A festa do título do FC Porto, com André Villas-Boas e Francesco Farioli em destaque — Foto: IMAGO
A festa do título do FC Porto, com André Villas-Boas e Francesco Farioli em destaque — Foto: IMAGO

A saudade de ser campeão

A arbitragem foi um dos mais funestos protagonistas deste campeonato. Há muito tempo que não havia tantos erros grosseiros de árbitros e, sobretudo, videoárbitros. Os erros vão acontecer sempre. Mas os erros grosseiros são evitáveis e incompreensíveis. Senão, para que serve o VAR? 'A Minha Tribo' é o espaço de opinião de Jorge Nuno Oliveira, jornalista e adepto do FC Porto

Conta-se — talvez seja verdade, talvez seja lenda — que o treinador André Villas-Boas recheou as paredes do balneário do FC Porto com fotos do Benfica campeão 2009/10. Sempre que se vestiam ou despiam, sempre que cruzavam aquelas paredes, os jogadores tinham de ver a festa da equipa do Benfica a erguer a taça de campeão. A mensagem de André Villas-Boas para os jogadores do FC Porto era muito clara: é isto que vocês querem voltar a ver esta época? Ou querem ser campeões? 

André Villas-Boas inoculou nos músculos dos jogadores o vírus da vitória e do resgate. E foi isso mesmo que o jovem treinador chamou àquela época de 2010/11: a época do resgate. E como foi majestosa aquela época, coroada por um campeonato sem derrotas (o primeiro na história do FC Porto), uma Taça de Portugal e uma UEFA Europa League. O segundo triplete dos dragões, depois do de 2002/03. André Villas-Boas, que comandava uma equipa fabulosa, identificou com genialidade o ponto sensível do FC Porto: a exigência de superação, a rivalidade e o desafio.

Esta época, a história repetiu-se. Alimentámo-nos dessa rivalidade, do insulto perturbado e grosseiro, dos tropeções, das frustrações, dos desgostos sem fim, do ódio, do desprezo e da sublime natureza da nossa humilde condição de campeões.

Um nome imortal

Jorge Costa era uma figura imponente. Quando morreu, apagou-se uma luz. Com ele morreu uma energia vibrante, positiva, que tudo contagiava à sua volta. Jorge Costa não era apenas um ser humano, era sobretudo uma inspiração e um exemplo. Ele liderava como quem conduz e orienta. Faz muita falta a muita gente e ao FC Porto.

A morte do Jorge Costa deu-nos a força que se alimenta da vontade de retribuir o que não sabíamos que tínhamos recebido pelo exemplo e pela motivação. 

O Jorge Costa, dizem, era uma pessoa diferente. Sobre ele, quero dizer duas coisas. A primeira, é que tenho muita pena de não o ter conhecido pessoalmente, de não ter nunca trocado com ele uma palavra ou um cumprimento. Conheci-o, apenas, vestido com a camisola do brasão abençoado e com a indomável vontade de vencer.

A segunda é que, sendo eu ateu e agnóstico, tenho pena de não conseguir ver nele uma dimensão sobrenatural e etérea. Porque se eu acreditasse em vidas eternas, sei que o Jorge Costa estaria esfuziante a comemorar esta vitória que ajudou a construir. Ele merece muito. E nós, que somos portistas, merecemos muito ter sobre nós a memória e o olhar paterno do Jorge. Um nome imortal.

O meu Pai e o meu irmão

Hoje tenho de te falar do meu Pai e do meu irmão. O meu Pai ensinou-me a sentir o FC Porto. Nascemos na cidade e o Porto de há 70 anos era o bombo da festa do centralismo lisboeta. O meu portismo foi, por isso, forjado na agrura da derrota e da desconsideração, e também na esperança de um dia podermos brilhar mais do que os outros que nos ofuscavam.

O meu Pai, que assistiu a preto e branco às conquistas europeias do Benfica, continuava a praticar a sua religião de fé na ressurreição do FC Porto. Era inabalável. E contagiou-me e ao meu irmão.

Tantos jogos que vimos juntos, os três. Primeiro no Estádio das Antas, depois no Dragão. Senti sempre no meu Pai a emoção do jogo e da vitória, a vibração juvenil do adepto que salta no golo e grita com lágrimas nos olhos. Gostava da bandeira e do cachecol, cantava o hino com a solenidade de uma prece e era feliz naquele ambiente de gente unida pelo fervor clubístico.

Era feliz em silêncio, um silêncio majestoso mas profundo, como se naquele silêncio ele revivesse todos os momentos de felicidade que lhe roubaram e que ele redimiu… em silêncio. Tudo isto ele nos transmitiu, sem falar. Nem era preciso. Ser portista era uma espécie de batimento cardíaco. Fazia parte de nós. 

Com o meu irmão tenho muitas e muitas histórias de exaltação portista. E algumas são inesquecíveis. Vou contar uma, sei que ele não vai levar a mal.

Já te disse, noutra crónica, que sofro muito a ver o meu Porto. Um dia, ainda no Estádio das Antas, fomos os dois ver um jogo. Não me lembro qual, mas lembro-me que o meu irmão passou um mau bocado comigo. Ele diz que eu desmaiei, que gritei e chorei, sei lá que mais! Retenho dele uma frase memorável: 'Rentabiliza as tuas energias'. Respondi-lhe de uma forma que não posso reproduzir aqui. E continuei a fazer explodir as minhas emoções, como se todos os milhões de metros quadrados e cúbicos do planeta Terra se reduzissem àquele estádio e àquela equipa. Aquilo era tudo. 

O Porto ganhou, voltámos para Lisboa, chegámos a casa e a minha Mãe pergunta se correu tudo bem. 'Nunca mais vou ao futebol com ele!', exclamou o meu irmão, ainda aturdido por tudo o que se tinha passado. Estava furioso comigo, achava que aquilo ainda um dia ia acabar mal. Ir comigo ver o Porto, nunca mais! Claro que voltámos a ir juntos ao futebol, muitas e muitas vezes.

E hoje, quando celebramos mais um campeonato, um daqueles campeonatos por que tanto ansiámos, sinto uma alegria espontaneamente partilhada com o meu Pai e o meu irmão. Tenho saudades, sabes? Tenho saudades de te ver aqui a saborear a alegria de sermos maiores, tenho saudades daquele conforto, tão suave, de nos sentirmos campeões! Agora, somos. Esta é para ti, Pai, e para ti, meu irmão.

Arbitragem assassina

A arbitragem foi um dos mais funestos protagonistas deste campeonato.Há muito tempo que não havia tantos erros grosseiros de árbitros e, sobretudo, videoárbitros. Os erros vão acontecer sempre, é inevitável e compreensível. Mas os erros grosseiros são evitáveis e incompreensíveis. Senão, para que serve o VAR? É verdade que a videoarbitragem é uma ferramenta muito recente, que haverá sempre polémicas, que o protocolo é discutível e melhorável, que foras-de-jogo de 5 cm são desesperantes, que mais isto e mais aquilo. 

Mas o que não consigo entender e muito menos desculpar é o erro grosseiro, aquele erro que toda a gente vê menos o videoárbitro. No conforto de uma sala climatizada, a equipa de videoárbitros tem várias câmaras à disposição, vários ângulos de captação e um tempo que parece infinito para analisar um lance que até uma criança de 6 anos consegue interpretar corretamente. Mas não o videoárbitro. Porquê? Porquê estes erros grosseiros, estas distorções assassinas da verdade desportiva? Porquê?

Acredito — quero mesmo muito acreditar — que a única resposta é: incompetência.Ora, se há árbitros incompetentes a errar de forma grosseira em competições altamente profissionalizadas, onde um troféu, uma vitória ou uma derrota podem valer milhões, como se explica que os organismos que regulam a arbitragem nada façam para corrigir os erros e formar melhores árbitros? Porquê esta inércia corporativista, que coloca os árbitros num pedestal de infalibilidade, que desaparece quando são os próprios árbitros a invocarem a estafada frase «errar é humano». Pois é, errar é mesmo humano, mas repetir erros, apesar de a verdade estar gravada em vídeo, é criminoso.

O Capitão

Jorge Costa — Capitão é um livro muito bem escrito por Carlos Pereira Santos e Rui Cerqueira e muito útil para perceber quem era e como era o Jorge Costa. É um livro sobre histórias e episódios da carreira do Bicho e que envolvem todas as grandes figuras do mundo do futebol.

Vale muito a pena ler. Jorge Costa — Capitão

Carlos Pereira Santos e Rui Cerqueira.

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