Neymar integra a seleção brasileira que vai participar no Campeonato do Mundo de 2026 - Foto: Imago
Neymar integra a seleção brasileira que vai participar no Campeonato do Mundo de 2026 - Foto: Imago

Neymar, o diamante que decidiu tornar-se soldado para o último Mundial

'Tribuna livre' é um espaço de opinião em A BOLA aberto ao exterior, este da responsabilidade de Sérgio Loureiro Nuno, fisioterapeuta olímpico dedicado a performance e recuperação de lesões desportivas; professor universitário; doutorado em Ciências da Saúde e Motricidade Humana

Neymar não joga pela seleção do Brasil desde outubro de 2023, mas conseguiu convencer Carlo Ancelotti a levá-lo ao seu quarto Mundial. Na presente época, o ex-craque de Barcelona, PSG e Al Hilal soma vários golos e assistências pelo seu clube de infância, o Santos. Continua a ser um jogador tecnicamente diferenciado, daqueles que o futebol mundial produz muito raramente. O talento nunca esteve em causa. O problema tem sido o resto: ritmo competitivo, a intensidade e, sobretudo, o historial clínico.

O assunto dividiu o país nos últimos dias. Ídolos do futebol brasileiro, como Romário e Ronaldinho Gaúcho, e protagonistas da atual seleção já tinham defendido publicamente a presença de Neymar contra outra metade do país. Mas a decisão está tomada. O nome Neymar foi dito em alto e bom som no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, e o atleta está oficialmente convocado para o Mundial-2026. O maior aplauso da noite num evento com muitas novidades anunciadas, antes da convocatória.

Este caminho até aqui, como todos sabem, não foi fácil. Segundo dados do site Transfermarkt, Neymar tem mais de 1500 dias de ausência por lesão, o que equivale a mais de quatro anos sem contribuir em campo. São mais de 250 jogos oficiais perdidos. Dá a ideia para quem segue de perto a carreira do jogador que podia ter feito bem mais pelas suas equipas. O compromisso podia ter sido diferente, mas o jogador canarinho foi muitas vezes o saco de boxe das equipas adversárias.

Durante o Mundial de 2014, sofreu uma das lesões mais marcantes da sua carreira. Num lance com o jogador colombiano Juan Camilo Zúñiga, o avançado brasileiro sofreu uma fratura no processo transverso da terceira vértebra lombar. Os exames de tomografia computorizada confirmaram a gravidade da lesão, obrigando Neymar a abandonar imediatamente a competição. Em conferência de imprensa, o médico responsável referiu que havia duas notícias a comunicar: uma boa, outra má. A má referia-se à ausência de Neymar no resto da prova. A boa é que podia voltar a andar e possivelmente a jogar (como veio a acontecer).

Apesar de não ter sido necessária cirurgia, o jogador teve de ficar imobilizado e seguiu um tratamento intensivo para aliviar a dor e recuperar a sua mobilidade. A lesão manteve-o afastado dos relvados durante várias semanas e constituiu uma grande baixa para a seleção brasileira, que perdeu uma das suas principais figuras numa fase decisiva do torneio. Este episódio teve um forte impacto emocional tanto nos adeptos como na equipa, tornando-se um dos momentos mais marcantes desse Campeonato do Mundo. Para quem não se lembra, o Brasil jogava em casa nos quartos de final e o jogo seguinte foi trágico. A Alemanha, frente a um Brasil a chorar pela ausência de Neymar, impôs a pior derrota de sempre aos brasileiros, os famosos 7-1.

Desde esse Mundial em casa, para além de diversos problemas musculares e várias entorses de tornozelo, em 2023 Neymar sofreu uma lesão do menisco e rotura do ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo durante um jogo de qualificação para o Mundial-2026, frente ao Uruguai. Neste tipo de casos de atletas profissionais, havendo a confirmação da rotura do ligamento cruzado anterior, é feita a cirurgia de reconstrução do ligamento cruzado anterior, associada ou não a sutura de menisco ou meniscectomia. O regresso dos atletas à prática desportiva é frequentemente acompanhado por uma grande pressão exercida pelos diferentes intervenientes do contexto desportivo, pelo círculo mais próximo do atleta e, muitas vezes, por fatores internos relacionados com o próprio atleta.

Assim, importa salientar que o processo de reabilitação deve ser conduzido de forma rigorosa e responsável, ainda que dentro do menor período possível. Os resultados funcionais desejados a ser cumpridos envolvem a força de extensão e flexão do joelho, desempenho em saltos horizontais unilaterais e resultados semelhantes em testes de saltos repetidos, com assimetrias inferiores a 10% comparando com o lado contralateral.

É igualmente importante que o atleta apresente boa tolerância ao esforço e confiança na realização de corrida multidirecional. Nem sempre o atleta regressa aos níveis habituais, de acordo com o timing cicatricial proposto na literatura. Neymar precisou de mais tempo para atingir os seus níveis de competitividade. Não é incomum. Quando se negligencia assimetrias funcionais, o atleta está mais próximo de uma recidiva ou de outra lesão. Até porque a fase de retorno à competição não se limita à preparação física do joelho para o regresso à atividade plena, mas envolve também a preparação global do atleta. É fundamental garantir que o atleta se sente confiante e mentalmente preparado para retomar o desporto sem qualquer limitação. O processo, que deve ser sempre progressivo, nem sempre é linear.

Estes últimos anos foram difíceis para Neymar. Mas ele continua a ser dos melhores do Mundo. Tem mais experiência do que aqueles que concorriam com ele e, por outro lado, Rodrygo e Estêvão já estavam afastados por lesão. A sua presença obrigatoriamente alivia a pressão de atletas que nunca conseguiram repetir na seleção o nível de futebol nos seus clubes, casos específicos de Vinícius Júnior e Raphinha. O desafio neste momento passa por demonstrar maturidade competitiva, consistência e capacidade de liderança num palco onde cada detalhe conta. É essa dimensão que frequentemente separa grandes jogadores de verdadeiros líderes em contexto de seleção.

Há pouco tempo assistia a um podcast de um colega ortopedista e diretor médico de uma equipa profissional no Brasil acerca de Neymar. Entre outras considerações, referiu que «no futebol atual já não basta ser jogador, é preciso ser atleta» e «só se conta com soldado para a guerra se tiver condições para batalhar». Não tenho qualquer dúvida que o Dr. António Mário Valente tem razão e foi exatamente por isso que Neymar foi convocado.

Carlo Ancelotti acredita que ele pode ser um soldado na sua seleção. Finalmente, percebeu que neste momento só pode ser útil se estiver bem fisicamente. A exigência física do futebol moderno, a intensidade, a disponibilidade e a capacidade de competir ao mais alto nível, semana após semana, é cada vez mais fundamental para o rendimento do jogador.

Quando um país inteiro parou para ouvir a convocatória da sua seleção, por causa de um jogador, isso diz muito sobre o impacto que teve no futebol. No caso de Neymar, esse tipo de atenção não vem apenas do talento dentro de campo, mas também da forma como marcou uma geração de adeptos, criou expetativas constantes e o seu nome, hoje, ultrapassa o próprio jogo. Ainda assim, é importante lembrar que esses segundos de apneia quando o nome foi dito pelo treinador são mais um reflexo da paixão do público e do seu peso mediático no futebol.

A carreira de um jogador é sempre feita de altos e baixos e a admiração coletiva pode ser tão volátil quanto intensa. Neymar merece estar presente em mais um Mundial, os grandes jogadores têm de estar nos grandes palcos.

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