Rita Fontemanha em entrevista a A BOLA Foto: Miguel Nunes
Rita Fontemanha em entrevista a A BOLA Foto: Miguel Nunes

«Cheguei a treinar sem luz, campos, equipamentos...»

Rita Fontemanha recorda início de carreira «desafiante» no Boavista, onde conquistou o primeiro troféu. Do «carinho» pelos axadrezados ao «passo gigante e maior do que a perna» rumo a Madrid

O Boavista ocupou o coração de Rita Fontemanha nos primeiros anos de carreira. A chegada às panteras em 2009 antecedeu cinco temporadas marcadas por desafios constantes, condições amadoras... e a primeira conquista.

Rita Fontemanha recorda em entrevista a A BOLA o troféu que conquistou sob a batuta... dos treinadores de Benfica e FC Porto.

— O que é que a Rita de 32 anos diria à Rita de 12 que começou no Colégio dos Carvalhos?

Diria fosse atrás dos seus sonhos e que ignorasse todas as vozes que estavam à volta naquela altura porque havia muita voz crítica quando o futebol não era considerado um desporto para mulheres. Diria para agarrar as oportunidades que ia ter, para ser feliz e acima de tudo para ser uma boa pessoa ao longo de todo o percurso independentemente das coisas que pudessem acontecer ou das mágoas que pudesse vir a ter pelo caminho. A Rita de 12 anos portou-se muito bem para chegar à de 32.

— Que memórias tem de uma realidade mais amadora no Boavista?

— Era tudo muito diferente, treinava à noite. Cheguei a treinar sem luz, sem água, sem campos, sem equipamento. Mas tudo isso também nos torna mais resilientes e obriga-nos a encontrar ferramentas para resolver problemas imediatos. Chegámos a jogar em Vila Nova de Gaia porque não tínhamos campo. Uma vez por exemplo chegámos, havia 16 pares de calções e éramos 18 convocadas. Nós lá resolvemos. O dia-a-dia era muito desafiante. Valorizo muito mais aquilo que tenho e que conquistei. Valorizo poder chegar ao balneário do Sporting e ter todos os dias a minha roupa lavada no mesmo sítio num bom balneário.

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— No Boavista foi treinada pelos técnicos que vão fechar a época na Taça de Portugal: Ivan Baptista, do Benfica, e Daniel Chaves, do FC Porto...

Os dois têm uma importância muito grande no meu percurso porque ganhámos juntos a minha primeira Taça de Portugal [2012/13), o meu primeiro grande título. Acho muito curioso agora vê-los em grandes palcos e fico muito muito feliz por eles. Naquela altura subir as escadas do Jamor e levantar um título pelo Boavista… tinha esse objetivo. Foi o meu clube de formação, tenho muito carinho e poder dar essa alegria foi muito bom.

A subida da escadaria do Jamor em 2013 - Foto: A BOLA

— Como vê atualmente a fase que o clube está a atravessar?

— O estado do Boavista deixa triste qualquer amante de futebol.Tenho um carinho muito especial. Fico realmente triste e quando o Boavista desce de divisão no futebol feminino para mim foi um fim de uma era e um momento difícil de digerir. Ver aquilo que está a acontecer ao clube ao dia de hoje também me deixa triste porque vivi por dentro o clube e sei o potencial que tem. O meu maior desejo é que o Boavista consiga reerguer-se e voltar aos tempos de antigamente.

— Como é que processou a mudança de realidade do Boavista para o Atlético em 2014?

Foi um passo gigante e maior do que a perna, mas surge porque em 2013 fui treinar ao Atlético de Madrid duas semanas Disseram-me que já tinham já o plantel fechado, mas que na época seguinte poderiam contactar-me. E assim fizeram. Um ano depois disseram para ir lá novamente fazer uns treinos e quiseram contar comigo. Foi um momento super importante, independentemente de não ir com estatuto profissional. Não ia ganhar um ordenado que me permitisse viver do futebol, mas os meus pais foram extraordinários comigo. Senti muitas dificuldades quando cheguei. A intensidade de treino e a mentalidade competitiva das jogadoras em Espanha era totalmente diferente. No Boavista treinávamos três vezes por semana, havia um compromisso q.b. porque se tínhamos compromissos não íamos ao treino. Em Madrid isso nunca aconteceu, íamos sempre ao treino, independentemente do que acontecesse nas nossas vidas. Sinto que passei do oito para o oitenta, a qualidade que existia era muita e o leque de escolhas era muito maior.

— As condições atuais são adequadas às especificidades das futebolistas?

Ainda não. Existem muitos escalões de formação, desde jovens já contactam com o futebol praticamdo mulheres, bem como com a importância da nutrição, do descanso, da preparação física- Mas ainda não temos as ferramentas suficientes para lhes proporcionar tudo isto da forma mais profissional do mundo e da forma que existe no futebol masculino. É um caminho que estamos a fazer. Os clubes dizem que é difícil fazer isto pois o futebol feminino não é um desporto rentável. Mas estamos muito melhores e muito mais próximos de ter uma atleta ideal do que há 20 anos. Toda a gente no geral já conhece as equipas que existem e quem foi campeão. Faltam oportunidades iguais e que a sociedade também comece a olhar para o futebol como um só. Se calhar há 10 anos para ser jogadora do Sporting tinha de ter algum talento e trabalhar. Daqui a 10 anos, para ser jogadora do Sporting temos de ser a melhor das melhores. Tudo isto vai obrigar a jogadora a crescer cada vez mais e consequentemente vai fazer com que a liga e a modalidade cresça.

— Concordou com a redução da Liga para 10 equipas?

— Ainda víamos uma diferença entre o que acontece com do topo da tabela e a parte de baixo. Se conseguirmos ter 10 clubes muito competitivos, a liga vai ser melhor. É preferível isso do que termos uma liga com 14 clubes em que quatro não conseguem de todo competir contra os outros 10. Já ninguém gosta de ver um resultado desnivelado ou jogos de sentido único. Uma liga mais equilibrada vai ser mais atrativa para toda a gente e mesmo para os clubes que vão às competições europeias é extremamente importante ter 10 jogos competitivos. Fez sentido e fará ainda mais sentido à medida que vamos conseguindo ter mais talento e colocar todas as equipas a um nível competitivo mais alto.

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