Sporting: Nuno Santos será poupado no Dragão
Brilho nos olhos, cabeça bem erguida, um beijo na camisola 11 cuidadosamente colocada nas costas da cadeira onde se sentou no banco de suplentes e um sorriso do tamanho do Mundo quando, aos 77 minutos, rendeu Trincão no jogo dos quartos de final da Taça de Portugal, diante do Aves SAD. Entrou com o pé direito, benzeu-se e respondeu aos adeptos que o aplaudiam de pé nas bancadas de Alvalade com a mão direita a bater no símbolo do leão, envergado mesmo por cima do coração, visivelmente emocionado, naquele que foi o regresso à equipa principal.
Foram 15 longos meses de paragem, devido a intervenção cirúrgica ao joelho direito, na sequência de rotura total do tendão rotuliano, naquela que foi a terceira lesão do género na carreira (a primeira ao serviço do Benfica, em 2015, a segunda com a camisola do Rio Ave, em 2018).
E o regresso aos relvados, sem limitações, conheceu alguns recuos. Em primeira instância, Nuno Santos quis regressar na final da Taça de Portugal da época passada (em finais de maio), depois o prazo foi adiado para a Supertaça Cândido de Oliveira (final de julho), até que a Unidade de Performance decidiu que o retorno apenas aconteceria quando não houvesse o mínimo risco de recidiva.
Regressado à ação em Alvalade, Nuno Santos acabou por ser posto à prova mais tempo do que aquilo que estava programado. Lançado aos 77 minutos, numa altura em que o Sporting vencia por 2-1 e tinha o jogo dos quartos de final da Taça de Portugal (aparentemente) controlado, o Aves SAD fez o empate através de uma grande penalidade, levando o encontro para prolongamento (somando 10 minutos de compensação além dos 90), ou seja, mais meia-hora para o ala.
No final, com o polegar para cima dava indicações de que não sentia dor. Contudo, segundo A BOLA apurou, o esquerdino segue com a comitiva para o Norte do País, mas não está nos planos somar minutos no Dragão, em clara proteção de excesso de carga em competição e, como diz o ditado, «mais vale prevenir do que remediar».
«Há medos e hesitações»
A BOLA falou com a psicóloga Liliana Pitacho que explicou que além do trabalho física, nesta fase, o psicológico é fundamental.
«Quando há lesões recorrentes e paragens muito prolongadas, é normal que o regresso à competição seja acompanhado de muitos medos e hesitações. A adaptação à nova fase de competição pode ser sempre mais limitada devido a esses receios, do contacto, de determinados movimentos, a estar mais atento à parte física e a qualquer dor que possa surgir do que necessariamente a alguns lances de jogo e isso pode-se ressentir na fase inicial. Mas, com certeza, tendo em conta todo o dispositivo da área clínica que o clube tem, acredito que o atleta esteja a ser acompanhado e a preparação deste regresso tenha sido feita também do ponto de vista mental», sublinhou.
O facto de ter sido muito aplaudido quando entrou no campo em Alvalade, sentido o carinho dos sportinguista, é, na opinião da psicóloga, cronista de A BOLA e também docente Instituto Politécnico de Setúbal, diz ser também importante: «O jogador sempre sentiu que o seu regresso era desejado, acho que isso ficava patente muitas vezes, quer junto dos adeptos, quer mesmo junto da equipa técnica e isso, obviamente, é uma motivação, mas também é uma pressão suplementar.»
«A questão de estar de volta, a pressão do peso do regresso e o receio de uma futura lesão pode colocar o atleta sobre pressão extra. Cria uma ansiedade maior para quem entra em competição, porque existe exatamente esse lado, o facto de perceber que o seu regresso é muito desejado com o receio da lesão vai aumentar estes níveis de ansiedade e estes níveis de ansiedade podem não ser só prejudiciais na questão do desempenho em si, mas também podem ser prejudiciais na própria lesão, ou seja, na propensão para a lesão. Sabemos que quanto maior os níveis de ansiedade, maior a propensão de lesão nos atletas, porque o foco está mais disperso e, portanto, pode acontecer com maior probabilidade. Mas, acredito que a preparação para o regresso também tenha sido feita a nível mental», concluiu.