'Caso Prestianni': a verdade inconveniente que ninguém quer ouvir
Há verdades que não admitem matizes nem notas de rodapé: o insulto é algo inadmissível. Ponto final. Seja no relvado, na bancada, na rua ou no éter das redes sociais, a violência verbal é uma chaga que urge estancar. E, quando falamos de racismo, a gravidade sobe de tom, atinge o nível do nojo, do crime. Mas nunca devemos esquecer que todo e qualquer vilipêndio é uma derrota para o desporto e para a sociedade civilizada.
Para analisarmos com a devida responsabilidade o que se passou no caso Vinícius/Prestianni, precisamos de baixar o volume da indignação cega e olhar para os factos com a lucidez que o momento exige.
Primeiro, falemos da presunção de inocência. Vivemos tempos de condenação sumária, onde o tribunal das redes sociais dita sentenças antes de lidos os autos. Ver um jogador tapar a boca enquanto fala tornou-se um gesto banal no futebol moderno — é o beabá de qualquer profissional que queira manter a privacidade do balneário em pleno campo. Transformar esse gesto numa prova automática de culpa é um salto lógico perigoso. Quando a narrativa substitui a investigação, a justiça morre. E no desporto, como na vida, não se pode condenar sem provas inequívocas.
Depois, há a questão da responsabilidade emocional. É aqui que o debate se torna mais espinhoso. Ver Vinícius celebrar com o samba no pé é um hino à alegria, à cultura brasileira, à identidade de um povo que faz da bola um instrumento de felicidade. Isso é, e deve ser, intocável.
Mas o futebol não é um vácuo. Um profissional da craveira de Vinícius tem de possuir uma inteligência emocional que vá além do drible. Num contexto inflamado, perante uma bancada que já fervia com insultos e objetos arremessados, o gesto na direção desta é gasolina no fogo. Não se trata, obviamente, de culpar a vítima (Vini é, aliás, um exemplo de coragem na luta contra o racismo), mas de exigir ao protagonista a estatura necessária para não escalar o conflito. O jogador de elite não compete apenas; tem o dever moral de não ser o agente provocador de situações que já são, por si só, limites.
Aquilo a que se tem assistido nos últimos dias ultrapassou a dimensão de um Vinícius contra Prestianni, ou de um duelo de emblemas históricos. É, infelizmente, o reflexo de uma sociedade cada vez mais polarizada, mais reativa, pronta com tochas e fogueiras a apontar o dedo, ora a um, ora a outro.
Se queremos, de facto, erradicar o racismo e a violência do futebol (e da sociedade), temos de atacá-los em todas as frentes, do insulto normalizado à provocação, do julgamento sem provas ao sensacionalismo mediático que se alimenta da clivagem. A meta não é escolher um bando. O objetivo tem de ser defender o jogo (e a civilização). Porque se continuarmos a preferir as trincheiras aos valores, o futebol continuará a ser apenas o espelho de uma sociedade decomposta. E isso... é o maior autogolo de todos.