Neymar merecia Mundial-2010, não o de 2026 — Foto: IMAGO
Neymar merecia Mundial-2010, não o de 2026 — Foto: IMAGO

Geração 2030

Que critérios deve Carlo Ancelotti adotar na escolha da lista final de 26 para o Mundial-2026? Mais foco na experiência ou na juventude? Ou num misto? JAM sessions é o espaço de opinião de João Almeida Moreira, jornalista e correspondente de A BOLA no Brasil

No Mundial-2010, o Brasil clamava por Neymar, 18 anos, entre os 23 convocados. Mas o selecionador Dunga optou por Nilmar, 25.

Nem sempre a torcida tem razão mas neste caso Neymar deveria mesmo ter sido chamado, não apenas por ser mais jovem, mais empolgante e, na época, mais misterioso para os rivais do que Nilmar mas também porque nas Copas os treinadores canarinhos, além de um compromisso com o presente — ganhar — e com o passado — honrar os cinco títulos conquistados —, ainda têm responsabilidades com o futuro — preparar as próximas estrelas para o palco dos palcos.

Não por acaso, nos últimos dois Mundiais conquistados, os treinadores Carlos Alberto Parreira e Luiz Felipe Scolari sentiram-no: no tetra, em 1994, estava lá, mesmo sem entrar em campo, Ronaldo, 17 anos, chamado de Ronaldinho porque havia outro Ronaldo, o central Ronaldão; no penta, em 2002, foi a esse Ronaldo, já chamado de Fenómeno e com dois Mundiais disputados no currículo, que coube a tarefa de abençoar Kaká, 20 anos, melhor jogador do planeta cinco anos depois.

No tri, em 1970, Mário Zagallo deu a alternativa a jogadores como Paulo César Caju, Marco Antônio ou o guarda-redes Leão, todos com 20 anos — este último não jogou um minuto sequer mas seria titular em 1974 e 1978 e ainda faria parte do grupo de 1986.

No bi, em 1962, Coutinho foi chamado com 18 anos sob os epítetos de «génio da pequena área» e de «maior parceiro de Pelé». Pelé que, como se sabe, se estreou aos 17 no primeiro Mundial conquistado pelo Brasil, em 1958.

Ou seja, no equilíbrio das convocatórias faz sentido ter the next big thing entre os eleitos mesmo que no futuro o atleta em causa não venha a ser tão big thing assim.

Vem esta longa introdução histórica a propósito do futuro próximo: que critérios deve Carlo Ancelotti adotar na escolha da lista final de 26 para o Mundial-2026?

Por mais que o Brasil esteja furos abaixo da vizinha e rival Argentina e de outras candidatas, todos concordarão que, até por motivos de pura aritmética demográfica, ninguém tem tanta quantidade de qualidade como os canarinhos.

Logo, há que estabelecer critérios: mais foco na experiência ou na juventude? Ou num misto? Como Carletto recuperou, e bem, Casemiro, Danilo e outros veteranos em nome do equilíbrio, deve preparar a próxima estrela para o palco dos palcos, abençoar um eventual melhor jogador do planeta de daqui a cinco anos, chamar the next big thing.

O problema é adivinhar quem ela é. Ou quem são… Estêvão, 18 anos, já está lançadíssimo, Endrick, 19, voltou a ganhar fôlego, Rayan, 19, começa a brilhar na Premier League e ainda há Breno Bidon, 20, na boca de toda a gente.

Porém, muitos no Brasil chamam-lhes Geração 2030, ou seja, um grupo de jogadores elegíveis só no próximo Mundial para dar preferência, neste, à experiência de consagrados como Neymar. Mas não: Neymar merecia a Copa de 2010, não a de 2026.