Vinícius Júnior tem mesmo um problema
Deixem-me já simplificar. Há poucas coisas mais deploráveis e reprováveis do que o racismo e o fenómeno que não é bem um fenómeno, tão recalcado que ficou na consciência coletiva europeia pós-colonial e não só, deve ser mitigado por nós, pelos nossos filhos e pelas gerações seguintes até que desapareça por completo. Ou se torne apenas memória longínqua. Castigando, aplicando a lei, mas, mais importante, reforçando a educação familiar e escolar, a nossa própria cultura, já que não é a pena que nos impede de quebrar as regras e sim a forma como nos sentimos com os nossos atos e com a nossa consciência. Porque, amigos, o monstro continua aqui, vivo, entre nós.
Se houve, de facto, racismo no Estádio da Luz, não posso dizer que me surpreenda. Vivemos num país em que mais de um terço dos votantes queria um presidente racista e xenófobo, em que o discurso anti-imigração e a responsabilização dos imigrantes pelos males da sociedade está e estará sempre presente. O racismo anda pela rua, convive connosco nos empregos, entra nos cafés e restaurantes, ultrapassa-nos na estrada. Grita ao nosso lado nos estádios. Algum adepto por esse país fora já atirou certamente palavras feias à diferença de quem lhe roubava o sabor do resultado ou da vitória do seu clube. Uns mais a sério, outros mais a brincar, sim — porém, não se deve brincar com coisas sérias.
Não me surpreende também que um argentino, mais massacrado do que nós, ao quadrado ou ao cubo, pelas injustiças sociais, pelas dificuldades do dia a dia e por um passado, ainda que não vivido, tremendo de tortura e ditadura, o faça. Não que isso o desculpe, se o fez.
Deve fazer-nos pensar. O racismo também se insinua nas Pampas. Das canchas aos potreros, a Argentina convive com camadas de memória e sombra: desaparecidos da ditadura, injustiças veladas em praças, cânticos contra jogadores estrangeiros ou negros feitos por uma população europeizada devido à imigração massiva e com uma herança africana reduzida e silenciada. Recordações que atravessam bancadas e ruas, antigos campos de trabalho forçado no centro das cidades, fazendo de cada confronto um território inflamável.
Ainda mais explosivos o são diante do arqui-inimigo. Cada gesto se amplifica. Cada provocação ganha eco. É do outro lado da rivalidade que encontra o mulato malandro, o artífice do drible e do engano — de que até Vinícius será herdeiro direto —, que se tornou estereótipo e catapultou os canarinhos para as páginas mais ricas da história do jogo. É neste contexto que entra Prestianni, com o seu próprio temperamento, face a face com Vinícius, um provocador por natureza, a mover-se com a ginga e a teatralidade habituais. Claro que a competição em personalidades fortes cria um terreno fértil para tensões que explodem em segundos.
Não sei o que disse Prestianni. Sei o que Vinícius disse que ouviu. Os dois, e também outros, tiveram mais momentos em que taparam a boca enquanto falavam. Porque se antes era ponto de honra que o que acontecia no campo ficava no campo, como me fartei de ouvir dizer desde os primeiros tempos de jornalista, hoje há dezenas de câmaras e de microfones que não deixam que tal aconteça. Não me chateia que tapem a boca e falem apenas uns para os outros. Faz parte do código. Protegerem-se significa que pode não ser bonito, mas não necessariamente que seja criminoso e racista.
No entanto, aprendi, ao longo da vida, que o direito do respeito da individualidade, neste caso a raça, não substitui outros, como a presunção à inocência. Nem as redes sociais podem tomar o lugar dos tribunais. Avaliou-se a camisola por cima da boca. Viu-se medo na cara do jovem avançado quando Vinícius começou a correr para o árbitro. Mbappé ouviu cinco vezes a palavra maldita e disse quatro «tu és um puto racista» a Prestianni. Os benfiquistas lembraram que Eusébio é a sua figura maior. A leitura labial trouxe insultos para a boca do brasileiro. Repetiram-se imagens de Otamendi a mostrar-lhe a tatuagem de campeão do mundo e dele a tapar a boca para dizer o que achou que tinha dizer. E Camavinga ficou de braços estendidos sem perceber porque estava o colega a correr para o árbitro, numa cena a lembrar muitas que vi em criança, no recreio, com o queixinhas das calças de bombazine junto à contínua a apontar e a acusar «aquele menino chamou-me nomes».
Haverá inquérito, talvez testemunhos, amigos que defenderão amigos, colegas, o próprio clube, no entanto, vi e ouvi inúmeras teorias ao longo das últimas horas e continuo na mesma: no meio de um estádio ruidoso, com mais de 65 mil almas, apenas Prestianni sabe o que disse e Vinícius Júnior o que ouviu.
As condenações ao fenómeno, também o sei, são espoletadas por muitas coisas e, entre estas, pelo politicamente correto. Condenemos o racismo, não podemos é já condenar a pessoa. Sem esquecer que vivemos num mundo estranho, num ecossistema de hipocrisia, em que se organizaram Campeonatos do Mundo e outras competições da FIFA onde são públicos os constantes ataques a direitos humanos— aliás, desde a Rússia que não se vê outra coisa — e até se cria um prémio da paz para entregar a um governante que há muito tem os estrangeiros como alvo, acredita em muros e até prende e julga presidentes, ainda que ditadores, para lhes ficar com o petróleo.
No meio disto tudo, concordo em parte com Mourinho. Quando se marca um golo assim é tocar no céu, é para sair em ombros, abrir os braços e ser banhado pelo bafo dos deuses. Não é para provocar, gritar «Toma, toma!» e ver amarelo. Não estou a crucificar a vítima. Primeiro, nem sei se a há. Depois, é o comportamento desta que me faz pôr tudo em causa. Deixem lá a minissaia e a causa-consequência. Não é nada disso. Se esquecerem por uns segundos tudo o que se passou depois daquele pontapé e de muitos outros belos momentos num passado recente, conseguirão ver que Vinícius tem um problema. E que o primeiro passo para o resolver é o próprio reconhecê-lo. Se Prestianni foi racista, lamento, mas terá muitos mais.