Italianos nem querem acreditar em novo falhanço
Italianos nem querem acreditar em novo falhanço - Foto: IMAGO

De quatro títulos ao cataclismo: como se explica o apagão de Itália nos Mundiais?

Pela terceira vez consecutiva, os transalpinos vão assistir à maior prova de seleções do planeta... no sofá

O futebol italiano atravessa uma profunda crise. É difícil acreditar que um país que foi coroado por quatro vezes ao longo da história como campeão do Mundo pudesse encontrar-se nesta situação, mas não há volta a dar: a Itália não vai ao Mundial pela terceira vez consecutiva.

Se recuarmos no tempo duas décadas, até 2006, pouco depois de a seleção transalpina ter levantado o troféu na Alemanha, quantas pessoas diriam que essa final icónica frente à França, marcada pela cabeçada de Zidane a Materazzi, seria o último jogo a eliminar da squadra azzurra em provas da FIFA durante, pelo menos, 24 anos?

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O desaire chocante desta terça-feira à noite na Bósnia, que se junta às derrotas humilhantes com a Suécia e Macedónia do Norte, carrascos dos italianos em 2018 e 2022, respetivamente, é mais um sintoma da doença, que até se pode estender ao declínio da Serie A nos últimos 20 anos. Como se explica, então, este apagão de um dos países que vive o futebol com mais paixão no planeta?

Precisamente pela queda do Calcio, que não acompanhou a ascensão de ligas como a Premier League e a LaLiga desde o virar do século, é possível traçar o começo do abismo. Com a implementação do Fair-Play Financeiro da UEFA e devido ao grande poder financeiro de novos tubarões como PSG, Chelsea ou Manchester City, os gigantes Milan, Inter e Juventus, que eram temidos na Europa, perderam protagonismo.

PSG, Chelsea e Man. City já conquistaram a Champions League desde que se tornaram potências mundiais devido ao investimento estrangeiro

Esse declínio acabou por refletir-se, naturalmente, na seleção transalpina, que sempre foi conhecida por dar prioridade à solidez defensiva e vencer os jogos pela margem mínima — o Milan, que venceu a Serie A em 1993/94 com apenas 36 golos marcados em 34 jornadas, que o diga.

Essa primazia pela vertente defensiva, aliás, é também apontada por alguns especialistas como uma das razões para o fim do domínio transalpino. Faltou uma melhor adaptação ao jogo moderno, estando o Catenaccio, com origem nos anos 50 do século passado, ainda demasiado enraizado na cultura de futebol italiano.

Avançados de topo... desapareceram

Nesse sentido, a squadra azzurra sempre se orgulhou de poder contar com guarda-redes de primeira linha mundial nas suas fileiras, desde Buffon a Donnarumma — não é nesse setor que a Itália deixa a desejar. Também sempre teve defesas e médios de topo, embora essas zonas do terreno já não haja nomes como Maldini, Cannavaro, Bonucci, Chiellini, Pirlo ou até Verratti.

No entanto, a frente de ataque tem preocupado. De Paolo Rossi, Roberto Baggio, Francesco Totti, Del Piero, Inzaghi e Luca Toni, a seleção transalpina passou a depender de jogadores de menor qualidade. Immobile, Scamacca ou Belotti não são avançados de topo mundial, embora apresentem números interessantes em algumas épocas.

A atual dupla de avançados é formada por Mateo Retegui, argentino naturalizado italiano que se transferiu da Atalanta para o Al Qadsiah, da Arábia Saudita, e por Moise Kean, de altos e baixos na carreira até aqui, tendo passado já por vários clubes.

Em outubro do ano passado, em entrevista ao Globo Esporte, o jornalista Massimo Franchi contou que em grandes cidades italianas existem escolinhas e clubes de formação apoiados pela federação italiana em abundância, pelo que o problema não vem daí.

O repórter do Tuttosport demonstrou preocupação, porém, com a forma como os jovens são «tirados das praças» muito cedo, frisando que os professores desses clubes de formação normalmente são pais ou tios dos meninos, deixando a desejar em profissionalismo.

Menos italianos na Serie A

Na última década, apenas dois jogadores nascidos na Itália foram artilheiros da Serie A (Immobile por três vezes e o já reformado Quagliarella). Olhando para as dez primeiras temporadas deste século, este número sobe para sete goleadores italianos (Dario Hubner, Christian Vieri, Cristiano Lucarelli, Luca Toni, Totti, Del Piero e Di Natale). O excesso de estrangeiros nos clubes, considera o jornalista, também prejudica o desenvolvimento dos jogadores italianos.

Immobile foi o último grande goleador italiano, quando brilhava na Lazio

Se analisarmos a época atual (2025/26), constatamos que quase 70% (68,5%) dos futebolistas na primeira divisão são de nacionalidade estrangeira (366 de 534)! É um número assustadoramente alto, que contrasta com os dados das restantes big-5 (com exceção da Premier League), e ajuda a explicar a dependência dos clubes em atletas não italianos, o que acaba por ter um efeito na seleção. Em Espanha, por exemplo, apenas 43% dos jogadores têm nacionalidade não espanhola.

E os treinadores...

Outra pedra no sapato dos italianos tem sido a escolha dos selecionadores. Apesar de já ter contado com treinadores com vastos currículos, a squadra azzurra parece sempre claudicar nos momentos-chave.

Conte orientou os italianos no Euro 2016

Agora foi Gattuso, mas antes Spalletti falhou redondamente, Mancini conseguiu um Europeu, é verdade, mas desiludiu na qualificação para o Mundial, e Antonio Conte também não traduziu o sucesso nos clubes em resultados positivos na seleção.

Baggio bem tentou uma revolução

Em 2010, na sequência dos resultados desastrosos no Mundial na África do Sul (4º lugar num grupo com Paraguai, Eslováquia e Nova Zelândia), Roberto Baggio foi nomeado presidente do Setor Técnico da Federação italiana (FIGC). O antigo avançado começou imediatamente a trabalhar para identificar e resolver os problemas que assolavam o futebol italiano, o que resultou num relatório de 900 páginas que identificava e apresentava soluções para vários problemas, o qual foi apresentado no ano seguinte, em 2011.

Roberto Baggio ocupou cargo na Federação de Itália durante menos de três anos

O extenso documento, que levou meses a ser elaborado, foi, no entanto, completamente ignorado pela FIGC, que não tomou qualquer medida. Esta não resposta levou Baggio a demitir-se do cargo em janeiro de 2013, tendo afirmado: «Não me foi permitido desempenhar a função que me foi atribuída, não estou disposto a seguir em frente. O meu relatório de 900 páginas, apresentado em novembro de 2011, ficou por cumprir, e eu tiro as ilações.»

O então presidente da federação, Giancarlo Abete, não ficou impressionado com esta reação, sentindo que o antigo atacante «é uma pessoa de grande qualidade, como homem e como figura», mas que «não sentiu que este papel de gestão fosse para si».

«Não estou surpreendido com o seu anúncio. Ele tinha-me avisado. Devido aos seus compromissos internacionais e ao facto de não se sentir recompensado, nunca teve a oportunidade de dedicar muito tempo à sua atividade.» É impossível saber se o relatório de Baggio teria feito uma diferença significativa caso tivesse recebido a atenção que tanto merecia, mas é evidente, como ficou provado mais uma vez esta terça-feira, que o futebol italiano precisa de mudanças (profundas).

Feitas as contas, vários ingredientes contribuíram (e continuam a impactar) o declínio lento e doloroso da seleção transalpina. São já três Mundiais seguidos falhados e fica a questão: será 2030 o ano? Pelo menos, os italianos ainda festejaram a conquista do Euro 2020 (realizado em 2021 devido à pandemia da covid-19) no meio de tanta tragédia.