«Em Itália, ou és um fantoche ou eliminam-te»
Claudio Gentile, antigo selecionador de sub-21 da Itália, teceu duras críticas ao estado atual do futebol transalpino, abordando o fracasso da squadra azzurra na qualificação para o Mundial 2026 e revelando detalhes sobre a sua controversa saída da federação.
Em entrevista ao Fanpage, citada pela Gazzetta dello Sport, o treinador de 72 anos defendeu que a meritocracia deve ser o único critério de seleção. «Um treinador tem de ter a coragem de escolher quem realmente merece», afirmou, acrescentando que recebia constantes pressões para convocar determinados jogadores. «Recebia telefonemas contínuos a sugerir que chamasse este ou aquele, mas respondia que estavam todos sob observação e que escolheria apenas quem merecesse», revelou.
A propósito da terceira ausência consecutiva da Itália de um Campeonato do Mundo, o técnico acredita que existem jovens com potencial, mas que a sua evolução depende de um sistema justo. «Se um treinador for deixado livre para agir assim, sente-se totalmente apoiado», sublinhou.
Gentile apontou ainda o excesso de jogadores estrangeiros na Serie A como um dos principais problemas, citando o fator económico como uma das causas. «Os jogadores estrangeiros custam muitas vezes menos do que os italianos», explicou. «Que fique claro, não sou contra ter futebolistas de outros países, mas pelo menos que se fixe um número limite. Vivo em Como e a equipa da Serie A é composta quase inteiramente por estrangeiros. Isto preocupa-me e pergunto-me: onde vamos parar? Se chegam todos estes estrangeiros, como vamos criar as seleções do futuro?», questionou.
O antigo selecionador dos sub-21 recordou também a sua própria experiência, marcada por uma demissão «inexplicável» após conquistar um Euro, em 2004, e uma medalha de bronze olímpica com os sub-21: «É algo que nunca consegui explicar totalmente. Um dia disseram-me que eu seria o selecionador da equipa principal. No dia seguinte, ligaram-me para me dizer para ficar nos sub-21 e eu respondi: Está bem, não há problema. No terceiro dia, apagaram-me de tudo».
Sem querer nomear responsáveis, Gentile admite ter uma ideia de quem o afastou. «Houve alguém que interveio, dizendo que Gentile não devia continuar na Federação. Espero que, com o tempo, se descubra quem quis tudo isto», desabafou, sugerindo que a sua saída não trouxe quaisquer benefícios, a julgar pelos resultados subsequentes.
Questionado sobre a existência de um lobby no futebol italiano, o técnico foi direto: «Pode imaginar quantos telefonemas eu recebia... mas nunca aceitei imposições no meu trabalho. Talvez por isso tenha arranjado tantos inimigos, mesmo alcançando resultados». Gentile destacou o seu legado, mencionando que «seis ou sete rapazes» da sua equipa de sub-21 se sagraram campeões do mundo dois anos depois.
«Não quero dizer que o mérito é todo meu, mas pelo menos uma parte é», concluiu, confirmando ter sofrido o mesmo tipo de obstrução que Roberto Baggio viveu: «Se tens princípios sólidos, em situações como esta, só te resta ficar de fora. Ou tens de ser um fantoche e deixar que te controlem, ou eliminam-te, como me aconteceu», atirou.
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