O Preto, o Branco e o Pedro
Cheguei à África do Sul, pela primeira vez, no dia 2 de junho de 2010, a seis dias do início da fase final do Mundial. No aeroporto, uma placa com o meu nome e com a indicação do voo de proveniência.
Do alto dos seus quase dois metros, um sorriso aberto e um abraço sincero, que fizeram do Phillemon, até hoje, o meu melhor amigo. Pai de quatro filhos, casado há quase trinta anos, e a viver em Diepsloot, uma das townships mais povoadas dos arredores de Joanesburgo.
O Phillemon é preto. Um luzidio preto de dentes invejavelmente brancos. Fala um inglês quase tribal, mas também fala as outras dez línguas oficiais sul-africanas. Nasceu num bairro pobre, lutou pela independência financeira e conduz como ninguém. As suas mãos protegem-me, sempre que estou em paisagens sul-africanas. É um ás do pedal e da inteligência emocional.
Do outro lado ao Atlântico Sul, o Vinícius nasceu pobre e teve uma sorte na vida: pôde tentar a vida pelo lado do talento e da magia dos pés. Pensa com eles. Afinal, eles garantem-lhe um lugar privilegiado entre os eleitos. Deu nas vistas no centro de treinos com o nome de um dos maiores da História, e ele próprio percebeu que pode escrever história. Pelo corpo franzino transformado em malabarista, pela intuição e pelo olhar, pelo modo como faz da bola a sua amante, e como a conduz ao paraíso.
O Vinícius não é meu amigo, não tem de mim a ligação quase umbilical que o Phillemon conhece. Mas expandiu a sua áurea. Mostrou o futebol que lhe faz gente e a garra que o molda.
Preto, o tom e a pele do esforço, da magia… e do momento.
Aqui paramos para o olhar e para o pensar: ao vermos Vinícius vemos um pouco de cada um de nós, do nosso esforço para sermos melhores e da honra por vestirmos roupas que nos distinguem. A camisola do Real Madrid e a sua hermana da seleção do Brasil serão, decerto, motivos suficientes para nos ultrapassarmos e, às vezes, esquecermos a linguagem de gravata, mandarmos alguns à merda e ultrapassarmos, no momento, o que seria essencial: desequilibramo-nos, pronto.
Há uma linha vermelha: não devemos mentir, ainda que o afã da nossa defesa e a perceção de tal perseguição nos possa levar a uma língua leve.
Conheço Buenos Aires. A Avenida 9 de Julho só tem rival nos Campos Elísios e Gardel marca em cada ouvido o ritmo de cada memória. A cidade do tango, do ritmo, da música que tantos (até os Gotham Project, uma das minhas bandas de eleição…) definem a nossa vida e o nosso percurso.
O rapaz que, com 16 anos, três meses e 23 dias se estreou na Copa Libertadores, com a camisola do Vélez Sarsfield, dá lastro ao sonho de virar o Atlântico e despontar em Lisboa. Gianluca Prestianni Gross nasceu na Ciudadela e sempre quis ter a bola nos pés. Astro jovem, sente que a Europa é o seu palco, e está nela a dar os primeiros passos.
É dotado para a coisa, baixinho (da minha altura, aliás…), com um centro de mobilidade que lhe permite ser artista, assim a vocação o acompanhe e o ajude. Branco (de tal modo que parece saxónico), vive o jogo como poucos e empolga-se quando encontra Vinícius, três semanas depois de o palco ter sido seu, e meio minuto depois de o companheiro brasileiro lhe ter tirado o palco.
E fala o que lhe vem à boca, dirá o que não deve, procura depois o hermano, que um, argentino, e o outro, brasileiro, são uma espécie de irmãos só desafindos quando a bola rola e a rede quer abanar.
Juntam-se, na relva do estádio de um clube cujas lendas sempre escreveram história a preto e branco, Vinícius e Prestianni, num momento único de um jogo especial, em que o dinheiro e o prestígio marcam hora e definem o futuro próximo de dois velhos conhecidos e amigos. Benfica e Real Madrid sempre o foram, enquadrando a respetiva rivalidade num registo fabuloso dos dois emblemas, ao longo de tantas décadas de competição internacional.
É o futebol a falar alto. O futebol de uma herança geracional, mas de uma compreensão geopolítica transversal. O futebol que luta pelo equilíbrio, pela justiça e pela condição humana. Vinícius e Gianluca são isso mesmo: jovens, humanos, determinados, voluntariosos, defensores das suas equipas mas, acima de tudo, amantes do seu jogo. Sem o qual talvez não tivessem tido momentos únicos, talvez nunca tivessem conseguido equilíbrio e futuro nas suas vidas.
Cresceram, os dois, em bairros periféricos do Rio de Janeiro e de Buenos Aires, com as dificuldades de sociedades ambivalentes, pouco propícias à despistagem e valorização do talento precoce. Um e outro fizeram do futebol a porta de saída de tentações e de entrada num mundo que os valorizasse, que lhes permitisse competir e ganhar peso. Tantas vezes mais como Homens do que como desportistas, tantas vezes mais pela dignidade de serem alguém que se revisse em si próprio, no seu talento e nas suas capacidades, do que sujeitados aos ditames de uma sociedade injusta, inquinada e etiquetável.
Vini e Prestianni merecem respeito. O preto do Real Madrid e o branco do Benfica, como tantos pretos e brancos de uma e de outra equipas, de todas as equipas e de todos os continentes. Não merecem que uma situação marque as suas carreiras. Merecem ser acompanhados e, se necessário, repreendidos. E merecem apertar a mão sempre que se encontrarem num relvado. Afinal, o palco dos seus sonhos, que o Mundo inteiro parece apostado em, tantas vezes, desequilibrar.
Entretanto, o Pedro Neves de Sousa foi alvo de cobardes. A espera e as ameaças ao jornalista da CMTV são próprias de criminosos, gente sem chão, sem bases e sem educação. O jornalismo tem de se impor perante este tipo de ameaças e de grunhos, que, para não chegarem a casa e deixarem que as frustrações caiam sobre as famílias, acham interessante desatar aos berros a quem apenas cumpre a sua missão.
No caso, e não é pouco, o Pedro é um sénior, filho de um monstro (José Neves de Sousa) e irmão de um exemplo profissional (Margarida Neves de Sousa). É sério, trabalhador e dedicado. Devia bastar. Mas, para os fanáticos da bola, foi apenas mais um saco de boxe. Tenham juízo. E, se for preciso, atrás das grades.
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