Caso Prestianni-Vinícius: não é sobre futebol, é sobre dignidade humana
Sou sócio do Sport Lisboa e Benfica e vivo o clube intensamente. Começo por aqui para que não haja equívocos: jamais atacarei aquela que, para mim, é a maior e mais representativa instituição desportiva do país.
O Benfica não é um episódio. Não é um dirigente. Não é um jogador. É história. É cultura. É identidade. É um símbolo que atravessa gerações. E é precisamente por isso que o que aconteceu no jogo com o Real Madrid exige mais — não menos — exigência.
O episódio entre Vinícius Júnior e Gianluca Prestianni é, em si mesmo, profundamente perturbador. E torna-se ainda mais grave quando analisado à luz do ambiente que o rodeou, das reações que gerou e da complacência com que parte dele foi acolhido.
Assistimos a ruídos e gestos de macaco vindos de diferentes zonas do estádio. Assistimos a uma narrativa que transformou uma celebração numa suposta provocação imperdoável. E assistimos, no momento da substituição, a aplausos dirigidos ao jogador envolvido no ainda “alegado” gesto racista — como se ali estivesse alguém a defender a honra da casa.
Não estava. Provocação não legitima racismo. Celebração não legitima desumanização. Dançar nunca pode ser argumento para imitar um animal.
É aqui que entra a dimensão institucional. O Sport Lisboa e Benfica não pode permitir que o seu nome seja associado a qualquer forma de tolerância perante comportamentos racistas. Não por pressão mediática. Não por conveniência circunstancial. Mas porque a grandeza de uma instituição mede-se precisamente nos momentos difíceis.
Defender o clube não é fechar os olhos. Defender o clube é exigir que esteja à altura dos seus valores.
Também não me passou despercebida a postura de José Mourinho, questionando por que razão “é sempre com o mesmo jogador” e sugerindo que Vinícius Júnior deveria repensar a forma como celebra.
A ironia é evidente: quando um jogador dança, questiona-se a sua atitude. Quando alguém responde com racismo, questiona-se o contexto — ou a prova.
Há aqui um paternalismo subtil, quase condescendente — como se o problema estivesse na exuberância de quem celebra e não na intolerância de quem não suporta essa celebração.
A pergunta não é “porque é sempre com ele?”. A pergunta é: porque continua a acontecer com ele? Talvez porque talento negro, confiante e bem-sucedido ainda incomoda. Talvez porque a ousadia de festejar sem pedir licença ainda irrita quem acha que há comportamentos aceitáveis consoante a cor da pele.
O Benfica não é um problema isolado. O racismo é um problema social que atravessa fronteiras, estádios e gerações. Negá-lo é ingenuidade. Relativizá-lo é cumplicidade. Endossá-lo é crime.
Ter sócios exigentes não enfraquece o clube. Fortalece-o. Eu continuarei a ser sócio. Continuarei a amar o Benfica. Mas amar uma instituição não é idolatrá-la cegamente. É querer que represente o melhor de nós — sobretudo quando o contexto é desconfortável.
O futebol é paixão. Mas a dignidade humana está acima de qualquer rivalidade. E é precisamente por acreditar na grandeza do Benfica que exijo que, enquanto instituição de renome mundial, dê o exemplo inequívoco na luta contra o racismo e qualquer forma de discriminação.
Porque a grandeza não se proclama — prova-se. E prova-se quando os valores são defendidos com firmeza, mesmo quando é mais fácil olhar para o lado.