Primeira mulher a deter a maioria do capital de uma SAD em Portugal, Andreia Nunes L’Or espera, ainda assim, que o seu percurso possa inspirar outras raparigas a entrarem no futebol

«'Sabe o que é um fora de jogo?': Andreia Nunes L’Or e as reações após fazer história

Primeira mulher a deter a maioria do capital de uma SAD em Portugal, Andreia Nunes L’Or admite ter recebido comentários machistas, mas espera que o seu percurso possa inspirar outras raparigas a entrarem no futebol

Andreia Nunes L’Or tornou-se na primeira mulher a deter a maioria do capital de uma SAD em Portugal, ao assumir o controlo da SAD do Alcochetense. Um marco histórico no futebol nacional, que trouxe tanto elogios como críticas. Em entrevista a A BOLA, a investidora fala sobre o significado pessoal deste passo, admite ter sentido preconceito e comenta as diferenças entre as reações recebidas em Portugal e no estrangeiro.

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— A Andreia é a primeira mulher a ter a maioria do capital de uma SAD em Portugal. Como se sente ao deter este título?

Vejo como um desafio e como portas que são abertas. São barreiras que são ultrapassadas. Não vou mentir, não era o meu sonho de infância, mas é um desafio que agarrei, que eu vi e disse: ‘Por que não podemos semear aqui um bocadinho e fazer parte desta história?’ Até para as nossas crianças, o meu filho também joga cá, e é mais com esse espírito aberto, de poder abrir caminhos, mentalidades. Como se sabe, nem toda a gente recebeu bem esta notícia…

— Estranha só ter acontecido agora, em 2026?

Não estranho, porque entendo que as mulheres não se queiram envolver. Mas há sempre uma primeira mulher e, desta vez, calhou-me a mim. Estou satisfeita e espero que se possam inspirar e ter coragem de se desafiarem a elas próprias.

— O futebol historicamente sempre foi um setor muito dominado por homens. Acredita que seria benéfico existirem mais mulheres em cargos de decisão?

Acredito. Não penso que a capacidade de alguma pessoa esteja definida pelo género. Não é por seres homem que tens mais capacidade que eu, nem por eu ser mulher tenho mais capacidade que tu. Isto tem tudo a ver com o mindset de cada um, com os esforços de cada um. Mas ter mais mulheres também seria um equilíbrio. É bom estarmos a derrubar estas barreiras e fico muito feliz de poder fazer parte dessa história.

— Já se mentalizou que servirá de inspiração para muitas raparigas que estão a crescer e que querem entrar no mundo do futebol e do desporto?

- Já e fico muito satisfeita. Tenho sempre uma palavra para elas: os nossos desafios são do tamanho dos nossos sonhos. É para nunca desistirem daquilo que acreditam que são capazes.

— Sentiu algum preconceito ou resistência ao entrar neste mundo?

- Sem dúvida. Vão haver sempre pessoas que criticam, que têm este estigma de ‘será que ela sabe o que é um fora de jogo?’ Eu venho do futebol, também jogava, era trinco, levava muitos amarelos e sei exatamente o que é o futebol. O meu cargo neste momento nem está diretamente ligado a isso, eu estou como investidora. Obviamente, convém entender-se do que estou a investir, mas, quem quiser entender, entende, quem não quiser, também está tudo bem. Sabemos o nosso propósito e espero conseguir aprender também com este desafio.

Andreia Nunes L'Or no Estádio António Almeida Correia, a casa do Alcochetense. Foto: André Carvalho

— A Andreia publicou nas redes sociais a comparação das reações em Portugal e no estrangeiro. Que diferenças encontrou?

- Em França, muitas pessoas deram-me os parabéns, ficaram surpreendidos, mas disseram para continuar e ’bravo’. Depois, em Portugal foi ‘de onde é que vem o dinheiro?’, ‘lavagem de dinheiro’, ‘ela sabe o que é um fora de jogo?’, ‘tem umas boas bolas’ ou 'percebe é de outras bolas'. Comentários mais machistas. Mas faz parte. Não estou a generalizar, não são todos os portugueses, também recebi muito apoio, então é bola para a frente.

— Sente-se triste ou sente como um fator motivacional?

- A única parte que me deixa triste é que tenho um filho de 8 anos que já consegue ler e ver o que é que as pessoas dizem. Deixa-me triste porque não há razão. As pessoas nem me conhecem e com um bocadinho de pesquisa até entendiam que fui jogadora e sei o que é um fora de jogo. É mais um ódio gratuito que as pessoas têm. Mas também é bom, porque também lhe explico e ensino como é a vida, que não são só morangos. Tem coisas menos boas e ele entende que há partes menos boas de ter exposição.

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