Os jornalistas Afonso Santos e Diogo Amaro Nunes comentam o maior jogo da época da NFL e o evento desportivo mais popular dos Estados Unidos

Conheça o inglês que guiou a defesa dos Seahawks ao Super Bowl

Aden Durde será o primeiro treinador britânico a estar no jogo decisivo da época da NFL. E como líder deste grupo defensivo, criou uma unidade temível

Quem nasce no norte de Londres e gosta de desporto, seria de esperar que a criança enveredasse pelo futebol. Mas Aden Durde, aí nascido em 1979, ficou sim apaixonado por aquele futebol que se joga do outro lado do oceano. Quando a mãe lhe comprou uma cassete sobre a equipa dos Chicago Bears que ganhou o Super Bowl em 1986, Durde não demorou a decidir: queria jogar futebol americano.

Jogou na NFL Europe, uma liga já defunta, nos EUA só integrou equipas de treino e após pendurar o capacete, em 2011, a paixão pelo jogo levou-o a coordenar a defesa dos London Warriors. Até que um conhecido dos tempos da NFL Europe lhe arranjou uma entrevista e, por consequência, um estágio nos Dallas Cowboys, em 2014.

Depois criou o International Player Pathway, um programa para recrutar atletas de todo o mundo para a NFL. E o maior exemplo de alguém que beneficiou do programa e só chamou a atenção de Durde foi Jordan Mailata. O australiano deixou o râguebi e mesmo nem sabendo os nomes das posições, apostou nesta novo rumo e quatro meses depois foi escolhido pelos Eagles no draft, em 2018, tornou-se num dos melhor ofensive tackles do país e foi a dois Super Bowls, ganhando o do ano passado.

Este olho, que nem Durde sabia que tinha, fê-lo ponderar uma carreira com o headset na cabeça e na linha lateral de um campo da NFL.

Em 2018, deu esse passo. Esteve três anos nos Falcons como assistente da equipa defensiva, outros três nos Cowboys como treinador da defensive line e em 2024 integrou, com Mike McDonald, a nova equipa técnica dos Seahawks, já como o treinador mais importante da defesa. E que defesa!

Nova versão da ‘Legion of Boom’

Entre 2013 e 2015, a defesa dos Seahawks dominou praticamente tudo e todos, com a famosa Legion of Boom que jogava com uma agressividade e intensidade nas placagens que também se encontram na equipa atual.

Dantes havia o icónico Richard Sherman a cornerback, agora há Devin Whiterspoon. Bobby Wagner era um linebacker quase omnipresente, Ernest Jones tomou o seu lugar. E o duo de safeties de Earl Thomas e Cam Khancellor foi substituído, com igual qualidade, por uma unidade liderada por Coby Bryant. E os resultados estão à vista.

Com apenas três derrotas em 19 jogos e uma média de 17,2 pontos sofridos por jogo, a defesa tem dado a estabilidade que o ataque de Sam Darnold, Jaxon Smith-Njigba e Kenneth Walker III (note-se que a ausência de outro running back, Zach Charbonnet, é uma grande baixa para a equipa) precisa para brilhar.

E há uma métrica em particular que coloca esta defesa como uma das melhores de sempre.

DVOA (Valor da defesa ajustado acima da média, em tradução solta) mede a eficácia de uma equipa, comparando o sucesso de todas as suas jogadas com a média da liga, ajustando a medição ao contexto do jogo e ao adversário. Em suma, mede se uma equipa tem mais, ou menos sucesso, tanto a atacar como a defender, em relação a todas as outras. Ora nesta métrica, os analistas colocam a defesa dos Seahawks de 2025/26 como a sexta mais forte deste século, ou seja, é uma unidade que permite muito poucas jogadas positivas (comparando com o resto da liga) ao ataque adversário.

O quarterback que teve mais sucesso contra a defesa foi Sam Darnold, que ajudou os LA Rams a marcarem 28,3 pontos, em média, em cada um dos três duelos desta época.

E o cérebro da operação tem um sotaque londrino. E a operação tem outro nome – Dark Side, em referência à saga Star Wars.

«Adoro o nome. Estes jogadores esforçam-se não para replicarem a Legion of Boom, mas para viverem de acordo com um padrão, e agora estão a criar a sua própria identidade», disse Durde à BBC.

Para colocar a cereja no topo do bolo que tem sido a ascensão de Durde, ao seu lado, como assistente está Leslie Frazier, que era jogador daquela temível defesa dos Bears em 1986.

«Ele conseguiu ultrapassar tanta coisa. Quando penso em como ele começou e onde está hoje, fico impressionado. É uma história incrível», disse Frazier à BBC, que não esconde retribuir a admiração que Durde tem por si: «É uma honra trabalhar com o Aden, saber o quanto ele admirava o que fazíamos nos Bears e como isso o influenciou e ver onde está hoje.»

Frazier não se fica por aqui. «Estou sempre a provocá-lo. Digo-lhe: “Um dia, vai ser escrito um livro sobre ti. Vai haver um documentário sobre a tua vida”. É uma história fantástica». E o capítulo mais dourado pode ser escrito hoje, em Santa Clara.