Ricardo celebra o título com os adeptos no relvado do Estádio do Bessa - Foto: A BOLA
Ricardo celebra o título com os adeptos no relvado do Estádio do Bessa - Foto: A BOLA

Boavista: Há 25 anos nasceu o campeão que mudou as cores do poder

Em maio de 2001, a equipa de Jaime Pacheco desafiou os três grandes e conquistou um título histórico no futebol português. Um quarto de século depois, A BOLA revisita essa época, num Portugal onde ainda se pagava em escudos

Ano de 2001, 18 de maio, Estádio do Bessa. O Boavista vence o já despromovido Aves por 3-0 e, muito antes do apito final, a festa instala-se nas bancadas do Bessa: o título está ali! Fica fechado a uma jornada do fim e entra diretamente para a história, ao lado do Belenenses de 1946, como uma das raríssimas quebras na ordem instituída do futebol português.

José Soares, Jaime Pacheco. Alfredo Castro, Jaime Pacheco, Vítor Nóvoa (falecido) e António Natal, os rostos da equipa técnica campeã em 2000/2001

A surpresa correu o país e atravessou fronteiras. Num campeonato dominado por orçamentos incomparáveis, o Boavista fez o que parecia improvável. Chamaram-lhe milagre, mas quem lá esteve rejeita a palavra. Ouvidos por A BOLA, Petit e Silva — o goleador dessa época irrepetível — nunca tiveram dúvidas: «Era qualidade e personalidade». E isso, no futebol, explica quase tudo.

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Havia também liderança. De Jaime Pacheco, claro, mas não só. Esse Boavista era um viveiro de futuros treinadores e líderes: Pedro Emanuel, Elpídio Silva, Geraldo, Sánchez, Rui Bento, Petit, Jorge Couto ou Gouveia. Estes últimos cincos viriam a assumir funções técnicas também no Boavista.

Portugal vivia, então, num daqueles equilíbrios estranhos entre a sensação de estabilidade e os sinais de mudança. O Governo de António Guterres ia resistindo com uma maioria relativa, Jorge Sampaio começava novo mandato em Belém e o escudo continuava a circular, apesar de já se sentir a aproximação do euro. A Internet era mais promessa do que hábito do dia a dia. Redes sociais? Eram os cafés, nas conversas marcadas ou nas tertúlias que nasciam sem avisar. Havia a agitação em torno da Porto 2001 — Capital Europeia da Cultura —, mas o país avançava devagar, preso a velhas assimetrias.

Nada disso impediu que, naquele fim de tarde de maio, o futebol abrisse uma exceção.O Boavista de Jaime Pacheco não se coroou campeão por acidente. Fê-lo porque foi, ao longo da época, a melhor equipa: mais consistente, mais agressiva na disputa, mais preparada para os momentos de aperto, corria o dobro dos adversários e juntava um lote de jogadores que, pouco depois, acabaria naturalmente por despertar o apetite dos grandes. Num Bessa cheio, já com o anúncio das obras para o Euro 2004 em pano de fundo, nasceu o Boavistão: uma equipa que deixou de ser apenas outsider para assumir, sem complexos, a autoridade de campeão. Fechou o campeonato com 77 pontos, mais um do que o FC Porto, e fez da penúltima jornada o momento que ficou para a história.

A base era simples, mas executada com precisão. Defesa firme — a melhor do campeonato, com 35 golos sofridos —, meio-campo combativo e inteligente, e um ataque capaz de decidir jogos em segundos. Ricardo, Pedro Emanuel e Litos seguravam atrás; Rui Bento, Petit e Sanchez mandavam no ritmo e no ataque Martelinho, o pistoleiro Silva e Duda exploravam cada erro adversário. Nada sobrava, nada faltava.

A suportar isso havia uma segunda base de enorme qualidade: Jorge Silva, Erivan, Frechaut, Gouveia, Rogério, Pedro Santos, Whelliton e tantos outros que entravam a mantinham a máquina axadrezada oleada e com altas rotações.

Havia ainda os detalhes que fazem campeões. O Boavista passou a época sem assumir o título e sem perder com os três grandes — só cedeu na última jornada, contra o FC Porto, nas Antas (4-0), já sem impacto. Martelinho assumiu-se também como figura decisiva, com golos frente a Sporting e FC Porto que empurraram a equipa para o topo. E Pacheco, líder visceral, campeão europeu em 1987 pelos azuis e brancos, figura incontornável dos dragões, levou tudo consigo — até nas Antas, onde, mesmo na derrota, fez questão de ‘mostrar’ às bancadas o símbolo que carregava ao peito. Um pouco à imagem do FC Porto de Farioli («vai cair», «vai cair»), esse Boavista forjado por gente robusta e liderada no topo por João Loureiro, recusou cair. À conta disso, tornou-se imortal.

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