José Mourinho, treinador do Benfica - Foto: IMAGO

Kompany critica Mourinho: «Usar o nome de Eusébio para atacar Vinícius... »

Treinador do Bayern reagiu de forma emotiva ao caso Vinícius-Prestianni e criticou o técnico luso por ter atacado o carácter do brasileiro no pós-jogo

Vincent Kompany pronunciou-se de forma emotiva e profunda sobre o caso que envolve Vinícius Jr. e Gianluca Prestianni, no BenficaReal Madrid, deixando críticas à forma como José Mourinho abordou o episódio. O treinador do Bayern assumiu que o tema é «muito mais delicado do que pensamos» e que reflete um problema maior da sociedade atual.

«É um tema difícil porque este tipo de tópicos são ainda mais difíceis de discutir do que costumavam ser no passado», começou por dizer, explicando que viu o jogo em direto e acompanhou os acontecimentos no momento. «Quando vês a ação em si, a reação dele não pode ser fingida. É uma reação emocional. Não vejo qualquer benefício para ele em ir ter com o árbitro e colocar todo este sofrimento nos seus ombros. Não há absolutamente nenhuma razão para o Vini Jr. ir fazer isto.»

Destacou ainda a postura de Mbappé ao mesmo tempo que reconheceu a dificuldade do caso disciplinar: «Tens um jogador que se queixa, tens um jogador que diz que não o fez. A menos que o próprio jogador se chegue à frente, é um caso difícil.»

«Mas depois, ao fundo, vês no estádio pessoas a fazer gestos de macaco. Está a acontecer no estádio também. Está a acontecer, conseguem vê-lo. Tens por um lado a altercação entre os jogadores, tens por outro lado o que acontece no estádio também», continuou.

As palavras mais duras surgiram quando abordou as declarações de José Mourinho: «Depois do jogo, tens o líder de uma instituição, José Mourinho, que ataca o carácter de Vinícius Júnior ao trazer o tipo de celebração para desacreditar o que ele está a fazer. Para mim, em termos de liderança, é um erro enorme. É algo que não devemos aceitar.»

«Para além disso, ele mencionou o nome de Eusébio para dizer que o Benfica não pode ser racista porque o melhor jogador da história do Benfica é o Eusébio. Sabem o que os jogadores negros tiveram de passar nos anos 60? Ele estava lá a viajar com o Eusébio em todos os jogos fora? Quando ele ia a todos os sítios na Europa? Provavelmente, na altura, porque o meu pai foi uma pessoa negra nos anos 60 que também trilhou o seu caminho, a única opção que tinham era estarem calados e não dizerem nada, e serem dez vezes melhores, para conseguirem um pouco de crédito. Essa foi a vida do Eusébio, provavelmente», disse.

«E usar o seu nome para defender um ponto de vista sobre o Vini Jr., que está finalmente numa situação em que pode dizer algo sobre isso... Há muitos jogadores que jogam em ligas diferentes ainda na Europa que não conseguem... não temos voz. Há jogadores hoje na Hungria, na Bulgária, na Sérvia. Se algo lhes acontece e são jogadores negros, têm zero hipóteses de ter qualquer tipo de apoio. O Vini Jr., pelo menos, está numa situação em que muitas pessoas tornaram possível que ele aproveitasse este momento e protestasse neste momento.»

«Sabem quando o José Mourinho faz o deslize de joelhos em Old Trafford, quando ele vai ter com os adeptos na meia-final do Inter contra o Barcelona e vai para a frente dos adeptos do Barcelona e celebra... Quando ele joga contra o Sevilha com a Roma e naquele momento está a discutir com os árbitros e os árbitros têm de sair sob proteção, sair do país sob proteção após esse jogo. Naquele momento, se alguém fosse racista com o Mourinho, eu esperaria que todos nós disséssemos 'parem'. Não importa a celebração dele. Vamos ouvir o que ele tem para dizer. Vamos defender algumas coisas simples, algumas coisas fundamentais.»

Apesar das críticas, Kompany fez questão de separar o erro da pessoa, reconhecendo qualidades humanas em Mourinho: «Nunca ouvi uma pessoa dizer nada de mau sobre o José. Todos os jogadores que jogaram com ele adoram-no. Eu entendo a pessoa que ele é, que está a lutar pela sua equipa, está a lutar pelo seu clube, e ele tomou aquela decisão. E não se pode ser uma má pessoa e ter todos os ex-jogadores a falar tão positivamente sobre ti. Eu sei que ele é uma boa pessoa, mas ele cometeu um erro.»

Num discurso marcado por reflexões pessoais, o treinador defendeu espaço para arrependimento: «Se for verdade que o jogador disse algo tão mau, eu adoraria uma situação onde ainda houvesse espaço para alguém pedir desculpa e isso ter um impacto na sentença também. Portanto, a sentença deveria ser A ou B, mas se admitires que cometeste um erro... Mas estamos a retirar todas estas opções porque estamos a criar esquerda ou direita e preto ou branco. Tens de estar de um lado ou do outro.»