Fixar número máximo de minutos é inevitável e urgente
Os adeptos precisam de voltar a ter saudades de ver um jogo de futebol. Hoje, o futebol nunca pára, não há off-season. A NFL, por exemplo, só tem jogos durante sete meses, entre cada temporada há cinco meses sem jogos.
O interesse dos adeptos de futebol está a esmorecer com o excesso de jogos, que resultam em saturação e desinteresse no longo prazo. Os Mundiais, Europeus e Mundiais de Clubes fazem com que a pré-temporada comece antes de acabar a temporada anterior. Há poucas dezenas de anos, em maio, começavam três longos meses em que não havia futebol para ver.
Três vezes por semana, A BOLA trazia algumas novidades. Nos anos de Campeonato do Mundo e da Europa, que eram disputados apenas por 16 e por oito equipas, Portugal não participava — e os jogos eram poucos. No Mundial, os portugueses apoiavam o Brasil.Os desportos que os portugueses seguiam nesses longos verões eram o ciclismo e o hóquei em patins. A Volta a Portugal vivia da rivalidade dos três grandes e dos ciclistas serem portugueses. Sabe quem foi o vencedor em 2025?
Na Volta a França, participava o Joaquim Agostinho, o melhor ciclista português de todos os tempos. Melhor ainda, era a cobertura do jornal A BOLA. Homero Serpa e Carlos Miranda, e alguns jornalistas excecionais, descreviam a evolução da corrida, mas também as cidades e as vilas por onde o Tour passava e contavam histórias sobre os protagonistas ou sobre pessoas anónimas com quem se cruzavam ao pequeno-almoço e ao jantar.
O hóquei em patins era ainda mais entusiasmante. Os jogos passavam na televisão, e quem disputava, e ganhava, os Mundiais e os Europeus era a Seleção Nacional. Não se conseguia ainda ver a bola, mas, pela reação dos jogadores, percebia-se quando tinha entrado na baliza.
O futebol foi inventado em Inglaterra, e era jogado pelos estudantes universitários — a elite rica da sociedade no século XIX. Era um desporto de inverno, porque no verão os jogadores queriam passar férias no sul de França. Ganhavam sempre às equipas formadas por operários, porque estes treinavam à noite, depois de fazerem turnos de trabalho pesado. Apenas quando foi permitido aos jogadores receberem um pagamento, os operários puderam deixar de trabalhar e competir de forma justa — e ganhar.
A igualdade de oportunidades e a meritocracia do futebol foi consequência do profissionalismo. E o descanso nasceu com o jogo. O excesso de jogos também é prejudicial para os jogadores — nunca se investiu tanto em departamentos médicos e de performance e as lesões graves não param de aumentar.
Quem tem mais dinheiro, mais hipótese tem de ganhar. E a procura de receitas fez aumentar o número de jogos em cada época. Até as pré-temporadas passaram a ser definidas em função das receitas que os jogos garantem — todas as equipas que o conseguem, logo na pré-temporada exageram o número de jogos e de viagens intercontinentais. O excesso de jogos está a matar a galinha dos ovos de ouro.
Como se vive na Gaiola Dourada?
O que distingue o jogador profissional de futebol de um escravo? Teoricamente, o facto de poder deixar de jogar quando quiser e ter alguns direitos laborais — muito menos do que a maioria dos trabalhadores. Pode não conseguir ter férias, não tem fins de semana com a família e o horário de trabalho é fixado semanalmente. Entre o Natal e o Ano Novo, não pode meter férias.
Trabalha até à exaustão e é muitas vezes sujeito a pressão psicológica no limite da coação. Ninguém se importa com isso, afinal o jogador é bem pago (os poucos que realmente o são). Mas também ninguém se importa com os pais que não estão com os filhos, os filhos que crescem sem o pai presente no aniversário, os avós que não veem o neto entre o Natal e o Ano Novo. O futebolista foi desumanizado, é apenas um ativo.
A sua formação, muitas vezes iniciada antes dos 14 anos, tem traços evidentes de trabalho infantil — agravado pela separação da família. Seria tolerado pela sociedade que crianças de 13 anos fossem viver para academias de fábricas de calçado ou têxtil? A 300 quilómetros de casa dos pais? Em que o dia fosse ir de manhã à escola e à tarde a aprender a fazer sapatos e camisas? E dormissem em camaratas?
Se dividirmos a Primeira Liga em velocidades, há cinco muito diferentes entre si
Os três maiores, o SC Braga, o Vitória de Guimarães, a classe média alta (Famalicão, Gil Vicente, Santa Clara e alguns outros) e os que lutam pela sobrevivência.Desde que em 1995/1996 a vitória passou a valer três pontos, a época 2025/2026 foi a primeira em que os três maiores fizeram, simultaneamente, 80 pontos ou mais — 88/82/80 (250 no total dos três).
Entre 1995/1996 e 2005/2006, a média dos três maiores foi de 211 pontos, o máximo entre os três foi de 229 e o mínimo de 188. Em 2006/2007, a Primeira Liga reduziu o número de participantes para 16 até ao regresso às 18 equipas em 2014/2015. Neste segundo ciclo (2014-2026), a média de pontos dos três maiores subiu para 241, o máximo foi de 250 pontos e o mínimo de 219.
Reveladora, também, é a análise entre o Vitória de Guimarães e o SC Braga. No primeiro ciclo, cada um ficou cinco vezes à frente do rival — numa das 11 épocas acabaram empatados com 42 pontos.No segundo ciclo de 12 épocas, por 11 vezes o SC Braga ficou à frente do Vitória. (2026/2017). O SC Braga fez uma média de 49 pontos no primeiro ciclo e de 64 no segundo. O Vitória passou de 47 para 50. O crescimento do SC Braga é impressionante (30%), o do Vitória pouco mais do que marginal (6%).
Consolidar o sexto lugar no ranking da UEFA, passa prioritariamente por reforçar a competitividade do Vitória de Guimarães e da nova classe média alta do futebol português, liderada pelo Famalicão.A chave de repartição da centralização, tem de prever um premio extra a quem aceda à disputa das competições da UEFA — só assim vamos conseguir manter o sexto lugar do ranking de forma duradoura.