Falcao jogou duas épocas no FC Porto e conquistou sete títulos - A BOLA
Falcao jogou duas épocas no FC Porto e conquistou sete títulos - A BOLA

Ex-FC Porto revela: «Sonhava com a Bola de Ouro, mas sou da geração de Messi e Ronaldo»

Radamel Falcao concedeu uma extensa entrevista, publicada no dia em que celebra 40 anos

No dia em que celebra 40 anos, Radamel Falcao concedeu uma extensa entrevista ao jornal L'Équipe, na qual partilhou alguns detalhes sobre a carreira de sucesso que trilhou e que teve uma passagem de boas memórias e muitos títulos pelo FC Porto.

O goleador implacável que brilhou também no Atlético de Madrid e Mónaco, e teve passagens discretas no Manchester United e no Chelsea, vive os últimos momentos da carreira no Millonarios FC, em Bogotá, ele que nunca tinha jogado no país natal enquanto sénior.

«Vestir esta camisola era um sonho de criança», confessou o avançado, que celebra 40 anos nesta terça-feira. «Fui um estrangeiro quase toda a minha vida», lamentou o internacional colombiano, que conta com 104 internacionalizações e 36 golos.

O regresso às origens aconteceu após duas passagens mais discretas pelo Galatasaray (2019-2021) e pelo Rayo Vallecano (2021-2024). A aventura no Millonarios teve, no entanto, duas fases: em junho de 2025, El Tigre deixou o clube com um registo de 11 golos em 29 jogos, sem conquistar títulos, mas realizado com a experiência «romântica». Contudo, após ter sugerido em dezembro, durante o sorteio do Mundial em Washington, que procurava um último desafio, o avançado acabou por assinar novamente pelo Millonarios em janeiro.

Nascido em Santa Marta, na costa caribenha, Falcao recorda uma infância «desestabilizada» pelas constantes mudanças de casa, seguindo a carreira do pai, Radamel Enrique Garcia King, um defesa que jogou em clubes como o Santa Fe e o Deportivo Independiente Medellin. «Todos os anos havia um novo começo», lembra. «Não me podia apegar a nada nem a ninguém. Isso afetou-me. Mas também me permitiu desenvolver desde cedo uma grande capacidade de adaptação», reconhece.

Entre os 4 e os 9 anos, viveu no Venezuela, onde o futebol e o basebol foram refúgios para a solidão, não conseguindo «fazer verdadeiros amigos».

Desde muito cedo que o talento era evidente. Imagens de 1997, recuperadas pela televisão colombiana após o hat-trick contra o Chelsea na Supertaça Europeia, mostram um Falcao de 11 anos a confessar o sonho de «ser famoso» no estrangeiro. Na altura, já era visto como «a promessa da Colômbia» e o sucessor de Carlos Valderrama, com um dos seus treinadores, o argentino Silvano Espindola, a compará-lo a Diego Maradona.

«Eu destacava-me, por isso era inevitável», relativiza agora o jogador. «Isso não me pressionava. Pelo contrário, eu gostava». A prova disso foram os recordes de precocidade que bateu no Fair-Play Lanceros, uma equipa da segunda divisão: estreou-se como profissional aos 13 anos e 199 dias e marcou o primeiro golo aos 14 anos.

Mas antes de se tornar um dos avançados mais temidos do planeta, o percurso do colombiano foi pautado por dificuldades. Porque crescer no estrangeiro foi doloroso.

«Estava isolado, longe da minha família, sem amigos», recorda o jogador, acrescentando que «as lesões não ajudaram em nada». Uma pubalgia em 2002, um tornozelo partido em 2003 e uma rotura de ligamentos cruzados no joelho direito em 2006 quase ditaram o fim prematuro do sonho. «Nos primeiros três anos, antes de me conseguir impor, quase não joguei. Estava infeliz», lamenta, admitindo que chegou a ponderar um regresso à Colômbia.

O apoio familiar foi crucial. «Felizmente, os meus pais incentivaram-me a não desistir. Essas provações forjaram o meu caráter e ensinaram-me a disciplina, a luta, a resiliência», afirma. A sua educação foi profundamente influenciada pela mãe, economista que lhe ensinou a fé, e pelo pai, um «exemplo a seguir» em quem pensa «todos os dias» desde o seu falecimento em 2019.

«Ele ensinou-me a jogar cada partida com o coração e a alma. Outros talvez corressem mais depressa do que eu, mas eu sabia ler e sentir o jogo, por isso tinha muitas vezes um tempo de avanço sobre os defesas»

Esta mentalidade, aliada a um instinto predador, transformou-o numa lenda. Sem ser o mais rápido ou o mais robusto (1,77 m; 72 kg), El Tigre — alcunha que ganhou na Argentina — compensava com uma leitura de jogo superior e uma obsessão pela baliza. «É instinto, mas também muito trabalho. É por isso que eu era forte de cabeça», explica.

«No FC Porto tudo era fácil!»

A chegada à Europa, em 2009, para representar o FC Porto, marcou o início da sua afirmação global. No Dragão, a sua capacidade de finalização explodiu. «No River Plate, era preciso sofrer para marcar. Às vezes, estava demasiado esgotado para converter as minhas oportunidades. No FC Porto, foi diferente. Tudo era mais fácil. A equipa jogava para mim. Eu estava fresco em frente à baliza e marcava», compara o avançado.

O impacto do colombiano foi imediato e demolidor. Com os dragões, conquistou uma Liga Europa em 2011, estabelecendo um recorde de 17 golos numa só edição da prova. A veia goleadora continuou no Atlético de Madrid, onde voltou a vencer a Liga Europa (2012), uma Supertaça Europeia (2012) e uma Taça do Rei (2013).

Radamel Falcao conquistou duas Ligas, duas Taças de Portugal, duas Supertaças e uma Taça UEFA em duas épocas no FC Porto - A BOLA

O talento mereceu o reconhecimento de Pep Guardiola, então treinador do Barcelona, que o descreveu como «o melhor ponta de lança do mundo». O auge individual chegou em 2012, no At. Madrid, quando alcançou o quinto lugar na votação da Bola de Ouro, apenas atrás do quarteto composto por Lionel Messi, Cristiano Ronaldo, Andrés Iniesta e Xavi.

De resto, nunca ter conquistado a Bola de Ouro podia ter sido uma das desilusões de Falcao. Porém, ele tem noção das razões que o impediram.

«Sonhei em ganhar a Bola de Ouro, claro, mas pertenço à geração de Cristiano e Messi», recorda, acrescentando com um sorriso: «Nos meus dois anos em Espanha, marquei 24 e 28 golos na Liga. Sem eles, teria sido Pichichi».

«Acho que nunca estive tão forte como na minha segunda época no At. Madrid», acrescentou. Nesse período, o seu talento foi reconhecido com a inclusão no onze do ano da FIFA em 2012, uma equipa dominada por jogadores do Barcelona e do Real Madrid.

6. Falcao (€43 milhões) - Trocou o Atlético Madrid pelo Mónaco em 2013/2014 (IMAGO)

O colombiano destaca ainda o contexto da sua chegada ao clube espanhol. «Ficar atrás de jogadores como eles tem muito valor. Especialmente porque eu jogava no Atlético, que estava a reconstruir uma equipa após as saídas do Kun (Sergio Agüero) e de (Diego) Forlán. A época foi difícil até à chegada de Diego Simeone».

O Mónaco onde foi «guia» de Bernardo e Mbappé

No verão de 2013, no auge da sua carreira aos 27 anos, Falcao surpreendeu o mundo do futebol ao assinar pelo Mónaco por 60 milhões de euros, um valor recorde em França na altura. A escolha foi inesperada, dado o interesse de clubes como o Real Madrid e o facto de o Mónaco ter acabado de subir à Ligue 1.

«Fui seduzido pelo projeto ambicioso de Dmitri Rybolovlev, que queria fazer de mim o emblema do clube», justifica o jogador. «Gostei da ideia de poder levar esta equipa ao topo». A seu lado juntaram-se outros nomes sonantes como James Rodríguez, Ricardo Carvalho e João Moutinho.

No entanto, a primeira passagem pelo principado ficou marcada por uma lesão. A 22 de janeiro de 2014, sofreu uma rotura do ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo, lesão que o afastou do Mundial no Brasil. «Devastou-me tanto que senti a necessidade de viver uma experiência noutro lugar para recomeçar mentalmente», confessa.

Seguiu-se uma fase difícil, com dois empréstimos falhados a Manchester United e Chelsea, sob o comando de Louis van Gaal e José Mourinho, respetivamente. Em Inglaterra, os problemas físicos persistiram e o seu rendimento caiu a pique, somando apenas cinco golos em 41 jogos. «Não sei se foi um erro ir para Manchester, mas talvez não tenha sido o momento certo», analisa, recordando a fase de transição que o clube vivia após a saída de Alex Ferguson.

A carreira de Falcao, descrita como uma «sucessão de altos e baixos», teve um dos capítulos mais memoráveis no regresso ao Mónaco. Após a experiência negativa em Inglaterra, o colombiano voltou ao clube «com muita vontade» e liderou uma equipa recheada de jovens talentos, como Kylian Mbappé e Bernardo Silva.

Sob o comando de Leonardo Jardim, El Tigre voltou a rugir, marcando 21 golos em 29 jogos, e foi peça fundamental na conquista do título da Ligue 1 contra o PSG, numa época em que a equipa monegasca praticou um futebol que encantou a Europa.

Radamel Falcao recorda a passagem pelo Mónaco como uma das fases mais marcantes da carreira, onde viveu «o pior e o melhor». O avançado colombiano considera o título de campeão francês, conquistado com a equipa monegasca, como «talvez o maior» da sua carreira.

Nessa mesma época memorável, o Mónaco alcançou as meias-finais da Liga dos Campeões, eliminando o Manchester City nos oitavos de final após uma eliminatória épica (3-1 em casa, após derrota por 5-3 em Inglaterra). Falcao considera que «a derrota em Inglaterra foi um ponto de viragem» para a equipa. No jogo em Manchester, o colombiano marcou dois golos, incluindo um que descreve como estando no «top 3 dos meus golos mais bonitos», um chapéu genial executado dez minutos depois de ter falhado uma grande penalidade. O «único lamento» dessa campanha europeia foi a eliminação nas meias-finais frente à Juventus (0-2; 1-2), atribuída à «falta de experiência».

O antigo capitão do Mónaco descreve essa equipa como única. «Não creio que tenha jogado numa equipa com tanto talento e química como aquela. Foi fantástico do princípio ao fim. Um renascimento a nível pessoal. Senti-me importante, num papel de guia para os mais jovens», afirmou.

A sua influência foi tal que Kylian Mbappé, em 2021, o descreveu como «um professor». Após essa época de sucesso, várias estrelas, incluindo o francês, deixaram o clube. Falcao, no entanto, permaneceu por mais duas temporadas, ajudando o Mónaco a ser vice-campeão em 2018 e a garantir a permanna Ligue 1 em 2019, terminando no 17.º lugar.

Numa espécie de balanço de carreira, Falcao aponta ao melhor que deixa como legado para lá dos golos e dos títulos.

«Dei-me conta de que inspirei as pessoas com as minhas exibições, mas também porque encontrei a força para me reerguer a cada golpe duro. Fui um lutador toda a minha vida. É essa a minha maior honra.»

James Rodríguez, Guarín e Falcao festejam conquista da UEFA Europa League pelo FC Porto, em 2010/2011
James Rodríguez, Guarín e Falcao festejam conquista da UEFA Europa League pelo FC Porto, em 2010/2011