camisa, fazia braço de ferro com os londrinos, sabendo que mais tarde ou mais cedo teria de ceder, ajudaram a que a sua imagem ficasse algo beliscada.
É verdade também que o registo de Luis Suárez não é o mesmo. Demora mais 15 minutos do que o antecessor levou a somar ações decisivas. Só que isso, na realidade, já pouco ou nada importa.
O colombiano impôs-se primeiro naturalmente como jogador, antes mesmo de se tornar goleador. A dimensão física estava presente, porém mais fruto da agressividade competitiva e capacidade atlética do que pela força corporal e muscular. É um elemento de alta rotação, capaz de se associar com os companheiros acima do que Gyokeres conseguiu. Mais móvel, menos dependente da profundidade. E, com o crescimento do lado mental, cada vez mais decisivo.
Gyokeres foi exceção na Premier League. Os leões dificilmente conseguirão recuperar o investimento feito em Luis Suárez, que no início da próxima temporada estará a seis meses dos 29 anos. O que na verdade nem é um problema. Alvalade e o resto da Liga agradecem.